
Abdul Ahad, à esquerda, dirige com um segurança em território talibã de Cabul, em junho deste ano (Foto: Eros Hoagland/The New York Times)
Em 2008, 18 mil afegãos solicitaram asilo na Europa, o dobro de 2007. ‘Se você vai onde há trabalho, é morto em uma semana’, diz jovem.
Em duas décadas de conflitos, Abdul Ahad nunca cogitou deixar o Afeganistão. Porém, em 2007, seu país começou a se deteriorar rapidamente, assim como sua vida. Ele foi dispensado de seu trabalho integral como motorista e obrigado a aceitar o único trabalho que conseguiu encontrar: dirigir, uma vez por semana, através de território talibã.
Nos últimos oito meses, um homem-bomba e um tiroteio quase tiraram sua vida. Agora, Ahad, de 26 anos, disse basta. Ele começou a procurar potenciais contrabandistas para enviá-lo à Europa, disse ele, buscando se juntar ao crescente grupo de jovens afegãos que estão abandonando o país. Eles estão frustrados com a guerra infindável, a falta de perspectiva e o ritmo lento de mudança.
Apesar dos diplomatas estrangeiros manterem esperanças de que as eleições presidenciais de agosto e o novo posicionamento das tropas de Barack Obama possam mudar as coisas, os afegãos estão votando com as pernas.
No ano passado, cerca de 18 mil afegãos solicitaram asilo na Europa, um número quase duas vezes maior que o total de 2007. Esse pico representou o maior aumento num grande país em 2008, segundo as Nações Unidas. Em comparação, as solicitações de iraquianos caíram 10%.
“Não encontramos emprego aqui”, disse Ahad. “Se você vai a um lugar onde há trabalho, é morto em uma semana.”
“Estou desesperado”, acrescentou. “Não é o sonho da minha vida. Só quero terminar meus estudos e viver uma vida normal.”
Disposto a aceitar os riscos, jovens como ele estão entregando todas as suas economias – em alguns casos, até US$ 25 mil – e suas vidas nas mãos de contrabandistas. Eles arranjam viagens internacionais marítimas, para a Austrália, ou terrestres, para a Europa, onde os afegãos tentam obter asilo.
Mediadores
Encontrar um profissional deste ramo não é tão difícil quanto parece. Em entrevistas na capital, Cabul, vários contrabandistas (todos exigiram anonimato, pois seu trabalho é ilegal) estimaram que os negócios aumentaram em 60%, em comparação ao ano passado. Um deles afirmou que, pela primeira vez em sua carreira de 11 anos, ele teve de recusar clientes.
“Não consigo lidar com toda essa demanda”, disse ele. “Nunca imaginei que fosse chegar a esse ponto.”
A situação urgente do país fez com que até mesmo afegãos privilegiados deixassem o país. Entre eles, o apresentador de “Afghan Star”, uma série de televisão no estilo “American Idol”, que desapareceu depois que um documentário baseado no programa ganhou dois prêmios no Festival de Cinema de Sundance. Outro exemplo é um profissional da mídia que trabalhou para o presidente Hamid Karzai e abandonou sua delegação durante uma visita oficial aos Estados Unidos, em setembro último.
Há apenas alguns anos, o otimismo era abundante por lá, à medida que a invasão comandada pelos Estados Unidos parecia ter expulsado o Talibã, e acompanhou a volta de 3,5 milhões de refugiados afegãos de volta para a casa, enquanto se deflagrava uma série de promissores projetos de reconstrução.
G1 conta a história do Talibã
No entanto, desde 2006, ondas de afegãos fugiram da insurgência talibã, da corrupção endêmica e da incapacidade do governo em oferecer serviços básicos, como eletricidade. Eles estão acabando em águas perigosas, próximas à Austrália, em prisões turcas, em estações de trem de Roma e na Pequena Cabul, em Paris.
Vida de imigrante
Em Calais, França, um complexo presidiário para imigrantes, apelidado de “Selva”, mantém cerca de 600 afegãos em condições “muito, muito piores, comparadas a dois anos atrás”, disse Jean-Philippe Chauzy, da Organização Internacional para a Imigração, uma agência intergovernamental baseada em Genebra. Ele visitou o campo em maio. Oficiais franceses prometeram fechar o centro até o final de 2009.
Profissionais da imigração e recentes deportados disseram que muitos outros afegãos simplesmente desaparecem fora do país, são explorados sexualmente por motoristas de caminhão, ou forçados a trabalho escravo. Muitas solicitações de asilo não obtêm sucesso.
