Mulheres estão mais vulneráveis ao aquecimento global

Foto: Laura Daudén/Divulgação

Relatório diz que elas podem ser 80% dos refugiados do clima e quase 70% das mortes em desastres ambientais

Já é fato conhecido que o aquecimento global não é uma ameaça igualitária para todos, já que os impactos na produção de alimentos, as severas tempestades e as secas, entre outros fatores, atingem as nações mais pobres com maior intensidade do que as mais ricas. A nova descoberta é que, de acordo com um novo relatório divulgado na terça-feira, as mudanças climáticas também não seguem a igualdade de gêneros: as mulheres são especialmente mais vulneráveis que os homens aos seus efeitos, formando um contingente surpreendente de 80% dos refugiados do clima.

De acordo com um estudo publicado esta semana pelo Women’s Environmental Network (WEN), com sede no Reino Unido, mais de 10 mil mulheres morrem a cada ano por causa de desastres relacionados ao clima, como tempestades tropicais e secas, frente a um total de 4,5 mil homens apenas.

As mulheres compreendem também 20 milhões de um total de 26 milhões de pessoas que tiveram que sofrer deslocamentos por causa do aquecimento global. Essas discrepâncias são ainda mais fortes em países onde falta igualdade de gêneros, segundo a WEN.

“Por exemplo, em Bangladesh, em um ciclone de 1991, o número de mulheres jovens mortas foi quase cinco vezes maior que o de homens”, especifica o relatório. “Isso aconteceu em grande parte porque as mulheres não conseguiam nadar, tinham mobilidade restrita por causa das vestimentos e muitas delas deixaram suas casas tarde demais porque ficaram esperando pelos parentes do sexo masculino para acompanhá-las.”

Estudos de desastres em 141 países descobriram que, nos locais onde a igualdade dos sexos já está mais consolidada, houve pequena ou nenhuma diferença no número de mortes de homens e mulheres. Mas onde os direitos da mulher se encontram comprometidos, a mortalidade feminina é mais alta.

Vida cotidiana
Não só em desastres os efeitos das mudanças climáticas estão sendo sentidos mais intensamente pelas mulheres em todo o mundo, mas também na vida cotidiana, afirma o relatório da WEN, entitulado “Gênero e a agenda das mudanças climáticas”. “Em muitos países em desenvolvimento, a intensificação da escassez de água liagada ao aquecimento global está aumentando a distância que as mulheres precisam percorrer para buscar água e combustível, e isso significa que as crianças, especialmente as meninas, não vão para a escola para ajudar nessa tarefa quase sempre exaustiva.”

As mulheres fazendeiras, que geralmente trabalham em pequena escala e com frequência não têm completa autoridade sobre as terras onde produzem, também são muito atingidas por colheitas reduzidas relacionadas às mudanças climáticas. As mulheres também carregam o peso de cuidar de familiares com doenças respiratórias, tropicais e outros males agravados pelo aquecimento global.

Mesmo em países europeus onde a igualdade é maior, o percentual de mulheres vivendo abaixo da linha de pobreza – 19% mais do que os homens, no caso do Reino Unido, por exemplo – significa que elas são mais vulneráveis ao aumento dos preços dos alimentos, ondes de calor e ameaças à saúde.

Pegada ecológica
Ironicamente, o relatório da WEN aponta que, uma vez que mais mulheres do que homens vivem na pobreza, “é mais provável que elas tenham pegada ecológica abaixo da média”. E também estão mais ligadas do que os homens em projetos da comunidade para combater o aquecimento global e mais propensas a considerar o impacto ao meio ambiente na tomada de decisões, de acordo com a organização, insinuando que essa liderança local poderia atingir níveis nacionais ou internacionais também.

Dos 16 países apontados pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas com alto desenvolvimento humano e redução do total de suas emissões de gases de efeito estufa entre 1990 e 2004, 13 deles tinham uma proporção maior de mulheres eleitas em cargos representativos do que a média.

“Se nenhuma medida for tomada, as mudanças climáticas aumentarão a inegalidade de gênero, fazendo com que seja muito menos provável que as metas de desenvolvimento do milênio sejam atingidas. O principal valor esquecido em Copenhague foi a falta de priorizar os mais pobres e vulneráveis, mulheres em sua maioria, de acordo com a estatística”, disse a fundador da WEN, Bernadette Vallely.

“Dando mais voz às mulheres nas tomadas de decisões contra a mudança climática e fazendo ações maiores pela igualdade de gênero não somente poderia evitar consequências desastrosas do aquecimento global, mas também fazer progressos em direção a uma sociedade mais igualitária.”

Fonte: O Estado de S.Paulo

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