Desde que fechou seu botequim, o velho tocador de alaúde Gazi Saheen está desempregado. Ele não atende quando os outros refugiados batem em sua porta, muito menos os jornalistas. Já Husan El Loah é o empreendedor do grupo, tocando dois lava-rápidos no centro de Mogi das Cruzes.

Estes são casos extremos entre os 108 palestinos que vieram em 2007 para o Brasil deixando para trás os quatro anos em que viveram em um campo de refugiados encravado nas areias do deserto da Jordânia. Metade deles se instalou no município da Grande São Paulo.
Mas uma nova e problemática fase começa para eles em janeiro próximo, quando termina a ajuda mensal dada pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) durante mais de dois anos, que incluía também o pagamento do aluguel. A partir de 2010, cada um tem que se virar.
Por isso mesmo, uma comitiva deles se reuniu com a prefeitura local para pedir a inclusão no “Minha Casa, Minha Vida”, programa federal para a construção de um milhão de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos. E também querem ser beneficiados pelo “Bolsa Família”, plano de transferência de renda para famílias com renda per capita abaixo dos R$ 120. Os palestinos enviados para cidades gaúchas também estão procurando essa saída após o fim da ajuda internacional.
“Com o dinheiro da ONU e nossos salários, estamos vivendo apertados. Imagina quando cortarem a ajuda. Não sei se vai dar para a comida”, se queixa Walid Tamimi, com os dois filhos, Mahamud e Hossam, abraçados a sua barriga proeminente.

Placa na estrada jordaniana que leva ao Iraque indica a proximidade do campo de Ruwaished
Walid Tamimi trabalha em uma fábrica de espelhos e, quando chega a casa, abre a lan house que montou na garagem. Sua mulher, Huda, recebeu seu primeiro salário em uma loja de móveis de uns libaneses. Os dois juntos recebem R$ 1.100. E ganham o mesmo tanto mensalmente da ONU para manter a família com dois filhos e os pais de Walid. Em 2010, vão ter que apertar o cinto para viver com a metade do orçamento.

Por quatro anos, as familiares moraram em tendas no meio do deserto com a areia em todo lugar
Walid, como os outros refugiados, fuma sem parar – hábito para matar o tempo, tão repetido na cidade de barracas de Ruweished, campo de refugiados montado pelo governo da Jordânia a 70 quilômetros da fronteira com o Iraque, um oásis às avessas, com tempestades de areia e os escorpiões. O governo de Amã decidiu fechar o local, e o Brasil aceitou receber os últimos moradores de Ruweished.

