A parte brasileira da diáspora haitiana

Fonte: O Estado de S.Paulo

Por Fernando Gabeira

Haitianos de Cabo Haiti se abraçam na porta do ginásio onde se encontram (Foto: Fernando Gabeira)

Clandestinos, 250 haitianos buscam em Brasileia, no Acre, refúgio da pobreza do Haiti, agravada pelo terremoto e pela cólera

Cerca de 250 haitianos conseguiram entrar, clandestinamente, em Brasileia, pequena cidade do Acre, região onde o Brasil faz fronteira com a Bolívia e o Peru. Com esta proeza, incluíram o país no mapa mundial da diáspora haitiana, presente nos EUA, Canadá, República Dominicana e França. Diáspora é uma palavra grega que significa dispersão em massa, forçada por condições políticas econômicas ou mesmo climáticas. Cerca de 2,5 milhões entre os 9 milhões de haitianos vivem fora do país, enviando de volta cerca de US$ 1,9 bilhão por ano, um terço do orçamento nacional.

Longo Caminho. “Não foi fácil chegar até aqui”, diz o professor de inglês Lucien Geln, de Gonaives, uma das cinco maiores cidades do Haiti. Lucien e seu irmão Benjamin tiveram, inicialmente, de economizar US$ 1.500 para a travessia até o Brasil, conhecido por todos eles como o país do futebol.

“Trabalhando como professor no Haiti, não conseguia sobreviver e ter excedentes para viagem. Foi preciso uma ação entre todos os membros da família para recolher o dinheiro necessário.” A mesma dificuldade de economizar tiveram os alfaiates Jean Pierre Vivandieu e Anel Casumat.

Trabalhavam na República Dominicana, que está na mesma ilha do Haiti e já recebeu um milhão de imigrantes do país vizinho. “Como alfaiates, não tínhamos condições sozinhos de financiar a viagem. Foi necessária a união de toda a família”, diz.

Todos viajam com passaporte e começaram sua jornada na República Dominicana, de onde saíram para o Panamá e, após conexão, voaram para Quito, no Equador.

Da capital equatoriana em diante, começou a longa jornada de ônibus que os levou a Cuzco no Peru.

De Cuzco a Puerto Maldonado, também no Peru, tiveram vários encontros com a polícia peruana e isso levou parte de suas economias. Foi preciso unir pequenos grupos, em Inapari, na fronteira com o Brasil, para alugar táxis, entrar na Bolívia e alcançar Brasileia. Cada táxi custou 100 sóis peruanos, equivalente a US$ 38.

“Como entraram através da Bolívia, não sabemos”, conta o padre Crispim, de Brasileia, que organizou a assistência alimentar aos refugiados. “É possível entrar de muitas maneiras, pois estamos numa área onde se registra a presença do tráfico de drogas.”

Uma novidade no Brasil. A chegada dos haitianos foi uma novidade em Brasileia, que tem cerca de 20 mil habitantes e algumas pousadas destinadas a receber turistas que vão às compras na Bolívia. Cobija, a cidade peruana que está do outro lado da ponte, funciona como algumas cidades paraguaias vendendo eletrônicos sem impostos.

Inicialmente, o caso ficou apenas com a Polícia Federal, que manteve os haitianos sob vigilância. O padre Crispim e seus paroquianos resolveram ajudá-los oferecendo a cozinha da paróquia. Foi um gesto que durou pouco pois, depois de uma semana, sobraram apenas alguns quilos de feijão. O governo do Acre resolveu assumir a alimentação dos haitianos ao mesmo tempo que a Polícia Federal apressou a documentação para que pudessem seguir viagem pelo país. Brasileia não tem empregos. Alguns já trabalham na construção em Rio Branco e dois técnicos em ar condicionado foram convidados para Rondônia.

A paróquia de Brasileia recebeu vários convites para colocação dos haitianos. Parte deverá seguir para Rondônia, onde serão construídas as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. Parte deve se mudar para o interior de São Paulo.

Cerca de 80% dos haitianos que deixam seu país são profissionais liberais. Antes do terremoto, o Banco Mundial já chamava a atenção para essa fuga de cérebros e a própria Federação da Diáspora iniciou uma campanha para a volta ao Haiti.

