Vítimas de violência sexual no Congo pedem ajuda à comunidade internacional

Fonte: ACNUR

Mulheres no campo de Mugunga III, construído para abrigar pessoas deslocadas à força na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo. (Foto: S. Schulman/ ACNUR)

Marie* foi estuprada pela primeira vez há três anos, durante um ataque a sua aldeia, que matou seu marido e seus 10 filhos– ela tinha cerca de 70 anos na época.

Em janeiro, a avó congolesa foi estuprada novamente por homens armados quando, em uma tentativa de encontrar uma adolescente que tinha desaparecido enquanto procurava lenha na floresta, ela saiu do abrigo de Mugunga III – um campo para cerca de dois mil dos deslocados mais vulneráveis no leste da República Democrática do Congo.

“Eu lhes disse que era uma mulher pobre e que eu não estava interessada em política. Eles então me perguntaram se eu preferia morrer ou ser estuprada. Eu respondi, “Viole-me, então”, contou Marie, visivelmente abalada ao se lembrar do segundo incidente.

“Eles eram seis. Quando um terminava, outro tomava seu lugar. Eles me bateram e quebraram meu joelho. Outras mulheres também estavam na floresta e, depois de terem sido estupradas, os homens enfiaram pedaços de madeira dentro delas e elas morreram”, disse ao ACNUR. “Tive sorte, eles não me mataram”.

Muitas outras mulheres da província congolesa de Kivu do Norte têm sofrido abusos e perdas familiares semelhantes, o que as leva a sentir que o mundo exterior tem feito muito pouco para ajudá-las ou para resolver o amplo problema da violência sexual e de gênero nesta região esquecida da África. No ano passado, cerca de 15 mil casos de violência sexual foram relatados na RDC, principalmente nas províncias orientais.

“Há muitos visitantes, muitas delegações, que vêm para ouvir os sobreviventes de violência sexual, no entanto, nunca vemos os resultados destas visitas”, disse Jeanne, outra mulher deslocada à força em Mugunga III.

Ela faz parte do grupo de 20 mulheres do campo que pediu aos funcionários do ACNUR, no final de fevereiro, para contar ao mundo suas histórias e pedir ajuda. “Estamos emocionadas ao ver que as pessoas pensam em nós”, disse outra vítima, Thérèse, “mas também precisamos de ajuda para superar nossos problemas e sustentar nossas famílias, apesar do nosso sofrimento emocional desde que fomos estupradas”.

As mulheres e meninas dos campos de Mugunga ficam particularmente vulneráveis ​​quando têm que sair para buscar lenha, principalmente no Parque Nacional de Virunga. Elas correm o risco de agressão sexual, mas a situação poderia ser bem pior para os homens que vivem no campo.

“Estamos com medo de ir à floresta, mas não temos escolha”, disse Sabine. “Tentamos mandar nossos maridos, mas se eles vão, são mortos, então preferimos ir nós mesmas. No melhor cenário, nós só apanhamos, mas geralmente somos estupradas”.

Marie não estava buscando lenha quando foi atacada, mas procurando uma menina de 15 anos que tinha sido enviada para buscar esse precioso recurso, que é usado para cozinhar ou para ser comercializado por uma pequena quantia.

A mulher de 74 anos de idade era rica antes de ser forçada a fugir de sua casa no distrito de Nyabondo, no Kivu do Norte, em 2008. “Eu tinha mais de 100 vacas e 40 porcos e cabras. Eu tinha uma casa na colina, uma casa de hóspedes com seis quartos e uma máquina de costura” contou. “Tudo foi roubado”.

Seu marido foi obrigado a assistir seu estupro antes de ser assassinado. Marie também levou um tiro nas pernas e ainda tem que usar muletas para se locomover. Em Mugunga III, ela vive em uma pequena cabana com seis netos e seis filhos de um vizinho que morreu, incluindo a menina que desapareceu em Virunga.

“Eu ouvi dizer que meninas eram mantidas como escrevas sexuais no Parque de Virunga”, disse Marie, explicando a razão pela qual foi procurar a garota. Ela disse que tem se sentido doente desde que foi violentada. “Dói quando me movo. Dói quando ando. Dói quando respiro… Preciso ir ao hospital, mas não posso arcar com os custos”.

Além dos problemas de saúde, as vítimas de violência sexual e de gênero também enfrentam o ostracismo de sua comunidade, a falta de simpatia, traumas mentais e problemas para sustentar suas famílias.

As mulheres do campo de Mugunga III, que se dirigiram ao ACNUR em busca de ajuda, também procuram apoio para projetos sócio-econômicos e de geração de renda para mulheres vítimas de violência sexual. Elas querem que seus maridos e filhos se sensibilizem em relação ao problema. “Eu converso com meu filho sobre a prisão dos estupradores. Digo que, se isso acontecer com ele um dia, eu nunca irei visitá-lo na prisão”, afirma Thérèse.

Enquanto isso, o ACNUR tem respondido com rapidez a uma importante demanda de Mugunga III, ao lançar um projeto que fornece fogões de baixo consumo a cerca de 500 mulheres, para que não tenham mais que buscar lenha na floresta. Elas também aprenderão a fazer tijolos de serragem e papel. O projeto beneficiará todas as famílias do campo.

* Nomes trocados por motivos de segurança

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