Marítimos refugiados: viagem com destino incerto

Fonte: Radio Nederland Wereldomroep

Foto: Piet den Blanken

Por Myrtille van Bommel

As imagens de refugiados tunisianos que chegaram em massa à ilha italiana de Lampedusa foram divulgadas essa semana pela imprensa do mundo todo. No entanto, sabemos que eles não são os primeiros que arriscam suas vidas, viajando em pequenos barcos, em busca de um futuro melhor.

Há três semanas, o capitão Martin Remeeus, do navio holandês Momentun Scan, recebeu um pedido de ajuda de um barco de pescadores no Mar Adriático. Quando ele chegou ao local ele quase não acreditou no que viu.

“Homens, mulheres e crianças empilhavam-se uns sobre os outros. Foi constatado que 263 pessoas estavam a bordo. O mar estava agitado e o barco afundando. A água já havia alcançado a popa e começava a cobrir as pessoas”. Ele tentou salvar os náufragos, lançando redes e escadas de corda.

Hipotermia

“No começo havia pânico, agitação. Todo mundo queria subir ao mesmo tempo no barco. Muita gente caiu e se afogou tentando subir na embarcação”, explica Remeeus. O capitão e sua tripulação conseguiram salvar 226 pessoas. “Mulheres e crianças sobreviveram. Mas foi deplorável. As pessoas estavam ensopadas e sofriam de hipotermia”.

Remeeus aponta para uma das fotos de uma exposição sobre os barcos de refugiados, que está sendo exibida no Museu Marítimo de Roterdã. Um barco com africanos chega à ilha espanhola de Tenerife. “Eles conseguiram desembarcar em terra firme. Mas o que eles conseguiram, de verdade?”, pergunta-se.

Os refugiados que Remeeus salvou, vindos do Afeganistão, foram deixados por ele na ilha grega de Corfu. Ele não sabe o destino que essas pessoas tiveram, se puderam ou não permanecer na Europa.

Inaceitável
“Olha, eu estou aqui!”, diz Tanh Nguyen, que se vê em uma das fotos da exposição. Na foto, um time de futebol com um barco de refugiados do Vietnã de 1979. Nguyen se emociona. Na época, ele tinha 22 anos e fugia do seu país depois que o regime comunista do Vietnã do Norte havia entrado no Vietnã do Sul.

O estudante viu seu futuro ameaçado quando as universidades foram fechadas e todo mundo passou a ser enviado a um campo de reeducação. Ele não aceitou essa restrição a sua liberdade. Como milhares de conterrâneos, Nguyen decidiu se exilar.

Em um barco de pescadores, com outros 25 vietnamitas, Nguyen teve primeiro que passar horas navegando pelo Rio Mekong. A viagem pelo rio era perigosa, já que policiais militares estavam por todos os lados. “Se você fosse pego, estava ameaçado a uma pena de prisão, torturas ou o pior”, conta ele.

Chegar ao mar foi um alívio para Nguyen: “Primeiro fomos em direção das grandes ondas. Eu estava me sentindo mal. Eu ainda pensava em como seria bom se eu não precisasse deixar minha casa. E então, depois de quase trinta horas a bordo ligamos o motor. E nos dois dias que ficamos flutuando no mar à deriva, eu só pensava que ia morrer”.

Teoria x Prática
Na teoria, o plano de fugir para a Malásia com um barco de pescadores parecia muito simples. Mas na prática não foi nada fácil. Nguyen percebeu que na verdade ele não sabia a distância entre o Vietnã e a Malásia, nem para qual lado deveriam navegar.

Após cinco dias de viagem, o barco de Nguyen chegou a uma rota de navegação internacional bastante frequentada. Sete navios passaram por eles. Mas o pedido deles, por ajuda, não foi atendido. Eles só faziam fotos do barco dos vietnamitas. Até o oitavo navio, o Antilla Bay, da companhia de navegação holandesa Nedlloyd, passou por eles de maneira apressada. No entanto, esse navio permaneceu parado.

Salvo
Depois do que, para ele, pareceram algumas horas, escadas de cordas foram lançadas ao mar. Nguyen sabia: “Eu estou salvo. Eu nasci de novo. Agora que eu conto isso, estou sentindo um arrepio. E eu não esqueço nunca mais aquele momento. Nós subimos a bordo, pudemos tomar banho e nossa primeira refeição foi, na verdade, muito simples, arroz com sardinhas. Mas estava tão gostoso, isso eu não esqueço nunca mais.”

Nguyen sabe que ele teve sorte. Ele foi salvo de uma morte certa e pôde se exilar na Holanda. E ainda que tudo tenha sido tão difícil, ele diz que faria tudo de novo. Porque o desejo de liberdade é muito maior do que o medo de arriscar a própria vida.

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One Response to Marítimos refugiados: viagem com destino incerto

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