“Sempre há esperança de ter vida debaixo dos escombros mesmo depois de 48 horas”, diz bombeiro em Nova Friburgo

Fonte: UOL

A chuva também provocou estragos no município de Sumidouro, ao norte de Nova Friburgo (RJ); segundo a prefeitura, o rio Paquequer ultrapassou o nível normal em 5,2 metros. Muitos bairros ficaram sem energia elétrica e telefone (Foto: Divulgação/ Prefeitura de Sumidouro)

Centenas de pessoas ainda permanecem soterradas em Nova Friburgo, segundo projeção da Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro. Ainda há localidades que sofreram deslizamentos inacessíveis para as equipes de resgate. Embora as chances sejam remotas, ainda há esperanças de encontrar alguém com vida, afirmam bombeiros. O município é o mais atingido pelas chuvas da região serrana e já soma mais de 200 mortos.

“Foi um fenômeno fora do comum nessa área aqui de Friburgo, ainda há vários pontos de desabamentos. Nós ainda não chegamos a muitas localidades, e isso dificulta muito”, disse o comandante geral do Corpo de Bombeiros, coronel Pedro Machado.

Mesmo assim, o tenente-coronel Marrafa, da Defesa Civil do Estado acredita que “sempre há esperança de ter vida debaixo dos escombros mesmo depois de 48 horas”. Segundo informou a Defesa Civil, existem mais de 30 frentes dos bombeiros atuando em todo o município.

“Estamos torcendo para que não chova muito forte”, admitiu o tenente-coronel Marrafa, que faz um apelo à população: “A gente pede para, quem esteja em área de risco, que saia e fique em lugar seguro”. A previsão do tempo aponta para chuvas até domingo.

Ainda é impossível calcular o número de desabrigados na cidade, pois as pessoas estão sendo acolhidas na casa de parentes e amigos. “Quando a situação entrar numa normalidade é que serão apresentados abrigos”, afirmou o comandante geral do Corpo de Bombeiros.

Limpeza

Dois dias após a enxurrada e os desabamentos, aos poucos a população tenta retomar a rotina e começar do zero.

A cidade amanheceu nesta quinta-feira (13) limpando o que sobrou dos escombros. A população se mobilizou numa grande força-tarefa para retirar a lama das calçadas e ajudar na organização do trânsito, que está caótico.

O comércio abriu parcialmente nas áreas centrais para evitar a ameaça do desabastecimento na cidade. Mas a maior parte de supermercados e estabelecimentos que vendem alimentos permaneceram fechados.

Com cerca de 200 mil habitantes, Nova Friburgo é conhecida como o pólo da moda, onde a indústria da lingerie movimenta grande parte da economia local, sendo referência para atração de turistas e de geração de emprego.

Próximo à rodoviária na entrada da cidade, alguns funcionários de uma loja de moda íntima tentavam limpar o que tinha sobrado. A loja estava ameaçada a desabar porque uma laje havia caído próximo ao córrego.

“Parece um filme, fora da realidade. Quando o tempo fecha que nem hoje é mau sinal. A cidade sinceramente não está preparada”, disse Luciene da Rosa, de 34 anos, e há pelo menos 16 mora em Friburgo. Ela disse que já tinha vivenciado uma enchente grande em 1996, mas “essa foi pior”, garante.

Em cima da laje que desabou próximo a um córrego, havia um pequeno jardim em frente às lojas. Hoje não sobrou nada, apenas um buraco que ameaçava aumentar. “Vai demorar para a cidade tentar voltar ao normal”, lamentou Luciene.

Em meio a um grande centro comercial de moda, que durante toda a semana lota de fregueses, hoje só havia uma única loja aberta.

“Eu nunca vi isso. Caíram casas e prédios, a terra ‘lambeu’ tudo. Fiquei assustada com qualquer barulho, eu já estava preparada para sair de casa com uma mala de roupa e remédio”, afirmou a jovem vendedora de 22 anos, Pâmela Pereira de Almada. Ela mora numa das áreas mais afetadas, o bairro de Jardinlândia, onde na madrugada de quarta-feira a água chegou a três metros de altura.

