
Refugiado palestino é filmado por equipe brasileira de cineastas (Foto: Divulgação)
Filme narra a chegada e a adaptação ao país de um grupo de 107 palestinos
* Carolina Montenegro
Na tela do cinema, um homem varre areia e pedra no meio do deserto. Outro cria dois gatos na precária barraca onde vive há anos. Uma senhora rega seu jardim e um jovem casal conta sua história de amor, nos braços um recém-nascido. Um jovem sorridente repete palavras em português sentado sobre um caixote.
Todos são refugiados palestinos a caminho do Brasil. Em 48 horas, 107 palestinos desembarcam em São Paulo depois de viverem cinco anos em um campo na Jordânia. É setembro de 2007. A maioria deles nasceu e morava no Iraque, mas com a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, tornaram-se um dos grupos perseguidos por milícias xiitas.

Fronteira entre a Jordânia e o Iraque, perto do campo de refugiados de Ruweished (Foto: Divulgação)
As cenas fazem parte do documentário “A Chave da Casa”, dirigido por Paschoal Samora e Stela Grisotti, que foi divulgado no Festival 14º É Tudo Verdade, de março a abril em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. “Tivemos acesso ao campo de refugiados por apenas dois dias, depois de enfrentar a burocracia do governo da Jordânia e o forte esquema de segurança da ONU”, conta Grisotti.
O imprevisto acabou servindo de mote para a filmagem das últimas 48 horas dos refugiados no campo de Ruweished. Outra curiosidade, a tradutora da ONU que iria ajudar nas entrevistas teve que atender uma emergência. Conclusão: dezenas de hora de filmagem foram feitas às escuras, sem os cineastas saberem o que os palestinos diziam. A tradução das cenas foi feita no Brasil três meses mais tarde.
“Acabamos escolhendo os personagens também ao acaso, por causa disso. Demos muita sorte”, explica a diretora. Foi dela também que partiu a idéia do documentário. “Perguntei para mim mesma como a humanidade ainda permitia que essas pessoas vivessem nesta situação precária, no meio do deserto, por anos”, afirma.
“É absurdo o número de refugiados hoje no mundo, a única coisa que circula livremente é o dinheiro. Queria propor uma reflexão sobre a questão, que é tão grave e tão pouco abordada no Brasil”, explica Grisotti. O tema dos refugiados interessava Stela desde que filmou, em 1997, o documentário “Vale a pena sonhar” sobre Apolônio de Carvalho e a geração de 1968, premiado pela TV Cultura.
“Dessa vez, decidimos dividir o ‘A Chave da Casa’ em dois Atos. No primeiro está a saída da Jordânia e no segundo, a adaptação no Brasil, nove meses depois”, diz Stela. No país, os refugiados foram reassentados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Campo de refugiados de Ruweished, na Jordânia, a cerca de 50km do Iraque (Foto: Divulgação)
O jovem casal comemora a chegada de um novo bebê, um menino que será brasileiro. O palestino que estudava português no deserto ensina árabe para crianças no Brasil. O futuro se delineia, mas as dificuldades de adaptação são grandes. “Dia 15 começo a me preocupar com o que vou comer dia 16 e no dia 20 estou quebrado já”, afirma o jovem de 26 anos que recebe ajuda financeira do Acnur (Agência da ONU para Refugiados) no valor de R$ 350 por mês.
A simpática senhora palestina de cabelos brancos e cara redonda mantém arrumada a nova casa à espera das visitas que na Palestina eram tão freqüentes. “Também não rezo mais desde que cheguei ao Brasil”, revela contando que não sabe qual a direção correta de Meca. “Já perguntei para outras pessoas, mas cada uma diz uma coisa diferente.”
Mas é o encontro de dois dos palestinos vindos ao Brasil, que dá o tom da conclusão do documentário. A esperança e a expectativa do Ato I ganham traços de melancolia e decepção. Um, destinado a Pelotas, o outro, a Mogi das Cruzes, travam uma conversa cheia de ironia e crítica sobre sua condição de perpétuos refugiados.
O primeiro comenta que ao tirar seu CPF no Brasil, por engano, seu local de nascimento foi identificado como Palestina. “Nós lutamos há 60 anos para este lugar existir e eles conseguiram isso primeiro”, conta bem-humorado. Também conversam sobre a saudade dos amigos que ficaram em Bagdá. “Se eles nos vissem achariam que estamos vivendo com luxo aqui no Brasil, mas daria tudo por uma hora em Bagdá”, afirma o outro refugiado.
No trajeto da viagem entre São Paulo e Rio Grande do Sul, ele coloca nos papel suas angústias em forma de um diário. E encerra perguntas sem respostas sobre a identidade de seu povo: “Será este o destino dos palestinos, se perder em várias partes do mundo? Um povo sem pátria, de uma terra roubada. Será que um dia voltarei à Palestina?”
* Repórter Especial Refugees United


Julho 6, 2009 às 5:05 pm
Olá amigos.
Tomamos conhecimento do filme pelo programa Almanaque e, gostaríamos de apresentá-lo aqui.
Abraços,
Professor Kico
CEBRAPAZ-PR
Outubro 18, 2009 às 10:28 am
Olá!!!
Estou procurando uma forma de comprar esse documentário em DVD.
Algum de vocês sabem se está à venda em algum lugar?
Obrigada,
Celia.