“É morte ou viagem”, disse Shuja Halimi, que não expressou arrependimento depois de ser deportado do Reino Unido para o Afeganistão, após uma jornada de dois meses por doze países, incluindo a Bulgária. Lá, ele afirma ter escapado de tiros na fronteira. Ele contou que as condições de vida na Europa eram terríveis, “mas não tão ruins quanto no Afeganistão”. Agora, em Cabul, Halimi, pai de três filhos, ainda não encontrou emprego.
“Temos um presidente, chamado Hamid Karzai, que não fez nada pelo povo afegão”, disse ele, entoando o sentimento de muitas outras pessoas.
Há poucos dias, no aeroporto da capital afegã, 30 jovens deportados da Inglaterra voltaram para casa pela primeira vez em anos. Trazendo apenas uma bolsa simples, Akbar Khan, 20 anos, prometeu tentar novamente. “Vamos tentar voltar em mais ou menos um mês, depois que juntarmos dinheiro”, disse.
Numa tentativa de restringir a migração, a Organização Internacional para Migração (OIM) veiculou uma campanha na mídia, alertando sobre os riscos do contrabando. O governo italiano, que, no ano passado, observou um aumento de 202% nas solicitações de asilo por parte de cidadãos afegãos, financiou a iniciativa.
O Paquistão e outros países vizinhos historicamente ofereceram aos afegãos refúgio durante crises como a ocupação soviética. Porém, hoje, o Paquistão enfrenta sua própria crise interna de refugiados. O Irã também está adotando uma postura linha-dura, agora considerando os afegãos migrantes econômicos, em vez de vítimas da guerra – eles deportaram 700 mil pessoas no ano passado.

Jovens deportados da Inglaterra voltaram para casa pela primeira vez em anos (Foto: Eros Hoagland/The New York Times)
À medida que mais uma avenida se fecha, os afegãos agora estão envolvidos “no que se tornou uma migração intercontinental”, disse Chauzy, da OIM. A rota mais comum para os afegãos, então, é pelas estradas – do Irã à Grécia, passando pela Turquia – e os custos giram em torno de US$ 16 mil, dizem os contrabandistas. Por cerca de US$ 25 mil, eles disseram poder garantir uma viagem aérea facilitada por documentos falsos ou subornos pré-pagos a oficiais de imigração.
Uma vez na Europa, os afegãos solicitam asilo, muitas vezes no Reino Unido, Turquia, Grécia e Itália. Os países escandinavos e a Suíça recebem muito menos solicitações, mas aceitam um número significativamente maior de afegãos, segundo dados da Comissão Europeia.
Especialistas em migração afirmam que a ampliação da diáspora afegã na Europa motivou a tendência, ancorando novas chegadas e oferecendo consultoria cada vez mais sofisticada sobre o processo de obtenção de asilo.
Recentemente, oficiais europeus que tentam restringir a migração ilegal desmontaram várias operações de contrabando. Em junho, oficiais britânicos condenaram um homem afegão que se auto-intitulava “o contrabandista da Europa”. Ele afirmou que sua operação de milhões de dólares servia a milhares de jovens, segundo conversas telefônicas gravadas por autoridades. Alguns homens eram forçados a trabalhar em redes de pizzarias para pagar a dívida.
Entretanto, oficiais no Afeganistão têm sido mais lentos na repressão aos contrabandistas. Um criminoso riu quando questionado se temia ser preso, e disse que seu negócio operava quase como uma agência de viagens.
“Neste governo, há três coisas que funcionam bem: relações, dinheiro e conhecidos”, disse o contrabandista. “Quando essas três coisas existem, qualquer um consegue o que quiser.”
Noor Haidiri, consultor do Ministério dos Refugiados, colocou culpa nos vizinhos regionais do Afeganistão. Muitos afegãos, disse ele, deixam o país ilegalmente e contratam contrabandistas no Irã ou em Dubai, nos Emirados Árabes. Quanto às redes existentes aqui, ele disse: “só tivemos nosso governo eleito pela primeira vez há cinco anos. Isso é lento”. Porém, muitos jovens afegãos sentem que, devido ao perigo que ronda o país, a legalidade é uma preocupação secundária.
“Eu amo este país, mas ele está indo na direção totalmente contrária”, disse um rapaz de 26 anos, com lágrimas nos olhos. Ele não quis informar seu nome, pois estava planejando deixar o Afeganistão. “Eu quero viver como uma pessoa normal: acordar, ir trabalhar e ter minha mulher – ou uma namorada, de preferência.”
Fonte: G1