UNRWA enfrenta crise sem precedentes e pode reduzir assistência no Líbano

Por Carolina Montenegro*, em Beirute

A UNRWA (agência da ONU que presta assistência aos refugiados palestinos) corre o risco de ter de reduzir operações no Líbano em 2010, se não houver aumento da contribuição financeira de doadores à instituição até o final deste ano.

“Podemos ter de reduzir os serviços se até o final de 2009 não conseguirmos arrecadar os US$ 39 milhões que estão faltando para cumprirmos com nossas atividades”, afirma Hoda El Turk, porta-voz da UNRWA no Líbano. A agência tem orçamento de US$ 70 milhões para atender 400.000 refugiados no país este ano.

Há 60 anos, a UNRWA é a maior agência da ONU, em número de empregados. Com sede em Gaza, na Cisjordânia, e Amã, na Jordânia, a entidade presta serviços sociais de educação e saúde para refugiados palestinos que vivem na Jordânia, Líbano, Síria, Gaza e Cisjordânia e emprega cerca de 25.000 pessoas (80% deles refugiados palestinos).

“Já sentimos os efeitos da crise financeira mundial, houve redução das doações este ano. Mas se tivermos de reduzir custos em 2010, vamos primeiro cortar compra de equipamentos e gasto com pessoal, antes de reduzir os investimentos com projetos sociais”, diz Hoda.

Segundo ela, o montante desembolsado pelos maiores doadores (Estados Unidos e União Europeia) não tem acompanhado o crescimento da população palestina nos campos de refugiados. “Em 60 anos de existência, o foco do trabalho da UNRWA passou da ajuda humanitária para o desenvolvimento. Hoje, posso avaliar que com esta mudança, realizamos mais projetos, mas reduzimos os serviços prestados”, explica.

Rações diárias de comida eram distribuídas para todos os refugiados no início da atuação da UNRWA e hoje estão restritas às famílias mais pobres que não podem arcar com sua própria alimentação (“refugees families in special hardship”). Estes grupos também recebem auxílio financeiro e de moradia.

“No entanto, os refugiados que não se encaixam nesta categoria são atualmente atendidos de outras formas, fornecemos acesso a micro-crédito para empreendimento e empréstimos para compra de imóveis”, acrescenta Hoda.

Sub-emprego no Líbano
No Líbano, a agência enfrenta grandes desafios também devido à legislação trabalhista local que proíbe os refugiados palestinos de trabalharem em dezenas de profissões, devido a um conceito de reciprocidade. “Brasileiros dentistas podem atuar no Líbano, porque libaneses podem ser dentistas no Brasil, mas isso não se aplica aos palestinos, que não possuem um Estado próprio”, afirma Hoda.

A situação de vida nos campos de refugiado no país é tida hoje como a mais precária da região, segundo a ONG internacional de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. “Prevalece a pobreza extrema e o sub-emprego”, alertou esta semana o analista sênior da instituição para o Líbano e Síria, Nadim Houry.

Segundo Hoda, apesar da UNRWA ter centros de treinamento (com aulas de costura e secretariado) e oferecer serviços de colocação no mercado, a situação do emprego no Líbano é particularmente difícil. A maioria dos refugiados realiza trabalhos temporários, em colheitas e construções.

Para tentar reverter a situação, a agência da ONU tem trabalhado em parceria com o governo libanês, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Em 2007, criaram o Comitê para o Emprego dos Refugiados Palestinos no Líbano (FCEP, na sigla em inglês), com o objetivo de mapear a situação do emprego nos campos de refugiado do país e apontar soluções.

“Uma nova alternativa, que surgiu nos últimos dois anos, é o mercado de trabalho dos países da região do Golfo, principalmente na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes. Eles precisam de mão-de-obra qualificada e nós fornecemos serviços de colocação profissional de universitários. Fazemos a ponte com o empregador”, acrescenta Hoda.

Até alguns anos atrás isso não era possível por causa de um conflito de interesses políticos na região. Desde que o ex-líder palestino Iasser Arafat apoiou a invasão iraquiana no Kwait, em 1990, os países do Golfo passaram a hostilizar a entrada de trabalhadores ou refugiados palestinos.

* Repórter Especial Refugees United

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