Artigo em jornal britânico está na origem da fundação da Anistia Internacional

Fonte: DW-World

Anistia Internacional: 50 anos de luta contra arbitrariedades

Lutar pela libertação de presos políticos: a partir dessa ideia foi criada em 1961 a Anistia Internacional, hoje a maior organização de defesa dos direitos humanos no mundo.

“Abra o seu jornal em qualquer dia da semana e você vai encontrar uma reportagem de algum lugar no mundo de alguém sendo preso, torturado ou executado porque suas opiniões ou religião são inaceitáveis ​​para seu governo.” Com essas linhas e o apelo aos leitores para escreverem cartas ao governo, cobrando a libertação de prisioneiros políticos, começa o artigo The Forgotten Prisoners (os prisioneiros esquecidos] na edição do jornal britânico The Observer de 28 de maio de 1961. O texto, publicado pelo advogado londrino Peter Benenson, dá início à história de fundação da Anistia Internacional.

O apelo de Benenson no Observer foi reproduzido em jornais de 30 países, e em poucas semanas mais de mil ativistas interessados responderam a ele. Num primeiro encontro internacional, em meados de julho de 1961 em Luxemburgo, representantes da Bélgica, do Reino Unido, da França, da Alemanha, da Irlanda, da Suíça e dos Estados Unidos fundavam a Anistia Internacional, como um “movimento internacional permanente em defesa da liberdade de expressão e de religião”.

Início na fase quente da Guerra Fria

A fundação de uma representação da Anistia Internacional na então Alemanha Ocidental ocorreu quase simultaneamente, durante o Congresso pela Liberdade da Cultura, na cidade de Colônia, do qual participaram numerosos escritores e jornalistas. Os principais fundadores foram a jornalista Carola Stern, morta em 2006, o escritor Wolfgang Leonhard, e o correspondente internacional do canal de televisão estatal ARD, Gerd Ruge. “Era o auge da Guerra Fria, os conflitos e desconfianças entre Oriente e Ocidente se intensificavam cada vez mais”, recorda Ruge. “Mas ao mesmo tempo havia muitas pessoas que queriam ajudar os presos políticos e as pessoas em perigo, sem se deixar instrumentalizar por um ou outro lado.”

Para essas pessoas, a ideia surgida em Londres vinha na hora certa: cada grupo local da Anistia deveria acompanhar três presos políticos: um do bloco comunista, outro do bloco capitalista e um do chamado Terceiro Mundo.

Gerd Ruge, co-fundador da seção alemã

Desconfiança por todos os lados

O apartidarismo e o exclusivo comprometimento com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, fizeram com que a entidade e seus ativistas fossem frequentemente vistos com desconfiança por todos os lados. No Ocidente eram vistos por muitos políticos e meios de comunicação como a quinta coluna comunista; no Leste, como um fantoche do imperialismo. Mas, ao final, a organização teve sucesso. Dos quatro mil presos do mundo inteiro acompanhados pela Anistia Internacional nos seus dez primeiros anos, dois mil foram libertados. Em 1977, a organização recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Hoje, a Anistia Internacional é muito mais que “apenas” uma organização de ajuda a prisioneiros. Com sua persistente campanha contra a pena de morte, lançada em 1977, organização tem contribuído para que cada vez mais países eliminassem essa forma “legal” de assassinato estatal e que o número de execuções caísse em todo o mundo.

Em 1985, a Anistia Internacional ampliou a própria área de atuação para o auxílio de refugiados e exilados. E com a sua campanha contra a impunidade, iniciada em 1993, contribuiu, ao lado de muitas outras organizações não governamentais, para a criação do Tribunal Penal Internacional, em 1998, possibilitando o julgamento e punição de crimes contra a humanidade, genocídios e crimes de guerra cometidos em qualquer parte do globo.

O mais recente sucesso dessa persistência: em fevereiro deste ano, o ex-presidente dos EUA George W. Bush teve que cancelar uma viagem a Genebra planejada havia meses, porque aparentemente temia ser preso ou pelo menos que houvesse um acontecimento midiático. É que a Anistia Internacional havia registrado uma queixa contra o político americano junto às autoridades suíças, denunciando crimes de tortura em Guantánamo e em outras prisões dos EUA.

Desde 2003, a Anistia Internacional luta não só por direitos humanos políticos, mas também econômicos, sociais e culturais. Uma campanha atual aborda a marginalização de pessoas por causa da pobreza, bem como o direito à moradia adequada.

Peter Benenson, fundador da entidade

Representações em 61 países

Com mais de 3 milhões de membros e colaboradores regulares em mais de 150 países, a Anistia Internacional é hoje a maior das cerca de 300 organizações de defesa dos direitos humanos existentes no mundo, com seções em 61 países, a maioria delas na Europa e nas Américas.

O trabalho dessa entidade que completa meio século continua sendo tão importante hoje quanto na época em que foi fundada. Prova disso são os ataques, muitas vezes virulentos, que a Anistia Internacional sofreu nos últimos cinco anos de governos em Tel Aviv, Teerã, Riad, Kinshasa, Pequim, Hanói, Moscou e Washington, entre outros. Pouca coisa mudou no tratamento que certos Estados dedicam a seus cidadãos, de forma que hoje o mesmo texto de Peter Benenson poderia ser novamente impresso sem muitas mudanças.

Autor: Andreas Zumach (md)
Revisão: Alexandre Schossler

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