Sudão do Sul comemora sua declaração de independência

Fonte: AFP

Multidão comemora a independência do Sudão do Sul em Juba (Foto: Roberto Schmidt/ AFP)

O Sudão do Sul se proclamou neste sábado independente oficialmente, separando-se do norte depois de cinco décadas de conflitos que mergulharam o novo país numa miséria da qual espera sair graças a suas ricas reservas de petróleo.

O chefe do Parlamento, James Wanni Igga, anunciou a “declaração de independência do Sudão do Sul” diante de milhares e habitantes eufóricos e pouco depois hasteou a bandeira do novo Estado, o 54º de África.

Em seguida, Salva Kiir prestou juramento neste sábado como primeiro presidente do Sudão do Sul. Kiir assinou a Constituição transitória e comprometeu-se a “favorecer o desenvolvimento e o bem-estar do povo do Sudão do Sul”.

Uma multidão em delírio celebrou à meia-noite de sexta-feira para sábado, em Juba, a proclamação da independência.

Ao soar os sinos de meia-noite, uma explosão de alegria comemorou a chegada do primeiro dia de vida do novo Estado. “Somos livres! Somos livres! Adeus ao norte, bem-vinda a felicidade!”, clamava em meio à multidão Mary Okach.

“Lutamos muitos anos e este é nosso dia, vocês não podem imaginar como me sinto”, declarou por sua vez o estudante universitário Andrew Nuer, 27 anos, que viajou do Cairo especialmente para assistir aos festejos da independência.

O ruído era ensurdecedor na capital do novo Estado, cujo céu iluminou-se com fogos de artifício enquanto carros e ônibus repletos de pessoas que percorriam as ruas com bandeiras do Sudão do Sul em suas portas e janelas, enquanto os motoristas buzinavam.

Horas antes da meia-noite, diversos líderes mundiais, entre eles 30 líderes africanos e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegaram a Juba para as comemorações da independência do novo Estado.

“O povo do Sudão do Sul realizou seu sonho. A ONU e a comunidade internacional continuará do lado do Sudão do Sul”, declarou Ban Ki-moon ao chegar ao aeroporto da capital.

O Sudão reconheceu nesta sexta-feira a futura República do Sudão do Sul, apesar de questões-chave ainda precisarem ser resolvidas entre ambos os países, como o estatuto das províncias fronteiriças em disputa.

O presidente americano, Barack Obama, também anunciou que os Estados Unidos reconhecem formalmente a República do Sudão do Sul.

“Num momento em que sudaneses do sul empreendem a dura tarefa de construir seu novo país, os Estados Unidos prometem acompanhá-los enquanto buscarem segurança, desenvolvimento e um governo responsável, que realize suas aspirações e respeite os direitos humanos”, acrescentou.

O primeiro-ministro britânico David Cameron também anunciou o reconhecimento oficial do Reino Unido.

“Nós acolhemos o Sudão do Sul na comunidade de nações e estamos ansiosos para estabelecer laços mais estreitos entre o Reino Unido o Sudão do Sul nos próximos meses e anos vindouros”, afirmou Cameron em um texto oficial.

Da mesma forma, o presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou o reconhecimento de seu país. “A França reconhece e dá as boas-vindas ao Sudão do Sul na comunidade dos Estados”, afirmou a presidência francesa em comunicado.

Além de Ban Ki-moon e vários chefes de Estado africanos, a cerimônia contou com a embaixadora americana ante a ONU, Susan Rice, e Colin Powell, ex-secretário de Estado americano, que teve um papel determinante nas negociações de criação da nova nação.

O presidente sudanês, Omar al Bashir, também compareceu como convidado de honra. Ele é alvo de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional por genocídio e crimes contra a humanidade em Darfur, região do oeste do Sudão, onde continua sendo travada uma guerra civil.

Na cerimônia também participaram habitantes de Darfur.

“Estamos aqui para felicitar nossos irmãos do Sul por sua independência e dizer a Bashir ‘eis o que acontece quando se oprime um povo'”, declarou Mohamed Jamus, de Darfur.

Entre 1955, um ano antes da independência da Sudão (até então uma colônia anglo-egípcia), e 2005 os rebeldes sulistas entraram em duas guerras contra Cartum reclamando maior autonomia.

Os conflitos arrasaram a região, deixaram milhões de mortes e provocaram uma desconfiança recíproca entre os dois lados do país.

O acordo de paz firmado em 2005 pelo líder dos rebeldes John Garang -alguns meses antes de sua morte num acidente de helicóptero – e o presidente do Sudão Ali Osman Taha abriu um novo capítulo que possibilitou o referendo sobre a independência, realizado em janeiro deste ano.

Os sulistas optaram quase por unanimidade pela organização de uma eleição sem maiores incidentes e cujos resultados Cartum prometeu respeitar.

A nova nação deve enfrentar grandes desafios, como os confrontos na fronteira que já provocaram 1.800 mortes este ano, um dos indicadores sociais menos desenvolvidos do mundo, negociações sobre a separação de bens e a reestruturação de setores com o Norte.

Segundo fontes próximas das autoridades que participam das negociações, um acordo sobre a reestruturação do setor petrolífero parece pouco provável devido a divergências sobre o estatuto final do disputado território de Abyei.

A tensão aumentou no dia 21 de maio, depois da ocupação pelos nortistas desta região fronteiriça, obrigando a fuga de 117 mil sulistas.

Foi fechado um acordo no dia 20 de junho para desmilitarizar Abyei e para destacar 4.200 soldados etíopes, mas o futuro do território continua incerto.

Algumas semanas após a ocupação de Abyei, Kordofan do Sul, outro território fronteiriço afetado pelas disputas étnicas, foi palco de violentos confrontos entre as forças do nortistas e o braço do norte do SPLM (Movimento Popular de Liberação do Sudão, ex-rebeldes sulistas) que deixaram centenas de mortos.

Na sexta-feira, o presidente nortista Omar al Bashir ordenou que exército continuasse suas operações até que este território, a única região petrolífera do norte, estivesse “limpo dos rebeldes”.

No entanto, muitos sudaneses afirmam que não há o que comemorar, principalmente os islamitas radicais de Cartum e alguns sulistas moradores do norte, que lamentam que a visão de John Garang de um Sudão federal e democrático não tenha se tornado realidade.

Por fim, na véspera da declaração da independência da nova nação, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu por unanimidade enviar ao Sudão do Sul uma missão de 7.000 soldados, 900 civis e especialistas para contribuir com a construção do país e com a segurança.

A nova missão foi denominada Minus que substitui a Minus, missão anterior da ONU para todo o Sudão, mas que concentrava suas forças principalmente no sul do país.

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