No caso brasileiro, a julgar pela centena de haitianos com quem falei, a maioria é pedreiro ou pintor de paredes. Assim mesmo, nunca se sabe se disseram “auxiliar de pedreiro” como uma forma de anunciar que não tinham profissão.

Depois da epidemia de cólera no Haiti, a vinda de um grande grupo para o Brasil preocupou o governo, pois é uma doença que tem tempo de incubação. Entretanto, em todos os exames médicos realizados em Brasileia não se registrou nenhum problema.

Um ponto do mapa mundial. A chegada dos haitianos ao Acre representa um novo e pequeno ponto na diáspora haitiana. Os problemas que sua presença suscita nos Estados Unidos e Canadá ainda não foram registrados no Brasil. Alguns garotos de bicicleta aproximam-se para vê-los e se interrogam sobre a língua deles, o creole, mistura de francês, palavras africanas e espanholas. Francisco Gerônimo dono do bar ao lado do Ginásio Eduardo Pessoa, onde estão abrigados, é um fanático por futebol e observa que os haitianos também gostam do esporte. As sábados, quando há jogos no estádio ao lado, eles vão todos para a cerca e acompanham com emoção.

Eles tinham admiração pelo futebol brasileiro e conheciam a seleção nacional. Estão tendo alguma dificuldade em encontrar a magia dos craques nos amadores com excesso de peso que se exercitam em Brasileia. Francisco Gerônimo mostrou com orgulho um diploma ao mérito que recebeu dos 700 refugiados políticos que entraram em Brasileia, em 2008: “Os bolivianos fizeram até uma placa para agradecer a ajuda que demos em Brasileia. Mas os bolivianos tinham dinheiro e estavam muito perto de seus parentes que ajudavam de lá. Os haitianos não têm dinheiro para nada. O bar parou de dar lucro”.

Nos EUA, onde vivem um milhão de haitianos, e no Canadá, onde vivem 100 mil, o debate é diferente. Grupos de esquerda e do movimento negro acusam governos dos países mais ricos de ter uma reação preconceituosa contra os haitianos.

Por outro lado, os imigrantes já ocupam espaço na sociedade, desde lugar no governo Barack Obama até nas sociedades comerciais. No Canadá, há um movimento para que o vodu, religião muito presente no Haiti, possa expressar seus rituais publicamente.

A questão econômica. A intervenção mais discutida sobre os haitianos, nos círculos políticos, veio de um conservador que trabalhou com Ronald Reagan e George W. Bush: Elliot Abrams. Sua tese é a de que a diáspora é uma forma mais eficaz de ajudar o Haiti e os países deveriam se abrir para receber refugiados de lá.

Ele argumenta que um terço do orçamento haitiano é financiado pelos imigrantes. Mas os US$ 1,9 bilhão que enviam, ainda está abaixo do que mandam para seus países dominicanos e hondurenhos, que enviam, respectivamente, US$ 3 bilhões e US$ 2,7 bilhões.

O argumento de Elliot, bombardeado pelos conservadores e apoiado pela esquerda, principalmente a revista Mother Jones, é simples: a ajuda internacional ao Haiti é de US$ 900 milhões, metade do que enviam os próprios haitianos. Nesse ritmo, argumenta, a reconstrução seria mais rápida com o aumento da diáspora. Por via das dúvidas, os EUA colocaram Bill Clinton como representante da ONU para a reconstrução do Haiti.

Sua missão é acionar os organismos internacionais e também levar a indústria para o país. Os Estados Unidos têm a soberania sobre a costa haitiana, para garantir também a repressão ao movimento de boat people.

Depois da surpresa da entrada dos haitianos, o Brasil decidiu reforçar a fronteira com o Peru e, desde o primeiro movimento, vários imigrantes foram rechaçados.

O movimento de saída do Haiti continua. O cálculo dos clandestinos nos EUA é de 200 mil, a julgar pela Federação da Diáspora. Foi criado pelo governo um sistema de proteção temporária, TPS, que dá um prazo para se legalizarem e determina o fechamento da concessão para os próximos.

O Brasil ofereceu algo parecido: carteira de trabalho e CPF para os que vieram e vigilância para evitar grandes movimentos não planejados.

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