Acusações de tráfico sexual abalam comunidade somali nos EUA

Fonte: Último Segundo

Residentes somalis caminham no centro de Minneapolis, nos EUA (Foto: The New York Times)

Depois de fugir de guerra civil e fome em seu país, somalis de Minneapolis se chocam com gangues, crimes e abusos

Quando a menina agora identificada como Jane Doe 2 passou controle deles em 2006, aos 12 anos, os bandidos da gangue Somali Mafia definiram uma regra: seus membros poderiam fazer sexo com ela por nada, enquanto outros teriam de pagar com dinheiro ou drogas.

Repetidamente, ao longo dos três anos seguintes, em apartamentos, quartos de motel e banheiros de shopping centres de Minnesota e Tennessee, a menina praticava atos sexuais com membros de gangues e clientes pagantes sem parar. A reveleção veio em uma acusação federal que indiciou 29 somali e seus descendentes americanos por atrair meninas para a prostituição na última década, sob abusos e ameaças. Os suspeitos, agora com idades entre 19 a 38 anos, usavam apelidos como Hollywood e Cash Money, disseram os procuradores.

As alegações de tráfico organizado, reveladas este mês, foram um choque profundo para os milhares de somalis que vivem na área de Minneapolis. Eles fugiram da guerra civil e da fome para construir uma nova vida nos Estados Unidos e, agora, se perguntam como alguns dos seus jovens poderiam ter ido tão longe. Na semana passada, em murmúrios durante o chá em uma reunião pública de emergência, pais e idosos expressaram indignação, perplexidade e raiva porque as autoridades não agiram mais cedo para deter os criminosos e salvar seus jovens.

A acusação foi o último de uma série de solavancos que começou por volta de 2007, quando tiroteios nas cidades gêmeas tornaram impossível ignorar o surgimento das gangues somalis. Depois veio a descoberta de que mais de 20 homens haviam retornado para a Somália para combater os extremistas islâmicos, gerando o que muitos somalia sentem ser um escrutínio cruel e injusto das agências de aplicação da lei e da mídia.

“E agora esta gangue do sexo”, lamentou Zuhur Alves, 25 anos, que discute os problemas da Somália em seu programa semanal na rádio comunitária KFAI em Minneapolis. “Todo mundo agora se pergunta o que vem a seguir”.

Preocupação
Cawo Abdi, um sociólogo da Somália na Universidade de Minnesota, disse que ondas de preocupação com jovens problemáticos não têm sido acompanhadas por verbas e programas para ajudá-los. “Isso é visto como um escândalo tão grande e há tanta indignação, que é preciso algum tipo de ação”, ela disse sobre as novas acusações.

Muitos imigrantes da Somália estão se adaptando bem nos Estados Unidos, como demonstrado em um importante feriado islâmico quando, no que se tornou um ritual anual, milhares saíram das orações da manhã para aproveitar o parque de diversões do Mall of America. Meninas com lenços de cabeça tradicionais e meninos em suas melhores camisas brancas faziam filas nos brinquedos. Mas a pobreza continua a ser comum e sua história dolorosa cria alguns obstáculos especiais para as famílias da Somália.

“Os jovens imigrantes têm mais riscos do que outras crianças”, disse Jibril Dahir, ex-professor que é o diretor executivo do Centro de Defesa da Justiça da Somália, um pequeno grupo sem fins lucrativos que pretende desenvolver programas comunitários.

Normalmente, os pais cresceram na Somália enquanto seus filhos cresceram na América e habitam diferentes mundos culturais. Os pais, alguns dos quais não dominam o inglês, esperam obediência e humildade e acompanham de perto a política na África Oriental, mas os filhos não estão focados na pátria e sim no dinheiro, roupas e entusiasmo da cultura americana.

Para piorar os desafios, alguns jovens somalis chegaram aos Estados Unidos depois de anos traumáticos em campos de refugiados sem seus pais. Uma minoria significativa abandonou os estudos apenas para passar o tempo à espreita nas ruas perto do Riverside Plaza, um prédio de baixa renda que alguns chamam de Little Mogadiscio, ou em torno de um dos centros comerciais da cidade.