Em Teresópolis, peritos exibem fotos das vítimas em frente ao IML para reconhecimento por parentes e os primeiros corpos começam a ser sepultados no cemitério municipal, onde foram abertas 300 covas (Foto: Vladimir Platonow/ Agência Brasil)

“Só hoje consegui falar com a minha mãe em Teresópolis”, contou ainda assustada. Teresópolis foi outra cidade bastante afetada na região serrana do Rio.“Ontem onde eu moro foi difícil, só tiravam gente morta dos escombros.”

Pâmela contou que a água demorou muito a baixar e o Corpo de Bombeiros só conseguiu ter acesso aos locais atingidos por deslizamentos no início da tarde. “Hoje eu vim trabalhar chorando, passei pelo centro e vi todas as ruas alagadas e sujas.”

Nas ruas do centro, ainda é difícil caminhar, a lama toma conta da via e impede a circulação de pessoas e carros. Numa mercearia próxima à avenida principal, Euterpe Friburguense, um casal tentava tirar a lama que havia entrado no estabelecimento. Muitos alimentos ficaram estragados. “A família perdeu a casa, mas graças a deus está viva”, dizia Cristina de Oliveira que há 11 anos é proprietária do mercado junto com seu marido.

Já na loja ao lado, uma boutique de roupas e acessórios, pouca coisa havia sobrado. Daniele Andrade, dona há quatro anos, disse que pouca coisa não foi destruída pela força das águas. “Não temos previsão de abrir a loja, estou levando algumas roupas para lavar. Não sabemos nem se vamos comer. Vai ser difícil retomar a rotina”, ressalta a proprietária.

Fuga da cidade

O trânsito esteve caótico neste dias. Ambulâncias, guinchos e caminhões pipa pediam passagem, mas ficavam atolados na lama.

Os poucos postos de gasolina abertos estavam no início da manhã com filas enormes de veículos para abastecer –no período da tarde, já faltava combustível em grande parte dos postos.

A comunicação entre as equipes de salvamento está sendo feita apenas por rádio. Os bombeiros estão trabalhando ininterruptamente desde a madrugada da tragédia. “Não dá para abandonar o trabalho, se eu pudesse eu iria ao enterro. A gente tem que continuar trabalhando, tem outras pessoas que também precisam da gente”, disse o jovem tenente do Corpo de Bombeiros Sant’ana Silva, de 22 anos, que perdeu seus três colegas de profissão soterrados na quarta-feira quando iam atender a um resgate.

O tenente Sant’ana Silva era amigo de Uanderson Flávio de Freitas, de 25 anos, e Vítor Lembo Spinelli, de 28 anos, que morreram ao serem atingidos pela queda de um barranco.

“Quem pode, quer fugir daqui”, disse o motorista de ônibus intermunicipal Rogério Soares, de 43 anos. Na rodoviária é possível ver muitas pessoas se preparando para deixar a cidade. Os ônibus já começaram a circular fazendo o trajeto Rio de Janeiro- Nova Friburgo, mas não tem hora para sair. A demanda tem sido grande: à medida que chegam, eles já descem a serra todos ocupados. A companhia de ônibus 1001 que opera Rio-Friburgo está funcionando sem horário fixo.

A família de Rosângela Cristina Souza, de 53 anos, resolveu deixar Friburgo e voltar apenas quando a situação estiver normalizada. Ela, a sua mãe de 85 anos, a filha, genro e neto de seis meses, deixaram na tarde de hoje a cidade rumo a Cabo Frio e não tem previsão de voltar. Um barranco caiu ao lado da casa onde vivem, próximo à avenida Euterpe Friburguense de grande circulação na cidade. “O barranco caiu na madrugada de quarta-feira, colocamos sofás e móveis para segurar a porta, mas não deu, entrou muita lama. Agora só voltamos quando melhorar a situação”, disse Rosângela.

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