Bairro de São Paulo reflete interseção entre diferentes culturas no Brasil

Arquiteta Stamatia Koulioumba

Feirantes nordestinos vendendo frutas e verduras em coreano fluente é uma das cenas inusitadas que podem ser presenciadas no dia-a-dia do bairro paulistano Bom Retiro.

Caldeirão cultural que abriga há mais de um século imigrantes na cidade, o bairro Bom Retiro, localizado na região central de São Paulo, já viu passar várias levas de estrangeiros entre seus habitantes, desde os italianos que chegaram ao fim do século 19 até os bolivianos, os últimos de uma cadeia de migrantes que adotam a cidade como esperança de dias melhores.

“O Bom Retiro era um bairro muito interessante devido a sua localização próxima do centro e da estação de trem. Quem chegava ao Brasil pelo porto de Santos, pegava o trem para São Paulo e se instalava por ali. Os italianos que não queriam ir para as fazendas porque tinham profissões urbanas, ficaram por ali”, relata Maria Ruth Amaral de Sampaio, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Cadeia de imigração
Depois dos italianos, foi a vez da chegada de judeus do Leste Europeu ao bairro, o que aconteceu a partir dos anos 1920. Depois vieram armênios, árabes sírio-libaneses e gregos – estes nos anos 1940 e 1950. E a partir dos anos 1960 os coreanos, em fuga das guerras entre as duas Coreias. Hoje, vivem também no Bom Retiro muitos bolivianos, empregados nos estabelecimentos de indústria têxtil de propriedade coreana.

Apesar das arestas do dia-a-dia, o bairro pode ser considerado exemplo de convivência pacífica e bem-sucedida entre as mais diversas culturas. Se as redes sociais envolvem sempre pessoas da mesma procedência, antigos habitantes do bairro gostam de se lembrar que estabeleceram ali, ao longo dos anos, sólidos laços afetivos com pessoas provenientes das mais diversas origens.

“Nossos vizinhos eram judeus. Tínhamos uma convivência muito próxima com eles, embora fôssemos cristãos ortodoxos. Frequentávamos os Bar Mitzvas, os casamentos judaicos, isso era bastante comum. No meu edifício, havia uma senhora judia que tinha passado por um campo de concentração e que chamávamos de avó, porque a minha avó real tinha rompido ligações com minha mãe. Era essa senhora quem cuidava de nós quando minha mãe precisava”, recorda a arquiteta Stamatia Koulioumba, filha de pais gregos, que se diz ao mesmo tempo “pesquisadora e agente social” em relação ao Bom Retiro.

Vínculo sentimental
Koulioumba cresceu no bairro e ali vive até hoje. “Quem já morou no Bom Retiro ou ainda mora, tem com o lugar um vínculo sentimental muito forte. A pessoa vai falar para você da comida que comia, dos pontos de encontro, da rua onde jogava bola, do local onde acontecia isso ou aquilo. Hoje em dia, o Bom Retiro é muito mais associado ao local de trabalho e comércio”, lamenta a arquiteta.

No passado recente do bairro, diz ela, a convivência entre os povos era amistosa, independentemente das dificuldades linguísticas. Talvez até porque todos estivessem na mesma condição, em busca de possibilidades de trabalho, ou talvez porque tivessem a necessidade de interagir para, juntos, superarem as adversidades de uma terra desconhecida”, avalia Koulioumba.

Moisés Galperin


Torcida pelo inimigo?

Lembranças semelhantes de uma interação saudável entre culturas ou religiões distintas fazem parte também das lembranças de Moisés Galperin, que nasceu no Bom Retiro no ano de 1933 e lá viveu por cerca de 40 anos. “Depois de me mudar para um bairro vizinho, continuei trabalhando lá e meus filhos iam também para a escola ali”, diz ele, cujas lembranças inspiraram o filho, Cláudio Galperin, a escrever o roteiro do filme O ano em que meus pais saíram de férias, situado no bairro e dirigido pelo cineasta Cao Hamburger.

Filho de judeus da Bessarábia e da Belarus, Galperin lembra com um sorriso uma das curiosidades de sua infância no Bom Retiro, onde viveu ao lado de outros judeus do Leste Europeu e de italianos.

