Deslocados internos buscam se adaptar em cidades colombianas

Altos de Cazucá, Soacha. (Foto: S.Abondano/ ACNUR)

O município de Soacha, nos arredores de Bogotá (capital da Colômbia), continua sendo o principal destino da população deslocada de Cundinamarca, região central do país. Segundo estatísticas oficiais, existem atualmente 30.850 pessoas deslocadas registradas em Soacha, que representam cerca de 40% do total de pessoas deslocadas internamente em todo o departamento de Cundinamarca.

As autoridades continuam registrando diariamente novas declarações de deslocamento de três ou quatro famílias. “Entre outubro de 2009 e janeiro deste ano, chagaram mais famílias buscando refúgio, em comparação com o ano anterior”, afirmou o padre Ricardo Martínez, que coordena uma casa de acolhida em Soacha. Na Colômbia, segundo as cifras oficiais, foram deslocadas 3.303.979 pessoas entre 1998 e 2009, provenientes de 99,45% dos 1.100 municípios que existem no país.

Pedro e Beatriz (nomes fictícios, por motivos de segurança) fazem parte das famílias recém-chegadas a Soacha. A maioria dos deslocados internos vem do sul da Colômbia e sua trajetória até os arredores de Bogotá foi longa e cheia de dificuldades. “Tivemos que sair imediatamente de nossas casas. Grupos armados ilegais mataram meus pais por uma discussão sobre posse de terra e não tinha outra opção a não ser fugir para não terminar da mesma maneira ou ser recrutado à força”, afirmou o jovem marido de quase 30 anos de idade.

“Tivemos que parar e trabalhar um tempo para arrumar dinheiro que nos permitisse continuar a viagem”, afirmou Beatriz, que espera seu quarto filho. O casal, que no momento está abrigado em uma casa de acolhida, com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), começou a buscar trabalho para iniciar uma nova vida e sustentar seus filhos. No entanto, Pedro não se recuperou do trauma pelo qual passou e está recebendo apoio psicológico e jurídico como parte da assistência que o ACNUR proporciona aos deslocados.

Para os deslocados recém-chegados, não é fácil adaptar-se aos ritmos de uma cidade, considerando que a maioria vem das zonas rurais de departamentos (estados) como Tolima, Chocó, Santander e Caquetá. “Os camponeses estão acostumados a caminhar por horas e horas e não sabem como pegar um ônibus ou como se orientar nas ruas de Soacha, que se confundem com as de Bogotá”, afirmou uma assistente social da casa de acolhida. Por este motivo, as autoridades, com apoio do ACNUR e seus parceiros, pensam em criar programas de orientação para explicar noções básicas aos recém-chegados, incluindo cursos sobre serviços gerais, domésticos e vários ofícios.

Neste momento, para facilitar o ingresso ao mercado de trabalho, a casa de acolhida oferece um curso de panificação com 30 participantes, dos quais 70% são mulheres. Não é fácil, sobretudo para homens, inserir-se nos circuitos econômicos locais. Isto está associado à forma traumática como ocorre o deslocamento rural da maioria das pessoas, às difíceis condições de vida nos locais de chegada e à mudança de papéis que se dá após o deslocamento, quando a mulher é geralmente quem consegue primeiro começar a gerar renda. “Há casos de homens que eram líderes muito respeitados por seus companheiros e aqui começam a se deprimir. Não se sentem úteis a si mesmos, nem à sociedade.”

Desde 2004, o ACNUR fornece apoio aos deslocados de Soacha observando constantemente as condições de vida da população em situação de deslocamento, facilitando os processos de fortalecimento das organizações que apóiam estas populações e dando seguimento a casos específicos, em colaboração com as autoridades competentes.

Entre os vários projetos que o ACNUR apóia está a Casa dos Direitos, em aliança com a Defensoria Pública, criada para incentivar a presença civil do Estado e promover a participação da população e a defesa dos seus direitos. Em 2009, a Casa atendeu mais de cinco mil pessoas. Outros projetos com impactos positivos são os Círculos de Aprendizagem, criados para reestabelecer o direito à educação das crianças deslocadas, e os albergues para promover assistência humanitária.

Da mesma forma, a organização governamental Ação Social inclui as pessoas em um registro de deslocados, garantindo albergues, alimentos, apoio psicológico e social e orientação durante os 15 dias que as famílias em situação de deslocamento têm para se declarar ao Ministério Público e ter seu caso avaliado pela Ação Social. Cada albergue tem capacidade para 20 pessoas por semana.

Apesar dos avanços, ainda restam desafios para a proteção dos direitos dos deslocados, como no caso do recrutamento forçado de menores. O problema tem aumentado e há vários anos se alerta para a presença de pessoas dedicadas a envolver jovens em atividades à margem da lei, sem que haja uma proteção eficaz. “Soacha é o terreno ideal para seduzir pessoas para a delinquência. A maioria da população é composta por jovens, com poucas oportunidades de estudo. Uma boa parte está marginalizada do mercado de trabalho, e outra, envolvida com a indústria das drogas”, afirmou a representante de uma ONG local que há muitos anos trabalha na região.

Um líder dos deslocados internos, atualmente vereador de um município próximo de Bogotá, assegura que “os deslocados continuam sendo vistos como ladrões ou mendigos” e lamenta que as pessoas não compreendam que “se somos deslocados, é porque nossa vida estava em perigo”. Segundo ele, chegar a ser vereador e líder reconhecido dos deslocados “foi fundamental para me capacitar sobre a lei e todos os documentos legais sobre os deslocados”. “Conhecer meus direitos me permite influenciar um pouco a política pública”, acrescentou.

Por Francesca Fontanini, em Soacha, Colômbia

Fonte: ACNUR

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