Ex-criança-soldado de Uganda recorda histórias de dor e abusos

Fonte: SIC Online

Guerra, armas e abusos sexuais, são cenários que não se imaginam associados a crianças, mas aos nove anos de idade a ugandesa China Keitetsi, que hoje falou no Porto, viu a sua infância roubada quando a forçaram a transformar-se num soldado.

Foto: Lusa

“Perdi os meus pais, irmãos e tudo quando era criança. A minha história perdeu-se e nem sei os nomes dos meus avós”, recordou hoje China Keitetsi, 32 anos, durante uma conferência organizada pela Amnistia Internacional Portugal.

A história da antiga criança soldado começou quando fugiu de casa do pai para encontrar a mãe e é durante a sua busca que acaba por ser recrutada para o exército de Uganda para combater na guerra civil. “Vimo-nos transformados em soldados, deixamos de ser crianças. Foi-nos dada uma arma que era para matar o inimigo, era o que nos diziam. Então não pensamos em matar pessoas mas em matar o inimigo”, lembrou.

Tal como as outras crianças-soldado, privada de amor de pai e de mãe, procurava impressionar os seus superiores hierárquicos, fazendo mesmo “coisas terríveis”.

Durante os anos em que combateu foi vítima de abusos constantes pelos superiores, tendo engravidado duas vezes, a primeira com apenas 13 anos.

Só se apercebeu de que estava grávida aos seis meses de gestação porque, relatou, um soldado não existia para ter filhos.

“Quando deixei  Uganda, entre os 17 e 18 anos, estava grávida da minha filha. Tudo o que queria fazer era fugir para o mais longe possível. Apanhei um autocarro e fui para África do Sul, deixando um filho para trás. Não tinha a menor ideia do que me ia acontecer, ou ao filho que deixei para trás ou à filha que levava na barriga”, contou a ugandesa.

Acabou por ser separada dos dois filhos, reencontrando-os anos mais tarde com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que em 1999 a colocou na Dinamarca, onde vive.

China Keitetsi, que admite sentir-se “envergonhada por um dia ter empunhado uma arma”, diz não ter ódio para com as pessoas que lhe “fizeram mal”, mas também não lhes ter amor.

“Está lá, é parte da minha vida. Mas se odiamos, torna-se parte de nós. Torna-se doloroso, é frustrante e não se consegue ser feliz porque se gasta toda a energia a odiar”, frisou.

Por vezes, disse, sente-se criança. Outras, “muito velha”.

“Porque não se consegue imaginar uma menina, num mundo de homens soldados… muitas mãos me tocaram, antes mesmo de ter 16 anos e à medida que se cresce, nunca se esquece… nunca”, recordou.

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