Um mundo em movimento

Fonte: Folha de S.Paulo

Nunca o ato de cruzar fronteiras teve a escala e as implicações de hoje

Por Jason DeParle 

Africanos (acima) resgatados no mar perto da costa de Tarifa, Espanha, estão entre os 214 milhões de migrantes do mundo; abaixo, trabalhadores estrangeiros em uma obra em Dubai (Photo: Andy Rangel/Associated Press; Abaixo à esq., Tyler Hicks/ The New York Times)

Talvez nenhuma força na vida moderna seja tão onipresente e ao mesmo tempo tão menosprezada quanto a migração global, esse veículo de destruição criativa que está cada vez mais reordenando o mundo.

Menosprezada? Um cético poderia questionar isso, sendo o assunto tão frequente no noticiário. Afinal, a campanha do Estado americano do Arizona contra os imigrantes ilegais motivou debates de Melbourne a Madri.

Mas há também uma história por trás da história, uma maré complicadora. Mesmo quem ganha a vida estudando a migração sofre para captar totalmente seus efeitos. “Politicamente, socialmente, economicamente, culturalmente -a migração borbulha por todo lado”, disse James Hollifield, cientista político da Universidade Metodista do Sul, em Dallas (EUA). “Com frequência não reconhecemos isso.” O que levou o Google a fechar sua filial na China, em vez de aceitar a censura do governo? Muitos fatores, sem dúvida. Entre os citados por Sergey Brin, cofundador do Google, estava a repressão que sua família sofreu durante sua infância na União Soviética, antes de migrar aos EUA.

A imigração acelerou a cisão no movimento trabalhista americano. Em 2005, seis sindicatos deixaram a venerável Federação Americana do Trabalho para formar uma central sindical rival, a Change to Win (“mudança para vencer”). Os dissidentes tinham mais imigrantes de baixa renda entre seus filiados.

A cisão, por sua vez, teve repercussões além do movimento trabalhista. Janice Fine, cientista política da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, lembrou que o Change to Win teve um papel importante (alguns diriam decisivo) nos estágios iniciais da campanha presidencial de Barack Obama, em 2008.

“Se eles estivessem dentro da burocracia maior, teria sido mais difícil para eles anunciar logo um apoio e levar dinheiro para o lado dele [Obama]”, disse Fine.

Os teóricos às vezes consideram o movimento de pessoas como a terceira onda da globalização, depois do movimento de bens (comércio) e de dinheiro (finanças), que começou no século anterior.

Embora o comércio e as finanças globais causem perturbações, são perturbações menos visíveis. Uma camisa feita no México pode custar o emprego de um trabalhador americano. Um trabalhador do México pode se mudar para a casa ao lado, mandar seus filhos para a escola pública e ter a necessidade de que lhe falem em espanhol.

Uma razão para a migração parecer tão potente é ter emergido inesperadamente. Ainda na década de 1970, ela parecia tão desimportante que o Departamento do Censo dos Estados Unidos decidiu parar de perguntar onde os pais das pessoas haviam nascido.

Agora, um quarto dos residentes nos EUA menores de 18 anos é imigrante ou filho de imigrante.
A ONU estima que haja 214 milhões de migrantes no planeta, um aumento de 37% em duas décadas. Eles cresceram 41% na Europa e 80% na América do Norte. “Há mais mobilidade neste momento do que em qualquer momento da história mundial”, disse Gary Freeman, cientista político da Universidade do Texas.

Os mais famosos países de origem da migração na Europa -Irlanda, Itália, Grécia, Espanha- de repente se tornaram destino de migrantes. Por mais polêmico que o assunto seja nos EUA, a capacidade dos americanos de absorver os imigrantes continua sendo motivo de inveja para muitos europeus.

Apesar disso, os desafios de hoje diferem daqueles do (mitificado) passado. Pelo menos quatro características separam esta época das outras e amplificam os efeitos da migração.

Primeiro, o alcance global da migração. Os movimentos do século 19 eram principalmente transatlânticos. Agora, nepaleses trabalham em fábricas coreanas, e mongóis fazem trabalhos braçais em Praga. As economias do golfo Pérsico iriam desabar sem seus exércitos de trabalhadores estrangeiros.

Um segundo fator que aumenta o impacto da migração é que quase metade dos migrantes do mundo atualmente são mulheres, e muitas deixaram seus filhos para trás. Sua emergência como arrimos de família está alterando as dinâmicas familiares em todo o mundo em desenvolvimento. E o tráfico sexual é hoje uma preocupação global.

A tecnologia introduz um terceiro rompimento com o passado: antigamente, multidões chegavam à ilha Ellis (Nova York) sem celulares nem webcams. Agora, uma babá em Manhattan pode falar com seu filho em Zacatecas, votar nas eleições mexicanas e assistir a programas mexicanos de TV. Esse “transnacionalismo” é um conforto, mas também uma preocupação para quem acha que ele impede a integração.

Na era da jihad global, ele pode ser também uma ameaça à segurança. O imigrante paquistanês que confessou no mês passado a tentativa de atentado na Times Square disse ter visto pela internet palestras jihadistas do Iêmen.

Há pelo menos mais um traço que amplifica o impacto da migração moderna: a expectativa de que os governos irão controlá-la. Nos Estados Unidos, durante a maior parte do século 19, não havia qualquer barreira jurídica para o acesso ao país. O assunto era polêmico, mas pouca gente culpava o governo.

Agora, espera-se dos governos ocidentais que mantenham os fluxos comerciais e turísticos e respeitem os direitos étnicos, mas selem as fronteiras. Falhar nessa tarefa “basicamente diz às pessoas que o governo não consegue fazer o seu trabalho”, afirmou Demetri Papademetriou, cofundador do Instituto de Política Migratória, de Washington. “Isso cria a retórica antigoverno que vemos, e a raiva que as pessoas estão sentindo.”

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