Emissora assusta burundineses com apelo à violência nacional

Fonte: O Estado de S.Paulo

Como a rádio que incitou massacre em Ruanda, Rema FM divulga lista de candidatos da oposição e veicula notícias falsas

Apesar da mobilização para democratizar a atuação das rádios, uma emissora parece ameaçar o esforço. A Rema FM, empresa particular associada ao partido da situação, usa sua programação para “jogos políticos”, afirmam alguns jornalistas burundineses. E a rádio está começando a assustar as pessoas.

“Eles são exatamente como a rádio Milles Collines”, diz Amadou Ousmane, porta-voz da missão das Nações Unidas no Burundi, fazendo uma comparação cada vez mais frequente com a rádio que teve papel central no genocídio ruandês. A missão de monitoramento das eleições enviada pela União Europeia, que também acompanhou a cobertura das campanhas feita pela mídia, descreve as transmissões da Rema como “cada vez mais agressivas”.

Organizações internacionais que trabalham com a imprensa dizem que a Rema começou a citar em suas transmissões os nomes de conhecidos políticos da oposição e seus partidários. As revelações são sutil convite ao assédio e um desconfortável eco do que ocorreu nas semanas que antecederam ao genocídio de Ruanda, quando apresentadores de rádio hutus leram uma lista de nomes de tutsis que deveriam ser assassinados.

Outras mensagens da Rema são menos sutis. Há algumas semanas, a emissora comparou os partidos políticos que abandonaram a eleição presidencial ao esquadrão da morte que há 15 anos assassinou Melchior Ndadaye, primeiro presidente hutu democraticamente eleito.

“Para os burundineses, ainda é perigoso falar sobre os assassinos de Ndadaye”, explica Justine Nkurunziza, vice-presidente do Fórum para o Reforço da Sociedade Civil, rede de ONGs locais. “Muitos burundineses são hutus, e Ndadaye é um herói. Quem luta contra ele é (visto como) inimigo da democracia.”

A Rema está também se envolvendo diretamente na política, divulgando rumores e disseminando teorias a respeito de quem estaria por trás dos ataques com granadas e outros episódios de violência que se tornaram comuns na capital, Bujumbura, desde que a campanha presidencial teve início.

Apresentadores da emissora acusaram o líder da oposição Alexis Sinduhije de distribuir dinheiro e gasolina a seus eleitores e incentivá-los a atear fogo em centros do partido governista. No dia seguinte, 20 escritórios do partido foram incendiados, segundo a missão de monitoramento da União Europeia no Burundi. Alguns burundineses, suspeitando dos laços da Rema com o poder, dizem acreditar que o partido do governo tenha sabotado a si mesmo para jogar a culpa na oposição.

É difícil determinar qual foi o impacto das ações da Rema na eleição do dia 28 e na reeleição do presidente. Não está claro se as atividades da Rema são um ameaçador eco do sombrio passado recente da região, ou apenas um anacronismo num Burundi em que a proliferação das fontes de informação produziu certo grau de ceticismo entre o público consumidor da mídia.

Apesar de a Rema ser em geral considerada uma maçã podre, os burundineses dizem perceber matizes editoriais nos comentários de praticamente todas as rádios, e corrigem este desvio ao dar ouvidos às transmissões de diferentes frequências.

Para lembrar
Etnicamente, Ruanda e Burundi são parecidos. Ambos são vizinhos e têm uma maioria hutu (85%) e uma minoria tutsi (15%). Por isso, a política em um país costuma ter impactos do outro lado da fronteira. A guerra civil nos dois países, uma das mais sangrentas da história da humanidade, deixou cerca de 1 milhão de mortos. Em Burundi, o conflito começou em 1993. Em Ruanda, no ano seguinte. No dia 6 de abril de 1994, um acidente de avião matou o presidente ruandês, Juvenal Habyarimana, e seu colega do Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos hutus. A guerrilha tutsi Frente Patriótica de Ruanda (FPR) acusou os radicais hutus de ter abatido o avião de Habyarimana, tido como moderado, e iniciou uma ofensiva contra a capital, Kigali. Nos meses seguintes, cerca de 800 mil pessoas morreram e 1,5 milhão de refugiados promoveram um dos maiores êxodos da história.



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