EUA: Aumento da população latina redesenha mapas políticos

Fonte: Último Segundo

 

Consultor político Andres Ramires observa mapa de Nevada em seu escritório em Las Vegas (Foto: NYT)

Líderes de Estados como Nevada buscam novo distrito congressional que daria mais influência aos latinos

O número de latinos aumentou muito em Las Vegas, e eles querem que suas vozes sejam ouvidas não apenas nos corredores de escolas como a Clark High ou no número crescente de estações de rádio de língua espanhola, mas também no Congresso.

Os latinos são a principal razão para Nevada ter conseguido uma nova cadeira em Washington. E assim, como parte do processo de “redistritamento” que ocorre uma vez por década, os líderes locais estão esboçando um novo distrito congressional que daria aos bairros latinos mais influência sobre o seu representante em Washington.

Mas esse objetivo simples está se transformando em algo mais complicado. Os esforços são complicados pelas muitas maneiras como as pessoas interpretam as leis que regem o redistritamento. Os políticos também estão usando a batalha para avançar sua própria agenda – que muitas vezes não têm nada a ver com a população latina.

Agora, o novo mapa congressional de Nevada está nas mãos de um juiz, que na semana passada anunciou planos de apontar um painel de especialistas para lidar com o assunto, depois que os líderes partidários entraram em confronto sobre questões inquietantes.

Quantos moradores de um novo distrito precisam ser latinos? O que será que tudo isso significa para os candidatos democratas? E para os candidatos republicanos? E para a composição étnica dos outros três distritos eleitorais do Estado?

“Existe um consenso sobre uma coisa: que um desses distritos vai dar uma melhor oportunidade para que os latinos elejam um candidato da sua escolha”, disse Andres Ramirez, consultor político e parte da Coalizão de Redistritamento Latino de Nevada, que tem desenhado seu próprio mapa – muito diferente do proposto pelos republicanos do Estado, mas também diferente daquele oferecido pelos democratas.

“Os latinos se tornaram a disputa política este ano”, disse Ramirez.

O notável crescimento da população latina em todo o país – eles respondem por mais da metade do crescimento populacional nos últimos 10 anos e agora representam mais de 16% da população dos Estados Unidos – significa que cálculos políticos semelhantes, debates e considerações jurídicas estão acontecendo em todo o país, assim como aconteceu nas últimas décadas com a população afro-americana.

Partidos políticos estão conscientes das apostas. Na última eleição presidencial, as pesquisas mostraram que os eleitores latinos estavam inclinados a votar no Partido Democrata, que espera agarrar esse bloco cada vez mais poderoso, mesmo que em alguns lugares os republicanos estejam trabalhando para atrair os latinos para o seu lado.

A questão se torna central conforme mapas são traçados em Estados com grandes populações latinas como Arizona, Califórnia, Flórida, Illinois e Texas. Mas também tem um papel a nível local em outros lugares, nos mapas políticos para os legislativos estaduais, câmaras municipais e até mesmo conselhos escolares.

Na Filadélfia, por exemplo, os líderes estão pressionando por distritos com maioria populacional latina na Câmara Estadual e Conselho Municipal. Em Milwaukee, uma coalizão pediu a criação de vários distritos locais com um número significativo de moradores latinos. Lutas semelhantes são esperadas no sul do país, em Estados como Carolina do Norte e Geórgia, onde a população latina aumentou durante os últimos 10 anos.

“Este é um momento divisor de águas”, disse Thomas A. Saenz, presidente e conselheiro geral do Fundo Legal para a Educação e Defesa Americana Mexicana, sobre o potencial papel dos latinos este ano na redefinição das linhas políticas.

Ainda assim, segundo Saenz, não se sabe quanta força política os latinos vão ganhar até que disputas como a que acontece agora nos tribunais de Nevada sejam resolvidas. “O que sabemos com certeza é que passar o controle de áreas a que tem direito significa alguém abrir mão do seu poder político”, disse ele. “Esse é o problema”.

Com os prazos se aproximando para a conclusão dos novos mapas antes das eleições do próximo ano, as batalhas estão aquecendo todo o país.

No Texas, os grupos latinos entraram com ações contra novos mapas apresentados pelos líderes republicanos do Estado. Eles dizem que os mapas solidificam o controle republicano e, essencialmente, ignoram os latinos – embora algumas das quatro novas cadeiras do Congresso não tivessem sido criadas se não pelo crescimento latino, que representou quase dois terços do crescimento do Estado na última década.