Além das palestinas, crianças sudanesas e curdas brincavam entre as cercas de arame do local
A maioria desses refugiados morava antes em Bagdá, a capital iraquiana que tiveram que abandonar após a invasão norte-americana de 2003 para derrubar o regime de Saddam Hussein. Temendo perseguição do novo governo local, os palestinos buscaram novamente esconderijo, uma regra para quem vive em uma diáspora que começou em 1948 com a fundação do Estado de Israel.
Da Palestina, tiveram que partir para os países vizinhos, onde em alguns momentos os palestinos também foram hostilizados, como no confronto com o exército jordaniano em 1970 e o massacre nos campos de Sabra e Chatila, no Líbano, em 1982.
No Iraque de Saddam Hussein, eles conseguiram abrigo graças a seu discurso pan-arabista. Porém, quando os EUA derrubaram o ditador iraquiano, os palestinos viraram novamente alvos preferidos. Seguiu-se nova dispersão palestina, com destino a Europa, América do Norte, Austrália, Chile e também Brasil.
Toda essa história pode ser resumida na própria trajetória de Mohamad Tamimi. “Eu já fugi sete vezes dos cinco campos de refugiados que já estive”, relata o senhor de 68 anos. Nascido na cidade de Ramallah em 1941, ele mudou-se aos sete anos com sua família para a Jordânia quando estourou a primeira guerra árabe-israelense. Voltou para a Palestina em 1955, mas saiu novamente com o conflito de 1967. Começou um périplo que incluiu uma detenção na Síria e passagens por campos de refugiados no Líbano e Jordânia até se instalar em Bagdá.
“Os interrogatórios da polícia síria foram os piores momentos da minha vida. Foi choque elétrico, afogamento. Faziam tanta pergunta atrás de gente que eu não conhecia que na hora em que falaram o nome do meu irmão também gritei: `Não conheço´. Eles me bateram ainda mais”, conta Mohamad com um sorriso no rosto como se estivesse contando um causo. À distância, até o sofrimento ganha uma comicidade.
No Brasil, ele está à vontade, mesmo não falando o português. Ele frequentou as aulas propiciadas pela ONG católica Cáritas e ainda tem os livros, mas não consegue ir mais longe que um “bom dia” e um “obrigado”. No lava-rápido do amigo Husan, Mohamad passa o dia de papo com os funcionários dele, que conhecem uma única palavra do árabe: “chigara” (cigarro), senha para pitar entre uma polida e outra nos veículos.
Husan El Loah está mais preocupado com o empregado que chegou para trabalhar louco de crack. Também é arredio para entrevistas. “Não quero aparecer porque falam que todos tinham que ser como eu. Mas eu trabalhei muito e dei sorte. Ninguém fala que trabalho das 7h às 23h, sem folga nem nos fins-de-semana”. Dubai e Dubai 2 são os nomes de seus lava-rápidos, que remetem a seu antigo endereço, seu paraíso perdido. Ele tinha uma revenda de carros nos Emirados Árabes antes de se ver aprisionado no campo de refugiados. Perdeu tudo no Golfo Pérsico para recuperar aqui.
Ele perdeu também a mãe, Nuha, que morreu em agosto último em um hospital de Mogi por problemas cardíacos. Mas antes recuperado o filho Aeihm, 10, que estava em Gaza quando Israel deu sua última investida militar na virada de 2009.
O menino de Husan brinca com os filhos de Walid. Mahamud, 6, ganhou o apelido de “nakba”, expressão que significa “catástrofe” e é usada para denominar o ano de 1948, em que os israelenses derrotaram os árabes. “Onde passa ele destrói, até queimou um computador”, lembra a mãe sobre o filho espoleta. Ele também apronta nas entrevistas: para cada equipe de reportagem diz que torce por um time diferente. Já se declarou gremista, palmeirense e corintiano.
Fiel é seu irmão Hossam, 11. “Aqui tem um bando de loucos/Loucos por ti, Corinthians”, canta na sala de sua casa vestindo uma camiseta autografada que a diretoria marqueteira do Parque São Jorge enviou para ele. Hossam é lateral-direito na escolinha de futebol corintiana.

Walid Tamimi posa diante da lan house na garagem, com os filhos Mohamud e Hossam
E prefere não lembrar a vida nas barracas perdidas na areia do Oriente Médio. “Quero esquecer tudo aquilo. Só sinto falta dos meus amigos, mas já estou até esquecendo o nome deles.” Ele está na segunda série em uma escola pública, dividindo a classe com garotos de oito anos. “Tem um repetente de 12 anos. Não estou tão mal assim”, brinca em perfeito português. Mesmo com forte sotaque, a mãe, Huda, deslanchou também no português, graças a um dicionário e às conversas com as vizinhas.

