Drama de Mohamad: ser opositor e homossexual no Irã

Fonte: O Estado de S.Paulo

O Comitê Nacional para Refugiados (Conare), organismo colegiado do governo federal, presidido pelo Ministério da Justiça, decidiu conceder status de refugiado a um cidadão iraniano que fugiu para o Brasil. Ele era perseguido em seu país por participar de manifestações de protesto contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad e também por ser homossexual.

A decisão foi tomada no dia 21, quatro dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter anunciado o acordo nuclear com o Irã. O refugiado, de 29 anos, que está no País desde dezembro, foi informado da decisão do Conare na semana passada.

Não é o primeiro homossexual que o Brasil acolhe. Nem o primeiro iraniano. Mas é o primeiro homossexual vindo do país onde, segundo declarações de Ahmadinejad, “não existem gays”. Chama a atenção na história o fato de o pedido de refúgio ter sido analisado ao mesmo tempo em que ocorria a movimentação diplomática para a mediação do acordo nuclear turco-brasileiro com o Irã.

Os problemas do iraniano em seu país começaram em junho. Em entrevista ao Estado, ele disse que, após participar das manifestações de rua e confrontos com a polícia em protesto contra o resultado da eleição que reconduziu Ahmadinejad à presidência, ele foi acusado de traição à pátria.

Em seguida, ao invadir sua casa e vasculhar o conteúdo de seu computador, a polícia descobriu que ele era homossexual. No regime dos aiatolás, os gays que forem flagrados em relações sexuais podem ser condenados à morte por apedrejamento.

Ao Estado, o refugiado pediu para não ser identificado pelo nome nem ter o rosto exposto por temor a represálias contra os parentes que ainda vivem em Teerã. Segundo suas informações, uma irmã dele foi detida e espancada por policiais que buscavam informações sobre seu paradeiro. Hoje, ela vive como refugiada em um país do Oriente Médio. Ele será identificado a seguir como “Mohamad”, nome fictício.

Mohamad disse que saiu clandestinamente do Irã em outubro. Orientado por organizações iranianas de defesa dos direitos homossexuais que operam no Canadá. Seu objetivo inicial era seguir para aquele país, onde já mora seu companheiro, um rapaz de 23 anos, também iraniano, que estuda mecânica.

O plano, porém, não deu certo. Após algumas reviravoltas, com lances cinematográficos, ele acabou chegando ao Brasil em 26 de novembro. A Polícia Federal o deteve no desembarque e esteve prestes a enviá-lo de volta ao Irã, como imigrante ilegal.

Detido numa sala do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, sem falar português e com dificuldade para se comunicar em inglês, Mohamad enfrentou seguidos interrogatórios. “Eu dizia que estava em busca de asilo porque sou gay e opositor político do regime em meu país”, lembrou. “Tentava explicar que o meu destino já está decidido no Irã e não tenho chance de defesa. O sistema judiciário no Irã não tem independência.”

No sexto dia de detenção, acreditando que a deportação seria inevitável, iniciou uma greve de fome. “Preferia morrer de fome a ser embarcado de volta.”

Enquanto isso, no Canadá, seu companheiro procurava atrair a atenção de organizações de direitos humanos. No exterior, conseguiu alertar a Human Rights Watch, que passou a monitorar as ações das autoridades. No Brasil, o iraniano recebeu o apoio do Instituto Edson Neris, que levou o caso ao conhecimento do ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi. Mohamad foi liberado após 17 dias. Recebeu uma autorização provisória para permanecer no Brasil. Se não obtivesse reconhecimento como refugiado, seria deportado.

Ele seguiu do aeroporto para a sede da Cáritas da Arquidiocese de São Paulo – organização da Igreja Católica que se dedica a acompanhar a situação de refugiados e mantém convênios com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Foi por meio da Cáritas que ele fez o pedido ao Conare. A instituição também providenciou alojamento para ele nos primeiros dias em São Paulo. Mohamad disse que sua conta bancária no Irã foi bloqueada e seu dinheiro, cerca de US$ 55 mil, confiscado.

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One Response to Drama de Mohamad: ser opositor e homossexual no Irã

  1. pedro disse:

    espero que o Brasil conceda asilo permanente para este cidadão !!viva a comunidade lgbt

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