No Afeganistão, uma aldeia é modelo de esperanças frustradas

Fonte: Último Segundo

Crianças buscam água em área deserta da aldeia de Alice-Ghan (Foto: NYT)

Construída com ajuda externa, Alice-Ghan tem maioria de suas casas abandonadas frente a obstáculos como pobreza e violência

A pequena aldeia de Alice-Ghan cresceu em solo rochoso com grandes esperanças e US$ 10 milhões em ajuda externa. Uma vila de casas idênticas de paredes de barro construídas para abrigar algumas das centenas de milhares de afegãos à deriva por causa da guerra.

Cinco anos mais tarde, a aldeia de Alice-Ghan e as boas intenções que deram origem a ela estão caminhando para a ruína. A maioria das 1,1 mil casas foi abandonada para os vândalos e os ventos. Com poucos serviços ou trabalhos na região, centenas de moradores se afastaram – às vezes até para favelas e abrigos temporários dos quais haviam tentado escapar.

“Nenhuma pessoa”, disse Amir Mohammed, um ancião da aldeia, ao passar por casas de dois quartos idênticas e vazias.

A aldeia, a um pouco mais de uma hora de carro da capital Cabul, na fronteira com a província de Parwan, é uma das 60 espalhadas por todo o país. Ela se tornou um exemplo dos erros de cálculo e os obstáculos que têm impedido muitos esforços semelhantes para enfrentar grandes problemas como pobreza, fome, doença e deslocamento no Afeganistão.

A maioria das famílias que se mudou para Alice-Ghan havia fugido para o Irã ou para o Paquistão durante a guerra civil que terminou em caos quando o Taleban assumiu o controle em 1996. Percebendo a oportunidade, os refugiados estavam entre os milhões de afegãos que voltaram ao país depois da invasão liderada pelos Estados Unidos. A nova aldeia parecia uma chance para recomeçar.

“No começo, quando chegamos aqui, achamos que o governo finalmente havia nos entendido e que finalmente teríamos uma chance”, disse Nuragah, um morador da aldeia. “Mas os problemas apenas aumentaram.”

Instabilidade
Essas famílias não conseguiram se estabelecer em um Afeganistão que, quase uma década mais tarde, ainda está lutando para se manter de pé. Enquanto o número de afegãos a deixar o país caiu desde os primeiros dias da guerra, defensores dos refugiados alertam que um número crescente de civis fugindo de suas casas por causa da contínua violência e instabilidade do país.

Mais de 150 mil afegãos foram deslocadas durante os últimos 12 meses, um aumento de 68% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a agência de refugiados das Nações Unidas. Muitos voltam para casa uma vez que a violência para. Outros acabam indo morar com parentes, nas regiões mais centrais, ou dentro de acampamentos e favelas nas margens de Cabul. Ao todo, existem cerca de 437.810 afegãos deslocados dentro do país.

Mas, além das preocupações humanitárias, defensores de refugiados afirmam que o crescente número de afegãos pobres e deslocados oferece ao Taleban um amplo conjunto de possíveis recrutas e representa um risco de longo prazo para a estabilidade do país, especialmente quando as tropas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) começarem a ir para casa.

Autoridades do governo disseram que algumas aldeias de reassentamento no leste do Afeganistão têm florescido. Mas muitos estão lutando para manter seus residentes ou construir as casas prometidas. Ao todo, cerca de 5 mil famílias vivem em uma aldeia projetada para até 300 mil, segundo o Ministério de Refugiados do Afeganistão.

A falta de eletricidade e água corrente tem afastado os moradores. Muitos dos locais ficam em regiões remotas no campo, longe de qualquer fonte confiável de trabalho, e poucas pessoas têm carros. A terra é muitas vezes rochosa e seca, com pouca irrigação. Viajar para a cidade para comprar mantimentos pode demorar mais de uma hora.

“Nós não recebemos água limpa, empregos ou estradas”, disse Salam Khan, um ancião que mora no assentamento Barikab, a uma curta distância de Alice-Ghan. Ele disse que sua população de 640 famílias caiu em mais da metade nos últimos dois anos. “Nós ainda não recebemos nada.”

Corrupção
Corrupção também tem atrapalhado o programa. Famílias com casas têm comprado de forma fraudulenta pedaços de terra com a esperança de cultivá-las mais tarde. Alguns dos funcionários do governo responsáveis pelas casas foram acusados de fraude e alguns acabaram na prisão, de acordo com as Nações Unidas.

Em uma paisagem de montanhas, em meio a regiões cheias de minas terrestres, a aldeia de Alice-Ghan começou como uma tentativa de fazer algo de bom para os afegãos deslocados que vivem em torno da capital. O governo afegão tinha a terra. O governo australiano deu quase US$ 9 milhões. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas assumiu a liderança na construção de casas, escolas, estradas e reservatórios de água.

Mas hoje a água chega em caminhões, enquanto os esforços para construir uma instalação permanente de armazenamento de água parecem hesitantes. Várias vezes ao dia, crianças com carrinhos de mão buscam água nos tanques de armazenamento para encher garrafões de plástico para lavanderia e cozinha.

Uma clínica de saúde móvel visita as aldeia às terças-feiras, mas os moradores disseram que não há cuidados de saúde de confiança na região para emergências.

O centro do distrito fica a aproximadamente 10 quilômetros de distância, um percurso de 30 minutos por estradas de terra esburacadas. Uma estrada recém-pavimentada oferece agora um caminho mais rápido para os mercados e empregos de Cabul, mas a maioria dos homens da aldeia não tem carros. Eles contam com um ônibus doado pela ala de desenvolvimento das Nações Unidas que faz a viagem quatro vezes por dia.

Pontos cegos culturais também irritaram os moradores. Sem paredes exteriores construídas em torno de cada casa, as mulheres na vila profundamente conservadora não podem caminhar para o banheiro externo ou quintal sem arriscar a vergonha da exposição pública.

A ONU e o governo australiano disseram que eles estavam comprometidos em fazer a aldeia funcionar, apesar de seus problemas. Oficiais disseram que continuam a gastar dinheiro para melhorar o abastecimento de água e trazer mais transporte confiável e serviços de saúde. Eles disseram que os trabalhadores humanitários estão reavaliando o que é mais urgente e tentando descobrir como satisfazer as necessidades dos moradores.

Cerca de 150 a 200 famílias decidiram permanecer na aldeia. Eles pediram dinheiro emprestado para construir muros de tijolos e barro e ampliar as pequenas casas.

Hanifa Shamsala, uma viúva com listras laranjas no cabelo e três filhos, disse que não tem escolha. Ela não poderia pagar aluguel em Cabul e não tem nada além da casa que foi dada pelos estrangeiros. “Para onde eu iria?”, disse. “O que eu faria?”

A maioria dos moradores, no entanto, está pronta para partir. “É melhor deixar esse lugar”, disse Amir Mohammed, o ancião. “É um deserto. Não há nada aqui”.

*Por Jack Healy

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: