Exilados birmaneses esperam aumento da repressão após eleições

Fonte: Terra

Os refugiados políticos birmaneses que vivem na vizinha Tailândia esperam um aumento da repressão após as eleições de domingo, apesar da Junta Militar insistir em apresentar a votação como um passo rumo à democracia.

“As eleições darão alguma legitimidade ao governo. Mas depois eles intensificarão as prisões e os combates com as guerrilhas”, afirmou à agência EFE Aung Myo Thein, um dos líderes dos protestos estudantis de 1988, exilado desde 2008 em Mae Sot.

Nesta cidade tailandesa centenas de birmaneses vivem em campos de refugiados, buscando trabalho ou tentando vender produtos contrabandeados, como cigarros.

“Aung San Suu Kyi (a líder opositora e Nobel da Paz em prisão domiciliar desde 2003) será liberada em breve. O regime quer fazer gestos. Mas depois das eleições, ela será presa outra vez na primeira oportunidade”, antecipa Aung Myo Thein.

O dissidente veterano lidera uma associação de atendimento aos presos políticos de Mianmar, que oferece assistência aos 2,1 mil birmaneses detidos em prisões do país.

“Temos uma rede secreta de fontes com a qual conseguimos informações, acompanhamos o estado dos presos e fazemos chegar a eles comida e remédios”, explica o refugiado.

Na sede da entidade há um inventário da repressão sofrida pela oposição democrática em um pequeno museu, cujo acesso é igual ao que os detentos cruzam ao entrar nas celas das prisões birmanesas.

“Aqui temos as fotos dos 144 presos que sabemos que morreram por torturas ou maus tratos”, diz Khin Cho Myint, ou Zulu, uma mulher de 28 anos que guia os visitantes pela exposição e traduz textos para a associação desde que fugiu de Mianmar, em 2008.

Zulu utiliza fotos, uma maquete da prisão de Insein e a reprodução de uma de suas celas para explicar os dilemas dos presos, desde o interrogatório inicial – com torturas incluídas – até os trabalhos forçados, passando ainda pelo menu à base de arroz e verduras.

A mulher passou quatro anos e nove meses em Insein por aderir às manifestações de 1998, que comemoravam a revolta estudantil de dez anos antes.

Deixar de viver atrás das grades não a permitiu recuperar toda a liberdade e, após não poder terminar seu curso de Física por falta de dinheiro, se exilou por conta do assédio e da vigilância aos quais era submetida pelos serviços de inteligência birmaneses.

“Em dois anos conversei em cinco ocasiões com minha família. As últimas vezes tive que falar com meu sobrinho de nove anos porque minhas irmãs têm medo de me atender”, relata Zulu.

Apesar de querer conseguir algum reconhecimento da comunidade internacional de seu processo eleitoral, os excessos da Junta não cessam.

Um novo relatório da associação liderada por Aung Myo Thein revela que só neste ano foram feitas 828 violações dos direitos humanos, 202 delas relacionadas com as eleições, embora a maioria continue sendo trabalhos forçados, expropriações ilegais e impostos arbitrários.

“É uma maneira educada de dizer extorsão. Te dizem: ‘pagamento ou queimamos sua casa’, por exemplo”, explica o dissidente veterano.

Após passar seis anos e meio na prisão e 11 como elo secreto com a dissidência na Tailândia, o ativista fugiu de Mianmar em 2007, quando ocorreu a chamada Revolução Açafrão, liderada pelos monges budistas e sufocada sem piedade pelos soldados birmaneses.

“Os exilados me recomendaram fugir porque ia haver prisões e eu podia pôr em risco toda a rede”, relata Thein.

Como os demais refugiados políticos, ele não acredita que as eleições tragam algum progresso. “Veremos o que acontecerá, se poderemos confiar em voltar sem que haja represálias. Algum dia retornaremos, mas por enquanto continuamos aqui, fazendo relatórios e ajudando os presos.”

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