Drenando a xenofobia

Fonte: O Estado de S.Paulo

Enquanto racismo e ódio afiam as garras, a Europa aprende a se defender, avalia jornalista alemão

Antes de esticar até Paraty, onde passaria férias, o jornalista alemão Peter Frey inflou sua agenda em São Paulo com palestras sobre antissemitismo e xenofobia. Editor-chefe da ZDF, a segunda maior televisão alemã e uma das maiores da Europa, ele se propôs a falar sobre o crescimento do radicalismo no mundo, mas especialmente no Velho Continente. Atordoada com revoluções na vizinhança, a Europa tranca a porta e dá meia-volta na chave. Ao mesmo tempo, figuras como a francesa Marine Le Pen, candidata xenófoba e contrária a uma Europa comum, causam pânico tanto na direita quanto na esquerda do país. Para Frey, não é para tanto. A impopularidade de Sarkozy teria seu quinhão nessa história. E a Europa desenvolveu programas de aproximação cultural que secariam o substrato da xenofobia. “É um pântano que acaba sendo drenado.”

Marine, a Le Pen
“O fato de a filha do líder populista de extrema direita Jean-Marie Le Pen ser a preferida do eleitorado a um ano das eleições francesas reflete mais o descontentamento em relação ao governo de Sarkozy do que uma preferência pela xenofobia. Estou seguro de que, até as eleições, isso tende a mudar. Agora, com a revolução no mundo árabe, não é uma perspectiva desejável para nós que centenas de milhares de pessoas migrem da Líbia para a Europa. Por outro lado, faz parte da civilização europeia cuidar de refugiados e realizar sacrifícios em benefício dos perseguidos. Nós, alemães, devemos nos lembrar de que depois de 1933, com a tomada de poder por Hitler, milhares de germânicos conseguiram se refugiar em outros países. Não devemos nos esquecer nunca disso.

Irmandade?
“Falamos de um continente que foi sacudido por epidemias e pela 2ª Grande Guerra, a maior catástrofe que até hoje atingiu a humanidade. Depois disso, a Europa se transformou num continente em que o conflito interno nem sequer pode ser imaginado. Pense apenas na relação entre a França e a Alemanha. Por tradição, haveria xenofobia recíproca, mas isso foi superado. A União Europeia desenvolveu programas de desenvolvimento econômico e aproximação cultural para que países não membros, como Marrocos e Ucrânia, conseguissem se familiarizar com valores que norteiam a comunidade. Penso que esses programas prestam uma contribuição relevante para que o substrato que engendra o surgimento da xenofobia, de certa forma, seque. É um pântano que acaba sendo drenado.

Um boquirroto em Paris
“O episódio com o estilista John Galliano, em que ele dispara frases antissemitas contra um casal em Paris e diz amar Hitler, mostra que nada mais pode ser acobertado hoje, ainda mais se o personagem central for uma pessoa conhecida. Vídeos ou fotografias tiradas por particulares, em espaços particulares, podem parar na internet. Na Alemanha existe um jornal da imprensa marrom, cujo nome não gostaria de revelar, que só publica imagens vindas dos assim chamados repórteres leitores. São fotos tiradas de celulares que flagram pessoas famosas em situações privadas: no supermercado, durante as férias, no vestiário de uma loja de departamentos. O espaço particular dessas celebridades – e mesmo o dos anônimos – está claramente limitado. Isso é positivo porque não existe mais tolerância pública para preconceitos. Ao mesmo tempo, faz parte dos riscos da internet a criação de fóruns de pedófilos ou de pessoas que partilhem manifestações xenófobas, antissemitas, contra pessoas de uma determinada orientação sexual, contra minorias, enfim. E esses fóruns só com muita dificuldade podem ser controlados.

”A Onda”
“Eu classificaria skinheads e neonazistas como os perdedores da globalização. Podemos viajar para Nova York, podemos viajar para Paris, mas muitos se perguntam: onde está minha pátria? Para quem não goza de boa formação, para quem teve uma profissionalização deficiente, para quem não domina um idioma estrangeiro, esse mundo é uma ameaça. Além disso, acho que esses radicalismos têm muito a ver com uma imagem avariada do homem. Os homens – e falo do gênero masculino – têm cada vez mais dificuldade de se orientar em meio às mulheres, que lutam incansavelmente pela igualdade. Daí que uma pequena parcela desses jovens acabe extravasando na violência a sua condição de perdidos.

Dívida com as mulheres
“Sem dúvida a emancipação da mulher foi um dos fenômenos mais importantes do século passado, mais especificamente nas últimas quatro, cinco décadas. É importante lembrar que na Europa, até os anos 50, 60 adentro, as mulheres não podiam trabalhar sem a concordância do cônjuge. Os direitos eleitorais das mulheres não são conquistas de séculos. Mas hoje temos exemplos importantes de sucesso. O Brasil e a Alemanha, por exemplo, são governados por mulheres. Em ambos os países, porém, a representação delas no primeiro escalão do setor privado está longe de ser igualitária. Para se ter uma ideia, entre as 30 maiores empresas alemãs não existe nenhuma mulher na presidência. Nesse sentido, as sociedades ocidentais ficam seriamente a dever.”

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