Gangues
A denúncia que desencadeou o debate atual acusa os integrantes de três gangues interligadas – a Outlaws, a Somali Mafia e a Lady Outlaws – de envolvimento com tráfico sexual, assim como furtos e fraudes de cartão de crédito em larga escala.

Uma menina, identificada como Jane Doe 1, não tinha 14 anos quando, em 2005, membros da gangue a levaram para o Tennessee e Ohio para trocar sexo por dinheiro e drogas, segundo a acusação. Outra menina, Jane Doe 3, tinha 15 anos em 2008 quando discutiu com a mãe e fugiu para a membro de uma gangue conhecida como Lady Boss, de apenas 18 anos, que a recebeu e passou a controlar sua prostituição.

Alguns líderes da Somália, incluindo parentes de alguns dos acusados, insistem que as agências federais estão exagerando tanto os crimes quanto o alcance de qualquer uma das gangues.

Meninas estudam em programa do centro islâmico Da’wah, na cidade de Saint Paul (Foto: The New York Times)

As autoridades identificaram “algumas centenas” de somalis membros ou associados de vários grupos diferentes, disse Jeanine Brudenell, elo da comunidade com a polícia de Minneapolis. Os grupos tendem a ser pouco estruturados e ainda que conhecidos por roubos e venda de maconha, não são os sindicatos em larga escala de drogas pesadas como algumas gangues dos Estados Unidos.

Jibril, o ex-professor, disse que ouviu outros exemplos de adolescentes que acabaram como escravas sexuais. Ele disse que recentemente ajudou uma menina que fugiu aos 12 anos e adotou a prostituição e as drogas sob a égide das gangues. Ela teve um bebê aos 16 anos, que foi levado pelos serviços de proteção à criança e continuou sua vida no submundo – sob ameaça de morte caso tentasse deixá-la – até que recentemente deu à luz um segundo filho a quem está determinada a manter.

Em uma comunidade que foge da discussão pública do sexo e do crime, alguns líderes religiosos e assistentes sociais tentaram no passado alertar sobre os perigos enfrentados pelos jovens somalianos.

“Vejo essas acusações como um alerta para os pais”, disse Hassan Mahamud, advogado e imã do centro islâmico Da’wah em Saint Paul, em Minneapolis.

Religião
Mohamud visita somalianos na prisão tentando atraí-los à sua mesquita e oferece aulas do Alcorão após a escola para dezenas de jovens, mas ele acrescentou que a comunidade precisa de dinheiro para coisas como treinadores de futebol, bem como uma forte formação religiosa.

Sheriff fugiu da Somália para o Quênia depois de ver as duas irmãs serem estupradas e assassinadas (Foto: The New York Times)

Um ex-líder de gangue que ele ajudou é Abdulkadir Sheriff, 31 anos, cuja história, embora muitos detalhes não possam ser confirmados de forma independente, parece sintetizar as tensões e tentações de muitos jovens da Somália.

Sheriff disse que ele fugiu da Somália para o Quênia depois de ver as duas irmãs serem estupradas e assassinadas. Ele foi parar em Minneapolis, em 1996, com uma irmã e seu marido, aos 17 anos. Eles mudaram-se para o prédio Riverside Plaza e ele foi expulso da escola em um mês após entrar em brigas. Até hoje, ele não sabe ler ou escrever.

Sheriff disse que ele ajudou a formar gangues somalis para proteção e autoestima. “A única maneira de sobreviver é ser alguém”, ele disse. Ele admitiu portar armas e vender drogas, passou um ano na prisão por roubo de carro, mas insiste que não se envolveu em prostituição.

Em 2007, quando Sheriff saia de um bar perto do prédio, um rival o apunhalou no pescoço e deixou-o como morto. Sua recuperação, ele disse, “foi um sinal de Deus”, e sua conversão foi cimentada por uma visita do Imam Mohamud. Agora Sheriff, que fala com uma voz rouca por causa de danos em suas cordas vocais, trabalha como chefe de segurança no centro Da’wah e conduz um programa de 12 passos para ajudar outros islâmico a parar de beber.

Quando ele vê suas cicatrizes cirúrgicas no espelho pensa, sempre: ” lembro que eu tive uma segunda chance”. “Não haverá outra”, ele disse.

*Por Erik Eckholm

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