Filme aborda prática de morte em nome da honra no Afeganistão

Fonte: ACNUR

A atriz e diretora Nelofer Pazira, antiga refugiada afegã, é hoje cidadã canadense. (Foto: Cortesia de Nelofer Pazira)

O último lançamento da ex-refugiada Nelofer Pazira, “Ato de Desonra”, apresenta a cruel realidade da prática de morte em nome da honra no Afeganistão, onde ela cresceu antes de fugir com a família em 1989. O premiado filme da diretora afegã-canadense, que foi rodado em uma vila abandonada no Tajiquistão, também recorre a algumas das próprias lembranças de Pazira e examina os desafios enfrentados pelas familias de refugiados ao retornar à complexa realidade do Afeganistão moderno. O ACNUR forneceu ajuda durante a preparação do filme para cenas envolvendo refugiados. Pazira, estrela do filme “Kandahar” (2001) e co-diretora do documentário “A Caminho de Kandahar” (2003), está em turne internacional  para promover o filme. Ela conversou recentemente com a assistente de informações públicas do ACNUR, Gisèle Nyembwe. Alguns trechos da entrevista:  

Fale um pouco sobre o filme e por que você o fez.

“Ato de Desonra” fala sobre crimes de honra. Ele é baseado em uma história verídica de uma mulher que atuou  em um curta-metragem que um amigo meu fez em Kabul. O marido dela estava no Paquistão no momento das filmagens, mas retornou para Kabul quando o grupo comemorava a finalização do filme. Ele matou sua esposa porque ela havia saido de casa para atuar no filme.

Marina Golbahari, que atua como protagonista em “Ato de Desonra”, encontra pressões similares em sua própria vida. Ela faz parte de um crescente número de mulheres no Afeganistão que permanecem totalmente comprometidas com o cinema e que se expõe a grandes riscos para aparecer em filmes. Durante minha pesquisa e subsequente escrita do roteiro, eu ouvi dessas mulheres, por diversas vezes, que elas esperavam que o mundo visse a realidade de suas vidas através do filme.

Porém o filme começa com um garoto atirando em um homem mais velho. Essa é a morte por vingança. Eu adicionei isso porque a morte por honra é um problema que não está restrito às mulheres. Honra e vingança são prioridades fundamentais nessa cultura. O filme ainda fala sobre perdão. O jovem motorista de ônibus que tem vingada a morte de seu pai e quer reparar a vida de sua esposa – a mulher que ele acreditava que o tinha traído. Existe ainda a história de uma família de refugiados que volta para sua cidade e descobre que sua casa foi invadida.

Qual a mensagem que você quer transmitir aos espectadores?

Por ter crescido em Kabul e depois emigrado para o Canadá, eu vivo na fronteira de duas diferentes culturas – afegã e canadense – e eu sou um produto de ambas. Para esse fim, eu quis condenar a morte em nome da honra assim como examinar a idéia de “honra”. Originalmente, eu quis fazer isso na forma de livro, mas em 2003 decidi que um filme seria a melhor forma de contar essa história. Imagens fluem mais rápido do que palavras escritas, atravessam barreiras geográficas, tribais e culturais.

Porém foi importante fazer mais do que apenas condenar o crime de honra e o sofrimento das mulheres. Eu quis entender o psicológico por de trás disso, para entender os homens que são forçados por tradições de suas comunidades – e por seus próprios fracassos – a matar aqueles que amam.

Você utilizou algum refugiado no filme?

A maior parte dos membros do elenco de “Ato de Desonra” não são atores profissionais. Eu gostei do desafio de trabalhar com eles. Eu procurava pessoas cujas historias de vida refletissem aspectos de meus personagens. Eu não estava simplesmente baseando meus personagens em pessoas reais, mas queria encontrar  pessoas que pudessem trazer suas próprias histórias para o script. Um ator, por exemplo, foi refugiado no Irã e retornou após 26 anos de exîlio. Ele percebeu rapidamente que não seria fácil voltar para sua cidade natal  (no leste do Afeganistão), na província de Wardak. Existem refugiados afegãos que vivem no Tajiquistão, próximos da fronteira afegã-tajiquistã e em outras áreas. Parte desses refugiados veio e ajudou no set de filmagens – tanto em frente como por de trás das câmeras.

Eu fiz o papel de Mejgan, baseada nas minhas próprias experiências filmando no Afeganistão durante a última década. Presa entre o constrangimento e o idealismo, eu lutei para mostrar como os afegãos poderiam ser progressistas. Durante as filmagens de Kandahar, nós descobrimos a dificuldade de encontrar mulheres com vontade de participar das filmagens. Eu ficava constantemente envergonhada com o atraso de minha própria cultura. Por vezes, eu tentei persuadir mulheres afegãs locais para ajudarem a provar que os afegãos poderiam ter uma cultura como outra qualquer.

Felizmente, nós não tivemos nenhum final trágico como o destino de Mena em “Ato de Desonra”. Mas nós tivemos situações terrivelmente tristes onde mulheres jovens eram impedidas de retornar ao set de filmagens por medo. Gradualmente, comecei a entender a cultura que uma vez já me causou tanto embaraço. Eu desenvolvi maior simpatia pelas mulheres e homens daquele país.  Trabalhar com uma equipe de filmagem estrangeira me permitiu conhecer a ingenuidade ocidental sobre o mundo muçulmano e a maneira unidimensional pela qual eles julgavam os outros.

Você acha que as pessoas vão se envolver com o filme?

Histórias de “morte por honra” têm se tornado cada vez mais comuns… Eu me lembro de  outro incidente [de morte por honra] em 2001, quando retornei à região para atuar em “Kandahar”, que foi filmado ao longo da fronteira Irã-Afeganistão. Nós trabalhamos principalmente em aldeias de refugiados. Uma adolescente adorou estar no set. Filmamos  algumas cenas com ela como uma das quatro mulheres de um personagem do filme. Mas um dia ela fugiu do set por medo de ser vista por seu pai e seus dois irmãos mais novos. Ela foi severamente punida pelo pai por desonrar seu nome. Nós tivemos que jogar fora o que foi gravado e começar de novo.

Hoje, em várias partes do mundo, mulheres são expostas a todo tipo de violência – morte em nome da honra é apenas um delas. Crimes em nome da honra não são restritos ao mundo muçulmano. Um grande número de assassinatos em nome da honra tem sido cometido no mundo ocidental nos últimos anos – infelizmente a maioria entre familias de refugiados. Eles escaparam de guerras, atrocidades e ainda, após chegar a um ambiente seguro, as diferenças entre suas práticas culturais e aquelas no país de refúgio se tornam evidentes. O peso e a responsabilidade são sempre depositados nas mulheres para preservar o nome e a honra de suas famílias.

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