Iraque assiste a segundo êxodo desde início da guerra

Fonte: Último Segundo

Mãe e filhas de Abu Maream. Família deixou o Iraque depois da morte de cunhado, em 2005, e retornou no ano passado (Foto: The New York Times)

Falta de empregos e condições precárias levam à imigração de iraquianos que deixaram país no auge do conflito e voltaram

O Iraque assiste ao início de um segundo êxodo. Os iraquianos que retornaram ao país depois de fugir da carnificina do auge da guerra agora se veem partindo novamente por conta da violência e da grave falta de empregos.

Desde a invasão dos Estados Unidos em 2003, os refugiados têm sido uma medida da condição precária do país, fugindo para o exterior durante os períodos de violência e voltando quando o Iraque parecia se estabilizar. Esta nova imigração revela o quão longe o país ainda está de ser considerável estável e seguro.

Abu Maream deixou o Iraque depois que um morteiro matou seu cunhado em 2005. Amar Al-Obeidi deixou o país quando insurgentes ameaçaram matá-lo e invadiram sua loja. Hazim Hadi Mohammed Al-Tameemi partiu porque os médicos que tratavam o câncer de ovário de sua esposa tinham fugido do país. Os três estavam entre o grande fluxo de refugiados que retornaram ao país quando a violência pareceu retroceder. Mas agora eles querem ir embora de novo.

“A única coisa que me impede é que eu não tenho o dinheiro necessário”, disse Maream, que informou apenas parte de seu nome por medo de represálias por parte de extremistas no seu bairro. “Nós somos iraquianos apenas no nome”.

Cerca de 100 mil refugiados regressaram ao Iraque desde 2008, de mais de 2 milhões que deixaram o país desde a invasão, segundo o governo iraquiano e o alto comissariado da ONU para refugiados.

Mas, conforme eles retornam, encorajados pelo aumento da segurança no Iraque ou pela falta de trabalho no exterior, muitos estão descobrindo que sua pátria ainda não está pronta – suas casas foram destruídas ou ocupadas, seus bairros são inseguros, suas oportunidades mínimas.

Em uma pesquisa realizada recentemente pelo secretariado de refugiados da ONU, 61% daqueles que retornaram a Bagdá disseram lamentar a volta por não se sentir seguros. A maioria, 87%, disse não conseguir ganhar dinheiro suficiente no país para sustentar sua família.

Esforços
Enquanto o Iraque se esforça em busca de um retorno à estabilidade, esses repatriados se arriscam e tentam se tornar pessoas sem um país, deslocados tanto no exterior quanto em sua própria nação. E embora o fluxo de partida tenha diminuído desde 2008, uma onda de ataques recentes contra os cristãos provocou um novo êxodo.

Al-Obeidi, que usou o nome de sua tribo em vez do nome de seu pai como sobrenome, partiu para a Síria em 2006, depois que uma bomba improvisada explodiu perto de seu sobrinho, alarmando o garoto, e os insurgentes ameaçaram matá-lo. Em uma noite recente em Bagdá, ele teve problemas para controlar sua respiração enquanto falava sobre as explosões diárias no seu bairro.

“Não há segurança aqui”, ele disse, relatando seus encontros com armas e bombas. “Eu estive perto de uma mulher-bomba alguns meses atrás. Depois estive no caminhão do meu irmão quando os insurgentes abriram fogo contra nós em uma ponte. Meu amigo foi morto na minha frente com uma faca. Eu fui destruído. Minha mãe precisa de uma operação nos olhos e eu não tenho dinheiro. Nós precisamos de alguém para nos ajudar.

Perdas
Antes dos insurgentes saquearem sua loja de ferramentas em 2006, ele ganhava cerca de US$ 1 mil por mês e estava planejando se casar. Mas, durante diversas viagens ao exterior, ele foi incapaz de encontrar trabalho. Desde que voltou para Bagdá, ele tem lutado para encontrar trabalho diário, ganhando cerca de US$ 6 por jornada. A mulher com quem ele tinha a intenção de se casar agora pertence a outro homem.

Ele pagou contrabandistas duas vezes para levá-lo primeiro para a Áustria, depois para a Itália, mas os homens levaram o dinheiro e o deixaram para trás. ”A vida era melhor na Síria, mas eu não posso trabalhar lá”, disse Al-Obeidi, que é sunita. “Na Jordânia foi o mesmo. Na Turquia foi o mesmo. E era caro viver lá. É por isso que eu precisei voltar. Mas o nosso país não é o nosso país. É o país do Irã. Nós precisamos de alguém para nos ajudar.”

Apoio da ONU
A ONU fornece apoio para custos de transporte e um pequeno salário para as famílias que voltam, mas menos de 4% das pessoas que retornam ao país tiram proveito do programa. A maioria não quer saber disso ou acredita que ainda pode querer regressar ao seu país de asilo e precisar da ajuda da agência então, como refugiados.

Para Maream e sua família, que foi para a Síria em 2005 e voltou no ano passado, a vida se tornou uma escolha entre opções ruins. A Síria parecia segura, mas ele se sentia “humilhado” como um estrangeiro desempregado à procura de trabalho, vendendo suas posses para manter a família. Aqui, ele não tem conseguido encontrar trabalho e os vizinhos que costumavam respeitar a família agora “nos olham de cima para baixo”, disse.

Em uma tarde recente, ele estava sentado no apartamento de dois quartos com apenas um colchão no chão e alguns pertences em caixas. Ele não tem geladeira e recebe apenas algumas horas de eletricidade por dia. ”Antes, tínhamos vizinhos xiitas e não havia problemas”, disse Maream, que é sunita. “O governo criou essa coisa sectária”, disse ao lembrar que o bairro se tornou um reduto de extremistas sunitas.

Ele se sentou na beirada do colchão, com sua mãe sentada atrás dele. Nos próximos meses, contou,  enviará suas irmãs e mãe de volta para a Síria, enquanto ele e sua esposa e três filhos irão morar com um tio no Iraque, separando a família. Ele não tem ideia de quando a família se reunirá na Síria

Al-Tameemi, que lutou na sangrenta guerra de oito anos com o Irã, disse que odiou deixar o Iraque em 2006. ”Eu amo meu país”, disse. Mas depois de anos de sanções e da invasão conduzida pelos Estados unidos, médicos e remédios se tornaram escassos – o que levou ao primeiro êxodo do Iraque.

Na Jordânia, ele encontrou médicos para tratar o câncer de sua esposa, mas não conseguiu encontrar trabalho. ”Eles não nos tratam bem”, contou.

Hoje, dois meses depois de voltar ao Iraque, Al-Tameemi está pronto para partir novamente. Apesar das melhorias na segurança e cuidados de saúde – antes um modelo para a região – os médicos ainda não retornaram. ”Mesmo se eu tiver de dormir na rua, quero cuidar da minha esposa”, disse.

Seu próximo plano é pedir asilo aos Estados Unidos, mas ele sabe que as chances estão contra ele. Sua experiência o afastou de um país que já não pode chamar de lar. ”Eu lamento ter voltado, mas problemas financeiros me obrigaram a fazê-lo”, disse ele. “Os iraquianos não ajudam os iraquianos.”

*Por John Leland, com reportagem de Duraid Adnan

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