Duro golpe ao multiculturalismo

Fonte: Presseurop

Querida, queria um pouco de "liberalismo muscular". Cartaz do festival "India Now", em Londres (Imagem: Pieceofwhat)

Poucos meses depois de Angela Merkel ter suscitado uma controvérsia ao afirmar que a sociedade multicultural na Alemãnha tinha “falhado completamente”, o discurso de David Cameron, a 5 de fevereiro, que dá eco à opinião da chanceler alemã, reavivou o debate sobre identidade nacional na imprensa britânica.

Sob a doutrina do multiculturalismo de Estado, encorajámos diferentes culturas a viverem separadas umas das outras e da cultura do país”, argumentou David Cameron durante a cimeira internacional sobre segurança, em Munique. “Não fomos capazes de lhes dar uma visão da sociedade a que sentissem que queriam pertencer”, prosseguiu o primeiro-ministro britânico, para quem este fenómeno levou ao “fracasso de quem se viu perante os horrores de um casamento forçado“, sendo também a razão da radicalização que pode levar ao terrorismo.

Cameron afirmou que o Reino Unido tem de adotar uma política de “liberalismo muscular” para pôr em prática os valores da igualdade, justiça e liberdade de expressão em todos os setores da sociedade. Deixou um aviso aos grupos muçulmanos: se não reconhecerem os direitos das mulheres e se não promoverem a integração, deixam de ser financiados pelo Governo. Todos os imigrantes na Grã-Bretanha têm de saber falar inglês e as escolas terão de ensinar a cultura do país.

Relativismo moral é o dobre a finados da civilização
O discurso foi imediatamente condenado pelo Partido Trabalhista, na oposição, e pelos grupos muçulmanos, pela perspetiva “simplista”. Muitos lamentam que tenha sido proferido no mesmo dia em que três mil apoiantes do movimento de extrema-direita Liga de Defesa Inglesa se manifestaram em Luton, perto de Londres, no seu maior protesto de sempre. Segundo o diário The Guardian, um manifestante afirmou: “Se ele [Cameron] quiser começar a apoiar-nos, é fantástico”.

Louvando o discurso, The Times defende que o credo multicultural na “tolerância” já não é uma resposta suficiente para os tempos conturbados em que vivemos. “Foi explorado por extremistas e do confronto entre identidade confusa e religiosidade pervertida resultaram os atentados à bomba de 7 de julho, o extremismo da jihad e o culto do martírio terrorista. Como afirmou Edmund Burke [filósofo do século XVIII], e a maior parte do país reconhece agora, “tudo o que é necessário para que o mal triunfe é os homens bons não fazerem nada”.

“O multiculturalismo faz parte do fenómeno europeu mais alargado que é o relativismo moral, concorda Jonathan Sacks nas páginas do diário londrino: “uma doutrina que se tornou influente na sequência do Holocausto. Dizia-se que ser a favor das questões morais era sinal de ‘personalidade autoritária’. O juízo moral era visto como o primeiro passo para o fanatismo. Mas o relativismo moral é a sentença de morte de uma civilização“.

Um milhão de versões do capitalismo consumista
“Ao discursar em Munique, [David Cameron] aliou-se à horrorosa Angela Merkel”, dispara a colunista de The Independent columnist Yasmin Alibhai-Brown, acrescentando que fazer um discurso para consumo interno num conselho de segurança internacional é “uma afronta”. “Concordo que os nossos cidadãos se sintam incomodados pelos muçulmanos britânicos, cujas exigências não têm fim, que estão cheios de ódio e de planos homicidas, ou que escolhem marginalizar-se em guetos. Porém, a infelicidade nacional generalizada resulta de políticas introduzidas por este Governo [i.e. orçamentos cegos de austeridade]. Os muçulmanos e os migrantes estão a servir para distrair as pessoas do caos planeado posto em prática por esta coligação impopular [conservadores e liberais no poder]”.
Madeleine Bunting, escrevendo nas páginas de The Guardian, desenvolve um pouco mais esta noção. “O discurso  de David Cameron esconde uma nostalgia por uma identidade coletiva nacional forte e uma noção de valores partilhados. Mas, depois de uma geração de individualismo e globalização, ficaram enfraquecidos ou foram abandonados todos os tipos de identidades coletivas. Muitas das instituições que expressaram e inculcaram uma noção de nacionalidade estão em declínio, seja partidos políticos, sindicatos ou igrejas cristãs. O tecido da nossa vida institucional, onde exprimíamos os nossos valores, foi substituído pela liberdade individual. A ‘visão da sociedade’, que David Cameron considera necessária, já se manifestou – um milhão de versões da sociedade capitalista 24 horas por dia, que promove o desejo de consumo”.

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