Irã testa determinação iraquiana com bombardeios na fronteira

Fonte: Terra

Timothy Williams e Namo Abdullah
Em Ali Rash, no Iraque

Curdos vivem em acampamentos de refugiados para fugir de ataques (Foto: The New York Times)

A remota aldeia de Ali Rash, nas alturas de uma cadeia de montanhas que demarca a fronteira entre Irã e Iraque, está deserta; os moradores fugiram a bombardeios aéreos e de artilharia carregando com eles tudo que podiam e conduzindo em sua companhia os animais que foram capazes de orientar na descida pelas íngremes encostas.

Agora, as centenas de curdos que abandonaram Ali Rash e outras aldeias montanhesas da região vivem em acampamentos de refugiados, sob o calor sufocante, e ocupam posição central no debate sobre a capacidade e disposição do Iraque para defender sua fronteira com o Irã – que foi frequentemente violada nos últimos meses.

Os ataques contra Ali Rash e ao menos uma dúzia de outras aldeias curdas persistem há mais de um mês, e incluíram penetração de tanques iranianos por até 1,5 km território do Iraque. Mas atraíram protestos apenas tépidos do governo do Iraque, o que incluiu a divulgação de um comunicado apelando aos países vizinhos que respeitassem suas fronteiras.

O governo iraniano afirmou que sua campanha de bombardeios é necessária para enfraquecer os grupos guerrilheiros curdos que atacam alvos no Irã e se refugiam no Iraque. A única vítima confirmada até o momento foi uma menina de 14 anos. No entanto, as incursões surgem em momento crítico para o Iraque – em meio ao impasse político sobre quem deve formar o novo governo, mais de três meses que os eleitores divididos foram às urnas e menos de três meses antes do prazo final para a retirada das últimas forças de combate norte-americanas estacionadas no país.

As forças dos Estados Unidos continuam a patrulhar alguns trechos dos 1,46 mil quilômetros de fronteira entre Irã e Iraque, mas as aldeias das montanhas Qandil sofreram os piores ataques e nelas não existem soldados norte-americanos, iraquianos ou curdos – e os refugiados afirmam estar recebendo pouca assistência. “Deixaram-nos sozinhos”, disse Bahar Ibrahim, 27, refugiada de Ali Rash que está grávida de oito meses.

Nas aldeias de Ali Rash e Sharkhan, crateras de ataques iranianos marcam os pastos e o terreno em torno das casas simples de pedra. As centenas de pessoas que viviam nas aldeias agora estão acomodadas em campos de refugiados. Restam apenas alguns cavalos sem dono circulando pelas ruas. Até mesmo as colmeias foram levadas para local seguro. Nas colinas, onde os aldeões cultivavam trigo, a terra está escura, como que calcinada.

Os disparos de artilharia levam adiante a tendência de incursões de fronteira iranianas surgida há 13 meses, que inclui ataque por helicópteros contra aldeias curdas no norte do Iraque em maio e a ocupação por soldados iranianos do campo petroleiro de Fakka, no sudeste do Iraque, por três dias, em dezembro.

No mês passado, as tropas iranianas se envolveram em um tiroteio com os pesh merga, as forças de segurança curdas, ao longo da fronteira, e não demoraram a capturar e deter um soldado dessas unidades, que segundo as autoridades iranianas foi confundido com um guerrilheiro do Partido da Vida Livre no Curdistão, mais conhecido como PJAK.

O PJAK, que deseja maior autodeterminação para os curdos que vivem em território iraniano, e um grupo aliado, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, ou PKK, que combate pela autonomia dos curdos na Turquia, usam posições localizadas em áreas remotas da região curda do Iraque, que vive em regime de autonomia parcial, a fim de servirem de bases aos ataques, de acordo com os governos iraniano e turco.

A Turquia também bombardeia áreas fronteiriças do Iraque, em perseguição aos rebeldes. Na quarta-feira, foram reportados confrontos entre soldados curdos e combatentes do PKK, que resultaram na morte de quatro guerrilheiros e de um soldado turco. Posteriormente, as autoridades turcas anunciaram ter lançado bombas sobre a região curda do Iraque e que seus soldados haviam penetrado por cerca de dois quilômetros o território iraquiano em perseguição a guerrilheiros. Os grupos guerrilheiros curdos são classificados como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos, ainda que o PJAK tivesse contato com as autoridades norte-americanas até quatro anos atrás.

O PJAK sustenta que seus ataques ao Irã são justificados. “Jamais matamos civis”, disse Haval Kahlwr,o porta-voz do PJAK. “Estamos envolvidos em uma guerra defensiva definida como legal nos termos do direito internacional”. Funcionários do governo iraquiano na região curda do país criticaram Bagdá por não fazer mais para convencer as autoridades iranianas a suspender os ataques. Os membros do governo da região curda também negam que ela sirva de base à guerrilha.

“O bombardeio continua, o que significa que o governo iraquiano não assumiu uma posição séria sobre esse assunto”, disse Twana Ahmad, porta-voz de Barham Salih, primeiro-ministro do governo regional curdo. O Irã anunciou diversas vezes, ao longo das seis últimas semanas, que havia suspendido os bombardeios, mas os retomou depois de pausas de um ou dois dias, de acordo com moradores das aldeias e funcionários curdos.

Refugiados curdos dizem que porque as bombas queimaram suas plantações de trigo e mataram animais, mesmo depois que o bombardeio acabar serão precisos anos para que a região volte a estar segura em termos econômicos. Enquanto isso, eles recebem água de organizações assistenciais e compram alimentos de comerciantes itinerantes que cobram duas vezes mais caro do que os preços dos mercados.

Alguns estão vivendo em barracas há semanas, e funcionários dos serviços de saúde dizem que as condições insalubres dos campos de refugiados podem resultar em surtos de doenças. Sabria Salih, 26, mãe de um bebê de oito meses, disse que Ali Rash – a aldeia da qual fugiu mais de quatro semanas atrás – havia sofrido pesados ataques de parte das forças iranianas.

“Deixamos quase tudo para trás”, diz. “Temos apenas alguns cobertores”. Ela afirmou que o governo iraniano estava enganado se acreditava que havia guerrilheiros escondidos nas aldeias. “Nenhum integrante do PJAK foi morto ou ferido pelos ataques”, ela diz. “E ninguém viu combatentes do PJAK em nossa aldeia em momento algum”.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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