Haiti: crescem sequestros e estupros a mulheres após tremor

Fonte: Terra

Deborah Sontag, do New York Times, em Porto Príncipe, Haiti

Foto: The New York Times

A mulher de 22 anos usa um vestido azul diáfano desde que foi libertada, e fala em sussurros.

Talvez a pior parte de seu sofrimento, conta, tenha sido o lugar que os raptores escolheram para aprisioná-la. Que a tenham raptado era assustador o bastante. Que a tenham estuprado repetidamente também era horrendo demais para que pudesse absorver.

Mas mantê-la prisioneira nas ruínas de uma casa? Fazer com que rastejasse por sob uma parede desabada para entrar em uma casa na qual a esconderam entre as ruínas? Essa foi a verdadeira tortura, diz.

“Porque eu não havia dormido em espaços fechados, depois do terremoto, fiquei tão assustada que não conseguia respirar”, conta a mulher, Rose, que pediu que seu sobrenome não fosse publicado.

Os sequestradores de Rose disseram a seu cunhado, que pagou os US$ 2 mil de resgate, que a matariam se ela revelasse qualquer coisa.

Mas investigadores da polícia foram à casa de sua família no bairro de Delmas 33 pouco depois que ela foi libertada, e esta repórter do New York Times chegou ao local e posteriormente acompanhou Rose a uma clínica feminina, a pedido da família.

Estar presente no momento em que Rose e sua família enfrentavam os horrores que ela havia sofrido ofereceu um vislumbre em primeira mão da vulnerabilidade de muitos haitianos, especialmente mulheres, no momento atual. Dormindo em acampamentos, nas ruas e em quintais, muitas se sentem à mercê não só da natureza mas daqueles que exploram a miséria alheia.

Tantos casos de estupro passam sem registro por aqui que as estatísticas revelam apenas parte da história. Mas os números existentes, quer sejam compilados por organizações femininas, quer pela polícia, indicam que a violência contra as mulheres se agravou nos meses que se seguiram ao terremoto de 12 de janeiro. Os sequestros são raros, mas também estão em alta, e “a ameaça é constante”, disse Antoine Lebours, porta-voz da polícia nacional do haiti.

Malya Villard, diretor da Kofaviv, uma organização de base que apoia as vítimas de estupro, disse que a presença de milhares de prisioneiros que escaparam durante o terremoto agrava um ambiente no qual a insegurança e o desespero se alimentam mutuamente. “É um clima ideal para o estupro”, ela disse.

Villard disse que as duas dúzias de assistentes sociais da Kofaviv que trabalham em Porto Príncipe, haviam aconselhado 264 vítimas de estupro desde o terremoto, o triplo do número aconselhado no período um ano atrás.

Desde o terremoto, as organizações internacionais de assistência expressaram preocupações com a violência contra as mulheres, especialmente nos campos que estão sob sua vigilância. Iluminação precária ou inexistente, latrinas que não contam com trancas, chuveiros masculinos e femininos adjacentes e proteção policial inadequada vêm sendo problemas.

Recentemente, a segurança de oito grandes campos foi melhorada, com patrulhas conjuntas entre os haitianos e a ONU e novos postos policiais; cerca de 100 mulheres da polícia de Bangladesh chegaram no final do mês passado a fim de combater a violência contra as mulheres em três deles.

Mas existem cerca de 1,2 mil acampamentos em todo o território do Haiti, e os bairros devastados da cidade estão em larga medida indefesos.

Rose e seus parentes recentemente se mudaram de volta às suas casas, quando o dono do imóvel em que estavam abrigados ameaçou despejar os refugiados. As casas deles haviam sido marcadas com rótulos amarelos pelas autoridades, o que indica que haviam sofrido danos mas podem ser consertadas. Rose e seus parentes dormem do lado de fora, de modo inquieto. Eles se assustam com os “jovens malfeitores com óculos mafiosos”, disse a prima de Rose, mesmo antes que ela fosse sequestrada.

Em 10 de maio, no começo da noite, Rose, uma jovem de corpo escultural que estava estudando para trabalhar como esteticista, saiu para comprar biscoitos na rua. Um policial que ela conhecia a convidou a se sentar no assento da frente de seu carro civil. Ela aceitou. Em seguida, dois jovens se aproximaram, ordenaram que o policial saísse do carro – sacando suas armas – e levaram o carro e Rose com eles.