Husan El Loah tem dois lava-rápidos no centro de Mogi. O nome do local lembra de onde veio: Dubai
O aprendizado do idioma foi um dos focos das reclamações dos palestinos. Eles se queixam que todos foram colocados em uma sala só, com velhos e crianças, universitários e analfabetos.
Muitos, até agora, não conseguiram emprego por não dominar a língua local – os mais jovens se limitam a algum trabalho braçal por algum trocado, os velhos também não aprenderam como ganhar dinheiro em terra estrangeira. Outra queixa foi o número insuficiente de tradutores e intérpretes durante esse tempo, o que dificultou o acesso aos hospitais, cartórios e repartições.
Também criticaram a distribuição das casas pela cidade de Mogi: inicialmente cada família foi mandada para um bairro diferente, com relatos de refugiados perdidos por não saber se locomover pelas ruas e ônibus.
A nova diáspora foi resolvida com a mudança da maioria para a área central de Mogi. O Acnur argumenta que a disposição das casas alugadas obedeceu à oferta das imobiliárias no momento de chegada (leia ao lado abaixo com a posição do Acnur).
O plano de assentamento dos palestinos tem três órgãos por trás. Um é a Conare (Comissão Nacional de Refugiados), ligada ao Ministério da Justiça e responsável por todo lado legal desses estrangeiros no país. Outro é o Acnur, comitê da ONU, que se responsabiliza pelo orçamento que a ONG “executora” Cáritas gasta na integração deles. A própria Acnur estuda estender a ajuda mensal em 2010 para os forasteiros idosos, que tem pouca chance no mercado de trabalho.
Nesse cenário atuam também grupos de auxílio aos palestinos, como o Mopat (Movimento Palestina para Todos), formado por descendentes de palestinos, e o Comitê Autônomo de Solidariedade ao Povo Palestino, formado por ativistas sociais de Mogi das Cruzes que ajudam os refugiados nas negociações com a prefeitura de lá.
“Tem de estar disposto, ser militante, porque não é fácil usar suas horas livres para resolver os problemas dos outros”, afirma Hasan Zarif, com seu sotaque gaúcho. Hasan fundou o Mopat para ajudar os refugiados que tinham sua mesma origem. Mas ele mesmo aponta que houve pouca mobilização da comunidade palestina no Brasil, que ele calcula contar com 30 mil descendentes, com 10 mil no Rio Grande do Sul.
Ao contrário de outros refugiados no país, os palestinos estão sempre litigando – para uns, isso é indício de quem viveu sempre sob “cultura da guerra”, na qual cada negociação é um conflito; para outros, é resultado de uma vida passada sob diversos graus de assistencialismo.
Uma parte deles acampou por meses diante da sede do Acnur em Brasília – os mais idosos, que foram inicialmente colocados em uma casa de repouso, pediam até a transferência para outro país. Um deles morreu em hospital brasiliense, em uma crise respiratória agravada pelos meses passados em tendas no deserto jordaniano e no cerrado brasileiro. Outros refugiados entraram com representação no Ministério Público pedindo uma investigação por negligência no plano de adaptação ao Brasil.
Quem não tem do que reclamar são os 20 palestinos que conseguiram emprego em um frigorífico na cidade paranaense de Dois Vizinhos. O local abate frangos direcionados para Meca (cidade sagrada do islamismo) e para exportação para o mundo árabe. Os açougueiros têm que ser muçulmanos.
Na mesquita em azul e branco de Mogi das Cruzes, o xeique responsável se mostra pessimista sobre a aclimatação dos palestinos. “Eles não vão se adaptar nunca. Eu falei no primeiro dia e falo hoje”, decreta o egípcio Hosni Abd-Elhamid dentro de sua túnica.
Na entrada do templo, o xeique conversa com o patriarca da única família cristã entre os refugiados palestinos. Abu Naji veio de uma família católica de Belém, terra natal de Jesus Cristo. Fez a vida em Bagdá, onde se formou engenheiro e tinha uma fábrica. Seu filho, também engenheiro, está fazendo doutorado na USP. “A culpa de tudo isso é dos ingleses”, teoriza sobre a decisão fracassada da Inglaterra de partir a Palestina entre um território judeu e outro árabe ao final da Segunda Guerra Mundial.
Os culpados de ontem e de hoje se acumulam nas reclamações palestinas. O Conare já chegou a classificar as queixas como “ingratidão”. A Acnur afirma que o programa de assentamento está cumprindo seus objetivos. E os refugiados seguem protestando.

Fonte: UOL Notícias
Escrito por refunitebrasil
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