Ilegal na Holanda: a história de Azad

Fonte: Rádio Nederland Wereldomroep Brasil

Por Myrtille van Bommel  

Foto: RNW

Eles são chamados de ilegais por não possuírem documentos válidos para permanecer em um país. O gabinete holandês quer converter a ilegalidade em delito. Mas quem são as pessoas que vivem dessa maneira? Na terceira parte da série sobre imigrantes ilegais na Holanda: Azad, do norte do Iraque.

Azad, que nos anos noventa trabalhava para o Partido Democrático Curdo, PDK, abandonou seu pais por temer vingança. Ele era responsável por facilitar a passagem dos comerciantes curdos na fronteira entre o Iraque do sul e do norte, para que não precisassem pagar ou passar por controles severos.

Ali encontrou um homem que lhe pediu ajuda para entrar com armas ilegais. Por ter desconfiado dele, Azad reportou aos seus superiores, que ordenaram que ele cooperasse. Com isso esperavam descobrir se as armas estavam destinadas a atividades terroristas.

Traição
Com a ajuda de Azad, as armas puderam cruzar a fronteira sem problemas. Mas algo deu errado. O serviço de inteligência prendeu os homens envolvidos na operação e descobriu que se tratava de um provedor de armas para uma facção dentro do PDK que tinha a intenção de cometer atentados. As famílias dos homens presos buscam vingança. Ao que parece, Azad era a única pessoa não envolvida, mas que sabia da transação. Sua vida já não estava mais segura.

“Tentei me esconder durante um tempo, mas isso se tornou impossível. Muitas pessoas do meu partido foram assassinadas. E eles eram dirigentes que andavam com guarda-costas. E eu era apenas um membro sem muita importância”, conta Azad. Ele conseguiu fugir para a Turquia. Com a ajuda de um traficante de pessoas, chegou a Roterdã escondido na carga de um caminhão, em julho de 1997.

Ajuda a refugiados
“Ali eu perguntei a todos que pareciam ser estrangeiros onde eu poderia obter ajuda. Não sabia que vivam tantos estrangeiros na Holanda”. Finalmente um marroquino o enviou para um escritório para refugiados.

Fora o curto período que permaneceu com um visto temporário de permanência e pôde viver em uma casa “de verdade”, Azad passou treze anos em diversos centros para requerentes de asilo. “Com o status de permanência temporária, tive a oportunidade de trabalhar e estudar.” Mas a sorte durou pouco. “Em um dado momento, todos os iraquianos do norte tiveram que devolver esse status. Somente se pensou na situação geral de segurança e não nos indivíduos.”

“Foi então tudo começou”, disse Azad, referindo-se ao serviço de imigração, IND, que passou a exercer pressão para que ele voltasse ao norte do Iraque. “Pedi asilo por muitas vezes, mas sempre me negaram.” Temendo o rumor de que a Holanda iria construir uma grande prisão para casos como o dele, Azad viajou para a Alemanha, que o enviou de volta para a Holanda, já que em virtude dos acordos entre os países membros da União Europeia, só se pode pedir asilo em um país.

Erro fatal
Depois Azad compreendeu que havia cometido um engano fatal, já que, se não tivesse tentado obter asilo na Alemanha possivelmente teria estado entre os candidatos para uma anistia.

Aqueles que houvessem pedido o asilo antes de 1 de abril de 2001 teriam direito a um visto de permanecência na Holanda. Mas Azad havia sido expulso. Sem a fundação que lhe ajuda, ele estaria vagando pelas ruas.

O norte do Iraque lhe dá medo. Os curdos que regressaram contam que é quase impossível construir uma vida se não tiver boas conexões ou sem subornar autoridades. Alguns de seus amigos chegaram cometeram suicídio por causa disso.

Depressão
Azad não pode contar com sua família. Eles temem que caso tenham de alimentar mais uma boca, preferem não assumir essa responsabilidade. Seu antigo empregador também não pode lhe servir de nada.

Azad, de 41 anos, sofre de depressão e de esquecimento. “Não peço muito, só um trabalho ou uma formação para que eu possa ter um futuro. Mas, com a minha idade, já é tarde para muitas coisas”.

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