Profissionais refugiados atendem comunidade na Namíbia

Fonte: ACNUR

 

Olivier Lino, refugiado, fugiu da guerra civil em Angola há quase 15 anos. Agora ele é procurador-chefe no norte da Namíbia. (Foto: T. Ghelli/ ACNUR)

 

Quando Victoire Mpelo fugiu e seu país natal na República Democrática do Congo, voltar a praticar a medicina era provavelmente uma das últimas coisas que viria à sua mente. Entretanto, quase 10 anos depois, o doutor se mantem ocupado todos os dias, cuidando de companheiros refugiados no assentamento de Osire na Namíbia.

Enquanto isso, a escola secundária vizinha de Osire, chefiada por outro refugiado, Come Niyongabo de Burundi, é classificada como um dos melhores estabelecimentos de ensino secundário do país.  Com relação aos serviços sociais, os refugiados do assentamento namibiano de Osire são quase auto-suficientes.

O governo da Namíbia, levando isso em conta, decidiu dois anos atrás que poderia utilizar a mão de obra dos 8.000 refugiados que vivem em Osire ao invés de deixar a cargo de funcionários do governo a prestação de serviços básicos no acampamento e suas redondezas.

“Na maioria dos países africanos, o suporte financeiro do ACNUR é necessário para prestar serviços básicos em campos de refugiados e isso geralmente é feito por meio de ONGs ou dos ministérios da saúde, educação, mas com fundos vindos do ACNUR”, disse Lawrence Mgbangson, representante da agência em Windhoek. “A Namíbia é bastante especial por reconhecer esta responsabilidade e esta tomando providências para garantir que refugiados qualificados sejam escolhidos”, acrescenta.

Profissionais como Mpelo e Niyongabo agora são pagos pelo governo, recebendo o mesmo salário que servidores civis. Eles ainda estão incluídos em programas de treinamento. A única diferença é que eles não recebem auxilio moradia.

Mpelo está muito satisfeito por estar trabalhando de novo e a rotina fora da clínica mostra que ele se mantém ocupado. Ele foi para Zâmbia e depois para Namíbia ao deixar a região congolesa de Fizi, na província de Kivu do Sul, para escapar do conflito e após ser constantemente perseguido por sua origem étnica.

O ACNUR ajudou Mpelo a conseguir certificados traduzidos e reconhecidos por importantes conselhos de saúde da Namíbia, habilitando-o para praticar a medicina. Ele agarrou a oportunidade quando convidado a trabalhar na clínica de Osire.

“Ter um médico residente em Osire, provocou um tremendo impacto”, disse Ester Namwandi, um oficial sênior de saúde da região, que acrescentou que ter Mpelo no campo permitiu uma resposta mais rápida aos casos emergenciais. “Se ele não estivesse lá, casos críticos teriam que ser transferidos para o hospital de Otjiwarango, a mais de uma hora e meia de distância, e, algumas vezes, poderia simplesmente não haver tempo suficiente para isso”.

Algumas das enfermeiras, como Anna Chica Julia Ricardo, também são refugiadas. A angolana está morando em Osire desde 1994 e foi escolhida pela Cruz Vermelha para ajudar na clínica. Mas, desde 2008, ela é empregada pelo Ministério da Saúde. “Eu não planejava isso. Acho que meu trabalho era simplesmente necessário”, ela disse.

Além disso, mais de 1.700 crianças, incluindo aproximadamente 100 namibianos da comunidade anfitriã, estudam na escola primária de Osire. O diretor, Carlos Sukuakueche, fugiu de sua terra natal na Angola em 1994. Seu colega de outra escola secundária, o burundi Niyongabo veio para Namíbia em 1996.

Aqui ele tem a chance de fazer algo positivo e ajudar os jovens a criar a base para um futuro fértil. Os resultados estão começando a aparecer. No último ano, os resultados dos estudantes de Osire nos exames estiveram entre os 13% melhores de todo o país.

“Eu estou orgulhoso dos recordes desta escola e de como os estudantes se saíram bem”, declarou Niyongabo ao ACNUR. Ele disse que um novo desafio seria conseguir fundos e bolsas de estudo para enviar alguns dos estudantes à universidade. “Me dói ver alguns dos meus estudantes mais brilhantes ainda no campo, impossibilitados de ir em frente devido à falta de oportunidades para uma educação mais elevada”.

Ao menos um refugiado está ajudando a administrar a justiça na Namíbia. Na corte de magistratura de Otjiwarango, o procurador chefe Olivier Lino recebe calorosamente os visitantes. Ele chegou a essa posição após ganhar uma bolsa de estudos – através da iniciativa do ACNUR – financiada pela Fundação Acadêmica Alemã Albert Eintein para Refugiados – para estudar direito na Universidade da Namíbia. 

Ele se graduou como um dos cinco melhores de sua classe e se esforçou muito para trabalhar no setor público. “Ter sido discriminado por vir de uma minoria na Angola – e depois a experiência de ser um refugiado – me fizeram querer ser um advogado que defende os direitos humanos”, explicou Lino. “Eu sirvo a todos – namibianos ou não – que precisem de justiça.”

O funcionário do ACNUR, Mgbangson inspira-se em Osire. “A experiência na Namíbia pode ser um exemplo para o mundo de como os refugiados podem contribuir para seus países de refúgio. Isso não apenas ajuda os refugiados em termos socioeconômicos, mas também facilita os esforços de coexistência pacífica com a população local”, diz ele.

Tina Ghelli em Osire, Namíbia

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