Os homens a empurraram para o assento traseiro e ordenaram que se deitasse no banco. Ela não sabe para que bairro foi levada; era uma região abandonada e repleta de casas em ruínas. Quando protestou ao ser forçada a entrar em uma delas, foi esbofeteada, conta, e forçada a rastejar para passar pelas ruínas. Eles a levaram a um espaço minúsculo por sob um teto semi-ruído.

“Perdi a fala de medo”, disse. “Só quando me estupraram eu gritei. Doeu”. Segurando a pélvis enquanto falava, Rose disse que os homens se haviam revezado e a estuprado sete vezes.

“Ou talvez oito”, disse, de olhos fechados. O policial foi à casa de Rose na manhã seguinte ao rapto para contar à família o acontecido.

“Esperamos a noite inteira, acordados, com medo”, disse o cunhado de Rose. “O policial chegou à procura de seu carro. Perguntamos por Rose e ele disse que as autoridades procurariam por ela, mas nós sabíamos que os sequestradores nos procurariam primeiro”.

Os sequestradores usaram o celular de Rose para fazer contato. Colocaram-na no viva-voz e bateram nela repetidamente, para que a família ouvisse seus gritos de dor.

“Pediram US$ 50 mil”, disse seu tio, um camelô. “Foi uma loucura. Eu não tenho nem 10 gourdes. Mas eles disseram que não devíamos nem procurar um sacerdote de vodu, porque ele não poderia ajudar. Que não adiantava chamar Obama, porque nem ele não tinha como ajudar. Disseram que nós tínhamos de lhes dar dinheiro ou matariam a menina”.

Nos dias seguintes, a família conseguiu levantar US$ 2 mil em dinheiro haitiano, o gourde, pedindo a vizinhos. O primo de Rose foi instruído a deixar o dinheiro em um lugar remoto. Ele o fez na noite de domingo. Às três da manhã de segunda-feira, Rose foi vendada e colocada na garupa de uma mototáxi. Quando chegou, se enrodilhou no chão diante da porta de sua casa e bateu à porta, quase sem forças.

Passadas diversas horas, chegaram investigadores da polícia, talvez alertados por vizinhos. Familiares, velhos e jovens, cercavam Rose, que respondia em tom monocórdio às perguntas. Eles ocasionalmente olhavam para a rua, pelas fendas nas paredes da casa, temerosos de que os sequestradores estivessem de vigia.

Rose já havia trocado de roupa e tomado banho, por não saber que isso prejudicaria a coleta de provas. Mas a polícia não mencionou esse assunto, de qualquer forma, disse sua família.

Quando os policiais se foram, Rose pegou uma carona a uma clínica local dos Médicos Sem Fronteiras, franzindo o rosto de dor quando o carro passava pelos buracos e calombos das ruas. Na clínica, que opera em um conjunto de tendas, ela foi instruída a esperar sentada em um banco de madeira.

Outra jovem, esbelta e de pose elegante, chegou à área de espera e disse à enfermeira que precisava consultar um ginecologista.

“Infecção?”, perguntou a enfermeira. “Um caso de estupro”, a jovem respondeu, em francês rápido. Ela havia sido convidada a participar de um “círculo literário” em um acampamento de refugiados, uma noite antes, disse. “Não houve discussão de livros”, acrescentou.

As duas vítimas ficaram sentadas lado a lado, contemplando o vazio. A enfermeira disse que a clínica, um dos muitos centros de saúde da cidade, havia atendido a cerca de 60 vítimas de estupro, em maio.

Quando Rose foi chamada à tenda de exames, ela tropeçou, zonza de fome. A enfermeira lhe deu dois pacotinhos de bolachas. Rose disse que não tinha dinheiro para pagar e a enfermeira informou que eram gratuitos. Rose ofereceu um dos pacotes a esta repórter, mas recusei e saí da tenda para permitir que ela fosse examinada de maneira reservada.

Ela foi liberada levando um pacote de camisinhas e alguns vidros de remédios: antibióticos para combater doenças sexualmente transmissíveis, HIV e vaginite, bem como analgésicos.

Quando ela saiu, seu tio – que Rose chama de Papai – estava contemplando a jovem de longe, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Minha bela menina, oh, bela menina”, ele disse. “Olhe meus olhos e você saberá como me sinto. Quando isso vai acabar? Já não sofremos o bastante?”

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