Repórter relata experiência com refugiados sírios na Turquia

Fonte: Terra Brasil

Por Tariq Saleh, Direto de Antakia, Turquia

Saleh foi até a fronteira da Turquia com a Síria para conversar com as pessoas que fugiram do regime de Assad (Foto: Arquivo Pessoal/ Divulgação)

O jornalista brasileiro Tariq Saleh passou cinco dias na fronteira no sul da Turquia com a Síria, onde entrevistou ativistas e refugiados sírios que fugiram da violência em seu país, tomado por um levante popular pró-democracia desde março. Nesse relato pessoal, ele fala das histórias das pessoas, sírios e turcos, cujas vidas se alteraram com os acontecimentos na Síria.

Foram apenas cinco dias, mas foram cinco dias de uma forte experiência humana. Deixemos as questões políticas de lado, a diplomacia, as teorias geopolíticas. No final, o que conta é o incrível poder do espírito humano, da força e vontade de sobreviver em meio ao caos, violência e adversidades. Eu meus textos jornalísticos, eu os chamei de refugiados, assim como a imprensa e mídia internacional. Mas eles, em vários momentos, se recusavam a serem chamados assim. “Somos sírios, temos um país, temos nossas casas mas, infelizmente, a Síria é refém de um ditador e sua turma”, disse uma mulher, sentada em frente a uma casa com seus quatro filhos em vilarejo turco perto da fronteira.

São tantas as histórias de prisões, torturas, intimidações, repressão e morte que é difícil relatar tudo. E é difícil para os repórteres estrangeiros verificar cada história e entrevistar pessoas que estejam alinhadas com o governo do presidente sírio bashar al-Assad. A Síria não permite a entreda de jornalistas internacionais no país. Mas, ao contrário do que os teóricos da conspiração tentam acreditar, esse é um levante popular sírio, não uma operação estrangeira.

Certas coisas são óbvias, e comum a todos os regimes ditatoriais. As ferramentas de repressão, as prisões arbitrárias, as mortes sem explicação. Nenhum governo estrangeiro, por mais poderoso que seja, conseguiria mobilizar centenas de milhares de pessoas a saírem às ruas pedindo por democracia, reformas, seguindo uma onda de protestos que tomou conta do Oriente Médio. Mas defensores do governo sírio tentam acreditar que há, sim, uma conspiração.

Sem dinheiro
Basta olhar para os ativistas na fronteira turca e logo isso se dissipa. Esses ativistas, como Mohamed Fizo ou Jamil Saeb, que foram personagens de uma das reportagens publicadas no Terra, lutam para sobreviver, com pouco dinheiro, em um país estranegeiro. Fizo, por exemplo, quando deixei a Turquia, rumaria no dia seguinte para a capital turca, Ankara, onde tentaria regularizar sua situação legal. Sem dinheiro, as passagens de ônibus para ele e sua esposa e dois filhos pequenos foram doada por um pequeno grupo de jornalistas estrangeiros. A situação de Saeb não era diferente, ele e seu irmão usavam apenas as roupas do corpo quando deixaram a Síria, fugindo da polícia secreta.

Outro ativista, Nazir, ironizou o governo sírio com as acusações de dinheiro dos Estados Unidos e Europa. “Eu tento arrumar comida e água para meus amigos nos campos de refugiados. Eu mesmo preciso de ajuda e doações de conhecidos para sobreviver. Não acho que sou empregado da CIA (agência de inteligência americana)”.

Mas há outros, muitos outros, com histórias variadas. Havia um sírio, cujo nome era Hisham, que um dia resolveu atravessar a fronteira clandestina e ir até sua vila, apenas para ver se conseguia pegar alguns pertences. Ele disse que testemunhou as tropas sírias queimando as lavouras e algumas casas. Esse é Um homem cuja profissão é a de agricultor, nitidamente um homem simples e sem aspirações políticas. O mais interessante foi sua conclusão. “Fosse um Exército estrangeiro invadindo nosso país, eu não teria ficado surpreso. Mas aquele era nosso próprio Exército, o que deveria nos proteger e que agia como bárbaros, selvagens”. Um amigo dele ao lado completa. “Toda essa mostra de força militar. Por que não usam para liberar as Colinas de Golã?”, se referindo ao território sírio ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Desinformação
O mais surpreendente nessa onda de protestos no mundo árabe é a falta de conhecimento dos ocidentais, incluindo o público brasileiro, do caráter complexo dos regimes e do povo que tenta derrubar esses governos. Há todo o tipo de desinformação. Uns dizem que o governo, como o da Síria, é feito de muçulmanos que orpimem e matam seu povo. Outros acham que os movimentos são formados por fanáticos religiosos e o secularismo está ameaçada. Ë muito mais complexo que isso.

O governo da Síria, para pegarmos o caso mais recente, é formado também por cristãos e drusos. Portanto, são tão culpados quanto os muçulmanos. E mais, o governo sírio é considerado secular e não religioso.

Por outro lado, os movimentos populares no país também são compostos por uma diversidade de pessoas e credos religiosos. Muitos são muçulmanos, mas havia cristãos, drusos e inclusive alawitas, o mesmo grupo sectário do presidente Bashar al-Assad. Mas os ativistas com quem conversei jamais falaram de religião, mas de liberdade e democracia, de derrubar uma ditadura que já dura mais de 40 anos.

Realidade
Cada sírio que encontrei lamentava a falta de atenção dos governos ocidentais em relação aos acontecimentos da Síria. O ressentimento se dava porque nos levantes populares na Tunísia, Egito e Líbia, o Ocidente acabou apoiando os protestos. “Mas nós fomos ignorados, quatro meses depois, nada foi feito de concreto para pressionar o regime”, desabafou Nazir.

Os refugiados enfrentam também outra realidade difícil, a indiferença ou, em alguns casos, a antipatia da população local. A região de Hatay, a província turca no sul, e cuja maior cidade é Antakia, possui uma população com origem árabe. Parte das pessoas falam árabe, inclusive e alguns possuem parentes do lado sírio.

Mas Antakia, uma cidade turística, sofreu um forte impacto com os distúrbios no país vizinho. O turismo caiu, os hotéis estão com pouca ocupação e o comércio local sofre com as poucas vendas. Muitos turistas da região do Golfo Pérsico costumavam atravessar a Síria de carro apra chegar à cidade e arredores. Além disso, a segunda maior cidade da Síria, Aleppo, não longe da fronteira, compartilha laços comerciais fortes com Antakia, agora parados.

Esses elementos contribuiram para deixar a população local com um sentimento de antipatia em relação aos refugiados sírios. Outros até declararam apoiar o governo de al-Assad, e disseram, como sempre, que os protestos eram uma conspiração estrangeira. Alguns poucos se solidarizaram com os manifestantes.

Mas além do espírito humano de lutar por seus direitos, a imagem que mais me marcou nesses cinco dias naquela região foi no último dia, quando eu e colegas demos uma carona a Mohamed Fizo e sua família até a estação rodoviária de Antakia. Seu filho Mustafa, de apenas 4 anos, se divertia dentro do carro quando de repente ele pergunta. “Pai, estamos indo para casa? Sinto falta de casa”. Eu olhei para a expressão no rosto de Fizo. E percebi lágrimas em seus olhos.

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