Na Califórnia, onde uma comissão independente está refazendo os mapas para que os políticos não participem deste processo altamente partidário, os líderes latinos têm criticado um projeto lançado em junho, que, dizem, teria resultado na perda de cadeiras legislativas para o seu Estado.

“Eles foram terríveis”, disse Arturo Vargas, diretor-executivo da Associação Nacional de Autoridades Latinas Eleitas e Nomeadas. “Eles em nada refletiram o crescimento latino.”

Em Illinois, alguns líderes descreveram o que veem como uma crescente tensão a respeito dos recém-elaborados distritos eleitorais entre os latinos, que recentemente se tornaram a maior minoria de Chicago, e os afro-americanos, cujo controle de alguns distritos pode estar diminuindo conforme os negros deixam a cidade.

As disputas legais são baseadas no Ato do Direito ao Voto de 1965, destinadas a proibir a discriminação contra grupos raciais e outros.

Alguns Estados com históricos de tais problemas devem obter a aprovação explícita do procurador-geral dos Estados Unidos ou do Tribunal do Distrito Federal em Washington para as mudanças que afetam a voto, mas outros, como Nevada, ficam em uma zona cinza em que todos os lados parecem interpretar o Ato do Direito ao Voto de forma que possam impulsionar o mapa que mais desejam.

Em Nevada, os democratas, que controlam o Legislativo estadual, desenharam um novo mapa do Congresso que inclui um distrito onde os latinos seriam responsáveis por 37% dos moradores e outros dois distritos nos quais os residentes latinos compõem cerca de um quarto da população. Sob seu plano, três dos quatro distritos do Estado seriam dominados pelos democratas registrados, enquanto os republicanos poderiam manter um.

Mas o governador Brian Sandoval vetou os planos dos democratas argumentando que eles violaram o Ato do Direito ao Voto por não estabelecer um distrito de maioria latina, embora o governador tenha dito que “tal distrito pode claramente e simplesmente ser desenhado”.

Os republicanos do Estado têm oferecido o seu próprio plano – no qual os moradores republicanos passariam a controlar duas das quatro cadeiras do Congresso e os democratas as outras duas. Em um dos bairros controlados pelos democratas, os latinos representariam um pouco mais de 50% dos residentes.

Se os republicanos parecem estar tentando defender seu poder dos latinos, nem todos interpretam dessa forma. Os republicanos não se saem particularmente bem em Nevada com os latinos, que foram creditados por apoiar com vigor o senador Harry Reid, líder democrata cuja reeleição parece estar em risco em 2010, e por ajudar de Barack Obama a vencer no Estado em 2008. Sandoval, que é latino, recebeu apoio de apenas cerca de um terço dos eleitores latinos em sua vitória no último outono, segundo pesquisas.

Os democratas dizem que os esforços republicanos em criar um distrito latino resultam em um que não é apenas estranho na forma, mas que também não inclui a maioria dos latinos em idade para votar (ao contrário de moradores de todas as idades). Eles dizem que o mapa proposto não satisfaz os testes exigidos pelo Ato do Direito ao Voto e, finalmente, dilui as vozes dos latinos em outros distritos do Estado.

“Eles dizem que estamos fazendo um pacote”, disse Daniel Stewart, advogado dos republicanos, referindo-se à prática de preencher grupos minoritários em distritos únicos. “Nós dizemos que eles estão rachando”, disse ele, sobre alegações de que os democratas estão dividindo os latinos para diluir a sua força.

Para os latinos em Nevada, os grupos parecem estar se formando a cada semana e novos mapas estão surgindo junto com eles.

Alex Garza, empresário e membro da nova organização, a Representação Justa para os Hispânicos, disse estar inclinado a um mapa que garanta um único distrito com maioria de latinos – algo parecido, ele disse, com os planos dos republicanos.

“Diluir o nosso poder de voto agora é uma espécie de tiro no próprio pé”, disse ele. “Nós finalmente não temos apenas uma cadeira na mesa, mas podemos direcionar a conversa. Então devemos fazer isso”.

Vicenta Montoya, presidente do caucus democrata latino Sí Se Puede, descreveu os mapas de ambos partidos como falhos, mas afirmou que o dos republicanos é pior.

“Eles têm tomado esta posição muito paternalista de: ‘Sabemos o que é melhor para vocês. E se colocarmos Maria e Juan em um único distrito, vocês vão ter um candidato”, disse ela.

O mapa imaginado por Montoya é: um distrito congressional com um maior percentual de moradores latinos do que aquele apresentado pelos democratas, mas também moradores latinos espalhados em outros distritos.

“Gostaria de poder ir a três representantes e ser ouvida”, disse ela. “Por que não?”

 

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