Beco sem saída para jovens deslocados na periferia de Bogotá

Fonte: ACNUR

Um grupo de garotos joga futebol em Soacha. Jovens deslocados que vivem no subúrbio enfrentam futuro incerto. (Foto: P. Smith/ ACNUR)

Ao longo dos anos, o subúrbio de Soacha tem se expandido de forma casual e irregular para as montanhas, ao sul de Bogotá, devido às milhares de famílias que migraram para a capital colombiana para escapar da violência nas áreas rurais.

Elas se sentem relativamente seguras nesse labirinto de lojas e casas de tijolos e ferros torcidos que fazem o bairro de Altos de Cazuca, em Soacha, parecer um gigante formigueiro humano. Mas para muitas das crianças que vivem ali, a ampla zona urbana de mais de 450 mil pessoas,incluindo quase 32 mil deslocados internos registrados, é um beco sem saída do ponto de vista cultural, social e educacional.

Enquanto seus pais talvez sonhem em retornar às fazendas e vilas, os jovens se converteram em “bichos da cidade”. “Quando nós conversamos com as famílias, os adultos dizem que querem retornar às suas regiões de origem, mas os jovens querem ficar aqui ou em Bogotá”, afirmou um funcionário do ACNUR que trabalha em Soacha. 

Por várias razões, especialmente a discriminação, a estigmatização e a pobreza, a favela oferece poucas oportunidades. De fato, a única saída para algumas pessoas é se juntar a grupos armados ou irregulares, os quais, de acordo com trabalhadores humanitários e moradores, ainda controlam algumas partes de Soacha – especialmente durante a noite.

O ACNUR, que começou a trabalhar em Soacha em 2005, acredita que a juventude precisa de ajuda e orientação. “Esses jovens não têm perspectivas de futuro porque o esforço, em nível local, tem sido insuficiente até agora”, observou Terry Morel, representante do ACNUR na Colômbia, adicionando: “Nós trabalhamos para encontrar soluções que permitam às pessoas construir um futuro.”

A agência para refugiados coordena a assistência humanitária e apóia organizações como La casa de los Derechos e Learning Circles, as quais trabalham para proteger as famílias deslocadas e seus filhos, facilitando o acesso a serviços como educação, saúde e abrigo, aos quais eles têm direito.

Juan, um jovem que estava tocando bateria em um centro da juventude, quando o ACNUR conversou com ele, deu algumas dicas dos obstáculos que os jovens deslocados de Soacha enfrentam. O garoto de 17 anos fugiu de Cucuta, ao norte, para Altos de Cazuca há um ano, depois que sua mãe começou a ter problemas. “Minha mãe disse que eu deveria ir embora, caso contrário eu seria morto por causa do que ela tinha feito”, disse Juan.

Ele teve sorte. Quando chegou em Soacha ele fez um amigo que emprestou dinheiro para ele e encontrou um dinheiro vendendo bijuteria barata. Mas como muitos outros recém-chegados, ele sofreu com a hostilidade dos moradores locais. “Pessoas deslocadas não são bem recebidas aqui. Quando você anda pelas ruas, eles olham te olham mal. Quando você pede um trabalho, a primeira coisa que eles te perguntam é se você é um deslocado”, explicou. “Os jovens não têm muitas oportunidades de trabalho aqui”, um funcionário do ACNUR em Soacha confirmou.

Juan também não conseguiu prosseguir com seus planos de estudo, como muitos deslocados, ele não tinha dinheiro suficiente. Mas outros foram impedidos de entrar em escolas locais por motivos discriminatórios. A equipe do ACNUR diz que a discriminação e a estigmatização das pessoas deslocadas são fatores preocupantes.

Os jovens enfrentam outros sérios obstáculos para o desenvolvimento pessoal. Talvez o mais perigoso seja a influência que os grupos armados irregulares exercem nas favelas de Soacha, tão próximas ao centro de Bogotá.

O recrutamento forçado é um perigo, mas a oferta de dinheiro também representa uma tentação para jovens que não têm nada mais. As políticas sociais desses grupos também afetam os jovens. “As ameaças recaem contra dependentes químicos, trabalhadores sexuais, que talvez tenham HIV. Eles serão ameaçados e talvez até eliminados”, observou Morel.

Esse controle social, incluindo a proibição de certos tipos de música, de roupas ou até de cortes de cabelo, “às vezes leva a um segundo deslocamento dentro de Soacha”, diz um oficial da organização Casa dos Direitos, que em 2008 lançou uma campanha com o ACNUR para informar os jovens sobre o que poderiam fazer caso fossem ameaçados de recrutamento forçado.

O oficial da Casa dos Direitos, que promove uma presença institucional em Soacha, oferece aconselhamento jurídico e luta pelos deslocados, disse que a violência sexual e doméstica contra as crianças, assim como a negligência parental, também são grandes problemas.

Embora as perspectivas para os jovens de Soacha sejam cruéis, sempre existe alguma esperança. A própria presença do ACNUR na região, onde 500 homicídios foram registrados na última década, já é um passo avante. “O ACNUR entrou na região e nós abrimos um escritório da Casa dos Direitos e apoiamos a presença das instituições”, disse Morel, acrescentando: “Isso é crítico, porque ajuda as pessoas a não se sentirem abandonadas”.

E os jovens estão mostrando sinais de iniciativa e independência. “O centro da juventude foi criado pelos próprios jovens”, revelou o oficial da Casa dos Direitos, enquanto dizia que alguns deles participaram de workshops para estudar políticas públicas e têm um maior controle de seus futuros. Juan mantem uma atitude positiva. “Eu sou otimista. A banda está começando a planejar seu futuro e eu já tenho um trabalho”.

Leo Dobbs de Soacha, Colômbia

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