“Lá moravam as colônias judaica e italiana. A gente jogava bola e tinha que torcer por algum time. Eu só tinha uma possibilidade: torcer para o Palestra Itália, porque só tinha italiano perto. Aí meu pai me disse: ‘Mas você torce para o Palestra Itália?’ Eu disse: ‘Torço’. E ele perguntou: ‘Mas como? E Mussolini? E o nazismo? ‘ Aí eu disse: ‘Mas tenho que torcer, se não eles me batem. E até hoje torço para o Palmeiras e meus filhos também, puxados por essa coisa no Bom Retiro’ “, conta Galperin com bom humor.

Primordialmente coreano
Com o tempo, não só os italianos do início, como também os judeus foram desaparecendo da paisagem do bairro. Exceto alguns pequenos núcleos de imigrantes europeus, o Bom Retiro foi sendo tomado a partir dos anos 1960 pelos coreanos, que se dedicam essencialmente ao comércio. “Estive no Bom Retiro há uns seis meses. Fiquei decepcionado, me deu até um frio, eu não conhecia mais quase ninguém”, lamenta Galperin em tom de nostalgia.

“Hoje, o Bom Retiro é primordialmente coreano. E ali estão também os bolivianos, que geralmente não se vê muito nas ruas”, confirma a professora Maria Ruth Amaral de Sampaio, ao apontar que se os judeus ainda mantêm grande parte do patrimônio construído, o uso dos prédios é basicamente feito pelos imigrantes coreanos. “Quando a Coreia do Sul ficou numa situação instável e perigosa, esses migrantes se sentiram pressionados a procurar um lugar mais pacífico para viver. A prioridade sempre foram os EUA, mas como era mais difícil, vieram muitos morar aqui”, descreve Amaral.

Estrangeiros na cidade
Embora conservadores, fiéis a suas tradições e defensores de casamentos endogâmicos (entre membros da própria comunidade), esses coreanos paulistanos já dão sinais, entre as novas gerações, de interseção com outros grupos de migrantes na cidade. No ambiente de trabalho, isso é algo que já acontece no contato com os bolivianos, que são, via de regra, empregados nos estabelecimentos da indústria têxtil do bairro.

“Até hoje eu não diria que é comum os coreanos se casaram com outros brasileiros, mas isso pode acabar”, aposta Amaral, uma das pesquisadoras de um projeto sobre a participação de imigrantes na construção de São Paulo. Dentro deste projeto, intitulado Estrangeiros na Cidade, diz a pesquisadora, “comparamos como esses imigrantes viviam lá fora e como passaram a viver aqui. Cada forma de aculturação é diferente”, resume.

Cotidiano inusitado
Prestes a ser tombado como patrimônio imaterial pela sua diversidade cultural, diz Stamatia Koulioumba, o Bom Retiro é até hoje palco de cenas que seriam no mínimo inusitadas em outras partes do mundo. “Na frente do meu edifício, há uma mercearia de coreanos. Outro dia observei um judeu ortodoxo, todo paramentado, comprando seus produtos kasher numa mercearia coreana. Se eu tivesse uma máquina fotográfica, teria feito uma foto”, conta a moradora e pesquisadora do bairro.

“Assim como uma mercearia tradicional judaica do bairro foi vendida pelo dono a seu funcionário, um imigrante nordestino. Ele hoje saber fazer tudo, desde o pão típico judaico, até todos os produtos kasher, ele fala o iídiche e convive com a comunidade. E, na feira do bairro, os feirantes vendem peixes e frutas em coreano, eles sabem os nomes de tudo. Para ganhar a clientela, os feirantes aprenderam coreano. E um farmacêutico do bairro que conheço, por exemplo, falava em todas as línguas: do iídiche ao coreano, passando pelo italiano e pelo grego”, relata Koulioumba.

Uma convivência que, mesmo permeada pelos conflitos correntes na metrópole, não deixa de ser exemplo de interseção pacífica entre diversas etnias, culturas e religiões.

Fonte: DW-World

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