Budapeste: refugiados somalis lutam contra o inverno

Enquando pensa no futuro, um refugiado africano toma uma xícara de café num abrigo para indigentes em Budapeste. (Foto: B.Szandelszky/ ACNUR)

Abdurrahman* escapou de tiros em Mogadishu, sua cidade natal, e suportou uma terrível adversidade para conseguir chegar à Europa. Mas ele disse que nada foi tão ruim quanto suas experiências na capital húngara.

“Esta tem sido a pior semana da minha vida”, contou o jovem refugiado somali enquanto segurava uma xícara de café entre as mãos geladas, durante a visita do pessoal do ACNUR. Foram eles que o encontraram sentado no banco de uma praça no centro da cidade de Budapeste e o levaram a uma cafeteria próxima dali.

Como muitos outros somalis que receberam o status de refugiado na Hungria, Abdurrahman não entendeu que os regulamentos da União Europeia lhe concediam a autorização de visitar outros Estados por um período de até 30 dias, mas não de se instalar neles. O refugiado africano, que tinha ido se juntar aos seus parentes na Grã-Bretanha, foi enviado de volta para Budapeste em dezembro passado, em cumprimento ao regulamento Dublim II. Esse regulamento exige que os requerentes de asilo permaneçam no país onde apresentaram o pedido, que é geralmente o seu primeiro ponto de entrada na Europa.

Aqueles que são enviados de volta para Budapeste se deparam frequentemente com dificuldades para encontrar moradia, além de terem perdido alguns benefícios, inclusive uma bolsa de integração equivalente a cerca de 620 euros. Eles podem solicitar um subsídio do seguro social no valor de 100 euros por mês. No entanto, o pedido leva tempo para ser processado.

Com a chegada do inverno, tempo é algo que muitos deles não podem perder. O ACNUR acredita que mais de 50 somalis estão vivendo numa situação precária, forçados ou a dormir ao relento ou em abrigos para os indigentes. Muitos têm que recorrer a pedir esmolas.

O seu bem-estar se tornou um caso de séria preocupação para o ACNUR com o início do inverno. No mês passado, o ACNUR convocou o governo da Hungria e as autoridades civis a tomarem medidas de emergência para ajudar os refugiados sem abrigo.

“Precisamos de uma solução imediata para os refugiados na Hungria, visto que as temperatutas têm caído para abaixo de zero”, alertou Gottfried Köfner, representante do escritório regional do ACNUR em Budapeste. “O governo deve olhar com atenção as deficiências estruturais de um sistema de integração que deixa refugiados em tamanha miséria, sem nenhuma oportunidade efetiva de encontrar um emprego, uma casa ou de viver com dignidade na Hungria”, acrescentou ele.

A experiência de Abdurrahman na Europa reflete a de muitos de seus compatriotas. Depois de chegarem na Hungria e serem reconhecidos como refugiados, eles geralmente são transferidos para uma unidade especial em Bicske, no oeste de Budapeste, que providencia para eles aulas de húngaro e outros suportes de integração.

Eles passam seis meses em Bicske e, depois disso, conseguem se cuidar mais ou menos sozinhos. É nessa etapa que muitos decidem se mudar para outros países, especialmente para os Países Baixos, para os países escadinavos e para o Reino Unido.

Um grande número de somalis contou ao ACNUR que os principais motivos para a mudança de país eram a falta de oportunidades de emprego e treinamento vocacional, a dificuldade de encontrar moradia, os problemas com o idioma, o medo de ataques racistas e a impossiblidade potencial de se reencontrarem com suas famílias na Hungria.

Omar*, 21 anos, disse que decidiu ir para a Finlândia poucos meses depois de obter asilo porque pensou que não conseguiria sobreviver na Hungria. Ele tinha começado um curso de computação em Helsinki quando foi enviado de volta para casa depois de tentar, em sua falta de conhecimento das leis, fazer uma solicitação de asilo novamente.

Quando o ACNUR o encontrou em meados de dezembro, Omar estava morando num abrigo para indigentes em Budapeste. Ele estava preocupado em como sobreviveria ao inverno, pois esse abrigo iria fechar para reforma.

Abdurrahman foi direto para Manchester, no Reino Unido, depois de obter asilo no começo de 2008. “Eu tinha tudo. Estava em Manchester com meu tio e sua família. Eles tomavam conta de mim muito bem. Eu estava tendo aula de idiomas e me preparando para ir à escola”, ele revelou, acrescentado com amargura: “Agora estou sem nada.”

O rapaz, que fugiu de Mogadishu para escapar da violência desenfreada, queixou-se de ter sido largado no aeroporto de Budapeste. “Eu não tinha dinheiro nenhum, não tinha roupas quentes e não conhecia ninguém na Hungria”, recordou Abdurrahman, que acabou dormindo três noites ao relento na praça Blaha Lujza no centro de Budapeste.

Com frio, com fome, sujo e com medo de skinheads, ele refez o caminho para o único lugar que conhecia – a unidade de Bicske. Colegas somalis cuidaram dele antes de ser descoberto pelos guardas e mandado embora. “Afixaram minha foto na entrada como se eu fosse um criminoso. Mas eu apenas não tinha outro lugar para ir.”

Quando o ACNUR conversou com Abdurrahman, ele não podia nem mesmo ficar num abrigo para indigentes porque para isso precisava apresentar uma identidade, um cartão de endereço e um certificado médico comprovando que não sofre de nenhum doença contagiosa. Tudo o que ele tem é um cartão de embarque do voo Londres-Budapeste, que destruiu seu sonho.

Ele pode conseguir toda essa documentação com a ajuda do Departamento de Imigração e Nacionalidade, mas isso requer conhecimento da língua e tempo. O ACNUR espera que sua intervenção, centrada em resolver a crise de moradia para os refugiados e ajudar no melhoramento das políticas de integração da Hungria, incluindo o direito ao trabalho e a uma condição de vida digna, ajudará pessoas como Abdurrahman.

*Os nomes foram mudados por razões de segurança.

Por Zoltan Toth e Melita H. Šunjić em Budapeste, Hungria

Fonte: ACNUR

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