Documentário ajuda mulheres a enfrentar a violência sexual na Colômbia

Fonte: ACNUR

Quase a metade das famílias deslocadas na Colômbia é comandada por mulheres, e são elas que normalmente começam a gerar renda após o deslocamento forçado. Mas as mulheres deslocadas também são as mais expostas à violencia sexual e de gênero, o que também é uma causa de deslocamento. (Foto: M.H.Verney/ ACNUR)

Em busca de uma nova vida, mulheres que foram forçadas a se deslocar por causa do conflito colombiano se unem em Chocó, na costa pacífica do país, para relatar a decisão de enfrentar a violência sexual e o maltrato. Os relatos estão reunidos no documentário “Chocó”, que fala sobre a violência sexual em situações de deslocamento forçado, em uma região colombiana onde o governo já registrou 60.922 pessoas deslocadas entre 2003 e 2009

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) está apoiando a iniciativa “como parte de um trabalho constante de acompanhamento das comunidades afro-colombianas, indígenas e mestiças para a prevenção e proteção relacionada à violência sexual que esta população enfrenta dentro de suas próprias casas e comunidades, como resultado de ações de grupos armados que usam a violência sexual como arma de guerra” afirma José Egas, chefe do escritório do ACNUR em Quibdó, que cobre esta área da Colômbia.

As mulheres deslocadas estão ainda mais exportas à violência sexual e de gênero que a média das mulheres colombianas. Uma entre cada seis mulheres deslocadas já foi forçada a ter relações sexuais, e uma entre cada seis das que já foram agredidas sexualmente manifestou que essa foi a causa do deslocamento, segundo um relatório da Defensoria Pública divulgado em 2008.

“A violência sexual contra as mulheres deslocadas também é mais visível”, explica Yiján Palacios, uma líder comunitária afro-colombiana que durante anos tem capacitado outras mulheres a reconhecer, enfrentar e prevenir a violência sexual. “Quando a família se muda, a mulher e o homem ficam submetidos a altíssimas incertezas que geram tensão. E ao perder seus vínculos sociais, a mulher não tem a quem pedir ajuda e já não tem uma posição a sustentar. Se não grita, ninguém irá ajudá-la”, afirma Palacios.

Esta situação perversa, ao tornar-se visível, permite ser abordada. Neste sentido, o documentário é parte de um conjunto de iniciativas para prevenir e colocar fim à violência de gênero que afeta as mulheres deslocadas.

As “protagonistas” do documentário serão vinte mulheres chefes de família e seus familiares, cada uma com câmera de video, contando seus problemas. Durante 13 capítulos, elas mostrarão uma realidade até agora invisível para a sociedade, e a forma como elas mesmas e as mulheres ao seu redor buscam a solução de conflitos próprios da violência de gênero dentro da comunidade. Elas serão o primeiro público do produto final, que não busca refletir um evento íntimo e particular, mas uma voz coletiva.

De acordo com Yiján Palacios, “um elemento chave para a violencia é a troca de papéis, porque gera muita insegurança nos homens”. “Quando as mulheres começam a gerar renda, os homens muitas vezes se opõem porque estamos acostumados que sejam eles os que saem de casa para trabalhar, e que as mulheres fiquem cuidando dos filhos”, analisa a líder comunitária. “Eles se sentem muito inseguros e isso muitas vezes gera violência, começando pela violência verbal que causa muitos danos”, completa Palacios.

Como já foi dito, o documentário é parte de um conjunto mais amplo de iniciativas: outras são uma animação de video em 3D para a prevenção e proteção de casos de violência sexual baseada em gênero, um almanaque comunitário para a difusão das normas sobre deslocamento, enfoque diferencial e violência de gênero, e um manual para a capacitação institucional sobre como dar atenção aos casos de violência sexual e de gênero. 

Os materiais foram elaborados por representantes das próprias comunidades, evitando palavras e conceitos complexos e uma abordagem caricatural das populações. Novas cartilhas para capacitação contra a violência de gênero, desenhadas específicamente para comunidades indígenas, estão em processo dentro de um trabalho conjunto com o Fundo das Nações Unidades para a População (UNFPA).

“Todas estas ferramentas estão sendo usadas em processo de fortalecimento comunitário e institucional, e tem incluido resultados tangíveis como o processo de reativação e/ou formação de Comitês de Violência Sexual interinstitucionais, Comitês de Gênero com organizações de população deslocada e organizações étnico-territoriais e diversas capacitações e cursos de formação com comunidades, instituições, grupos de jovens e de mulheres e população deslocada, entre outros”, menciona José Egas.

“É muito importante como se está trabalhando a organização das mulheres. Com o tempo, temos visto que é muito mais fácil fazer coisas se são varias mulheres ao mesmo tempo ao invés de uma única mulher. E também temos visto que, uma vez que os homens veêm que se trata de um processo, muitas vezes redescobrem suas próprias mulheres, passam a vê-las com outros olhos, e as apóiam” conclui Palacios.

Francesca Fontanini de Bogotá e José Egas de Quibdó, Colombia

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