México: os mortos de ninguém

Fonte: Prensa Latina

San Fernando de Tamaulipas é hoje zona de morte porque em sua rota, drogas, armas e pessoas são traficadas como mercadorias, em um lucrativo negócio que se estende por todo México como erva daninha.

Bem perto daí, no terminal de ônibus da cidade de Matamoros, justo ao lado da linha divisória com os Estados Unidos, há 400 malas abandonadas que esperam ser reclamadas pelos viajantes.

Enquanto isso, ao menos 350 pessoas ofereceram seu DNA em busca de familiares desaparecidos quando transitavam a bordo das rotas regulares de transporte público dessa região fronteiriça, com rumo ao vizinho país do norte, segundo relatórios do jornal mexicano La Vanguardia.

Algumas destas denúncias são antigas, assegura o rotativo, pois datam de fevereiro, abril e outubro de 2010, ainda que existam outras que remontam a março de 2009, sem reportes de terem sido atendidas nem nos lugares de origem, nem em Tamaulipas, em cujas estradas ocorreu o desaparecimento.

Segundo declarações de José Antonio Ortega, presidente do Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal, o desempenho dos governos estatal e municipal apresenta graves defeitos, pois têm “o denominador comum de se eximirem de suas obrigações alegando que enfrentar à delinqüência organizada é uma faculdade federal”.

O massacre de 72 emigrantes centro e sul-americanos ocorrida em San Fernando, em agosto, estremeceu o mundo; mas os 177 cadáveres, muitos maniatados e com registros de violência física, encontrados até 24 de abril em 28 tumbas clandestinas, supera qualquer história de terror.

San Fernando é o município mais extenso desse estado, localizado no centro-norte de Tamaulipas, no litoral do Golfo de México, a uns 120 quilômetros dos passos fronteiriços de Reynosa e Matamoros, os quais se ligam com os Estados Unidos sobre o Rio Bravo.

Por seu território transitam emigrantes e pessoas que viajam ao território vizinho para comprar carros usados e depois regressar ao México, utilizando os ônibus regulares que enlaçam às mencionadas cidades com a capital estatal, Cidade Victoria, entre outras.

Muitos destes negociantes transitam com bolos de notas para pagar aos delinqüentes que os conduzirão ilegalmente para os Estados Unidos através do passo binacional, ou para adquirir os veículos; fluxo de passageiros que aumenta no fim de semana, comenta o periódico Milênio em uma de suas análises.

De acordo com depoimentos de vários motoristas que circulam pela zona, camionetas sem placas e com vidros escuros costumam instalar nos pontos de reservas localizados nas estradas, onde detêm os ônibus e obrigam a baixar passageiros eleitos a esmo, aos quais depois assassinam.

Esta situação tem provocado que Tamaulipas seja na atualidade um dos estados mais perigosos do México, devido à intensidade da violência do crime organizado, que condiciona severamente a vida de seus habitantes, presos no fogo de dois grupos rivais: Os Zetas e o Cartel do Golfo.

Crime “demasiado” organizado
Alguns analistas já começam a questionar a possibilidade de que Tamaulipas termine convertendo em um estado falido, como disse à BBC Mundo, Alberto Islas, especialista mexicano em temas de segurança: “nem o governo estatal, nem o federal, têm o controle territorial, nem o da segurança”.

“O fenômeno de tratamento de pessoas converteu-se tão lucrativo como o do tráfico de drogas ou armas”, opina Emilio Álvarez Icaza, consultor de direitos humanos e acadêmico, citado pelo Diário de Yucatán.

Mas não poucos se perguntam o que sucede com o rastreamento do dinheiro, cuja lavagem ocorre no sistema bancário controlado por Estados Unidos, país que assegura o efetivo de seguir essa rota para encontrar aos delinqüentes.

Recentemente a imprensa norte-americana anunciou que o “prestigioso” banco Wachovia legalizou bilhões de dólares dos cartéis mexicanos, pelo que foi multado com 160 milhões de dólares, pouco mais de dois por cento dos ganhos obtidos por esse conceito.

Em uma coluna de opinião, o site “Diario.com.mx” assevera que é aí onde os governos do México e Estados Unidos poderiam, se realmente quisessem, fazer uma guerra com pouco sangue e muita efetividade, contra os traficantes de drogas, armas e pessoas.

“Nossa frente de guerra preferível deveria ser que se meta na prisão aos responsáveis pelos negócios que limpam dinheiro. Trata-se de uma frente com pouco cheiro de pólvora, mas talvez mais efetiva”, sentenciou o articulista.

E mais adiante propõe que “uma política mexicana digna seria anunciar desde as mais altas esferas”, que se detenham as operações ofensivas, até que os Estados Unidos tenham castigado aos responsáveis pela lavagem de dinheiro e aos administradores de armas às bandas criminosas mexicanas.

Cumplicidade das autoridades
A Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu como alarmante o número de emigrantes que são vítimas no México de seqüestro, extorsão, tortura, desaparecimento e homicídio pelo crime organizado, ao mesmo tempo em que expressou preocupação pelos relatórios que envolvem as autoridades nestes fatos.

Assim o reconhece o relatório final elaborado pelo painel de 14 especialistas independentes do Comitê de Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Imigrantes e de seus Familiares, quem pediram ao México que redobre seus esforços para realizar as investigações e sanções adequadas.

Ditaram detenção preventiva para 16 policiais em San Fernando por supostamente apoiarem aos executores dos massacres, como confirmam as investigações que seguem no sentido de demonstrar que a impunidade da delinqüência passa pela tolerância oficial, e inclusive conta com sua cumplicidade paga, opinam analistas.

Uma forte denúncia dos métodos de tortura, assassinato e recrutamento dos cartéis mexicanos, e a acusação de complô das autoridades com o crime organizado, são o tema central do documentário “Sicario room 164”, realizado em 2010 pelo jornalista estadunidense Charles Bowden e o cineasta italiano Gianfranco Rossi.

“Não há fronteiras para o narcotraficante: nem no México, nem nos Estados Unidos, nem na Colômbia, nem na Costa Rica, nem em El Salvador. O narco pode comprar tudo, paga policiais, paga aduanas, paga a emigração. Que tão difícil é, se movem e movem toneladas de drogas, mover uma pessoa?”

Esta é uma das confissões que o sicário narra encapuzado diante da câmera na habitação número 164 de um motel cujo nome não foi revelado, localizado em um lugar próximo à fronteira dos Estados Unidos com o México, palco de fatos criminosos nos quais o testemunhante participou.

Quanto há para valer nas confissões de um “arrependido” cujas mãos estão ensangrentadas?

Essa pergunta é difícil, mas a resposta talvez jaz em algumas dessas fossas comuns, onde permanecem os mortos de ninguém até um dia serem encontrados, ou talvez jamais as ossaturas vejam a luz do dia e os crimes fiquem impunes, com seus segredos, na escuridão de alguma tumba.

(*) A autora é corresponsável da Prensa Latina no México.

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