Ex-refugiado do Sudão contribui para reconstruir sul do país

Valentino Achak Deng, um dos “meninos perdidos” do Sul do Sudão, viu sua vida transformada em romance publicado nos Estados Unidos e, enquanto o diretor alemão Tom Tykwer prepara sua adaptação ao cinema, utiliza o dinheiro para levar esperança a seu país.

Achak e milhares de meninos percorreram centenas de quilômetros a pé por selvas e desertos durante meses para salvar suas vidas na guerra do Sul do Sudão, que iniciou em 1983 e durou duas décadas. Muitos deles acabaram morrendo no caminho.

“Durante nossa fuga tivemos que beber água parada porque era a única que havia, tivemos que comer qualquer coisa que se pudesse comer. Vi horrores, vi cadáveres, animais selvagens caçaram alguns dos meus amigos”, relata Achak à Agência Efe em Nairóbi sobre sua fuga a pé de quatro meses e 1,2 mil quilômetros rumo à Etiópia.

Hoje, Achak promove a construção de institutos e a reconstrução de povoados no Sul do Sudão, depois de ver que sua vida foi retratada no romance “O Que é o Quê” e que Tom Tykwer, diretor de “Perfume” e de “Corra Lola, corra”, tenha começado a preparar um filme sobre ele.

Entre 1983 e 2005, 2 milhões de pessoas morreram e 4 milhões se tornaram refugiadas por causa da guerra civil entre o Norte do Sudão, de maioria árabe-muçulmana, e o Sul do país, de maioria cristã-animista.

“O mundo não foi suficientemente informado na época. Não leram, viram ou ouviram o que estava ocorrendo, as atrocidades, os horrores, os massacres que aconteceram em minha região”, comenta Achak, que viveu dos seis aos 21 anos em campos de refugiados na Etiópia e no Quênia.

Em 2001, os Estados Unidos começaram a acolher milhares desses “meninos perdidos” e Achak teve a sorte de lá conseguir se estabelecer, em Atlanta, onde chegou à conclusão de que a única coisa aproveitável que tinha era sua história e as experiências que tinha vivido.

Através da Lost Boy Foundation (Fundação Meninos Perdidos), ONG americana, conheceu o escritor Dave Eggers, com quem trabalhou durante anos para escrever “O Que é o Quê”, um romance baseado nas experiências de Achak que narra a vida dos meninos que tiveram de fugir do Sudão.

O livro foi publicado em 2006 e, com o dinheiro que conseguiram, Eggers e Achak criaram a Fundação Valentino Achak Deng, que hoje se dedica a construir escolas no Sul do Sudão e a reconstruir os povoados destruídos pela guerra.

Segundo Achak, “o Sul do Sudão é uma região muito pobre que está começando do zero. Por isso necessitamos educação para produzir médicos, parteiras, professores e cientistas”.

O conflito entre o Norte e o Sul do país acabou em 2005 com a assinatura de um acordo de paz que deu autonomia ao Sul e onde se articula a realização de um referendo sobre a independência da região, previsto para janeiro de 2011.

Entre domingo e terça-feira o Sudão realiza suas primeiras eleições gerais multipartidárias em 24 anos, tendo como favorito para o Executivo o atual presidente, Omar al-Bashir. O favoritismo do líder é um dos principais motivos pelos quais a maioria da oposição se retirou do pleito.

“Sim, já sabemos que, seja qual for o resultado real, al-Bashir vencerá. Mas os governantes vêm e vão, não estão aí para sempre. O que temos com que nos preocupar é que se respeite o acordo de paz que deu autonomia ao Sul do Sudão”, ressalta Achak.

Em 2008, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra al-Bashir, condenado por crimes de guerra e contra a humanidade pelo conflito da região de Darfur. Para Achak, no entanto, as vítimas têm em mente outros problemas.

“Se você pergunta aos refugiados eles responderão: ‘sim, seria muito bom que o julgassem, mas isso não vai nos ajudar. O que quero é voltar para minha fazenda ou para meu trabalho, o que quero é farinha e panela para cozinhar'”, conta.

Em sua opinião, para resolver um conflito “é preciso ouvir as vítimas” e por isso Achak continuará contando sua história.

“O que passou não deveria voltar a ocorrer, nem no Sudão nem em nenhum outro lugar do mundo. Se você conhece minha história e depois permite que algo assim volte a acontecer não ficaria com vergonha de simplesmente se sentar com sua família na sala?”, questiona-se Achak.

Fonte: European Pressphoto Agency

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