1 família despedaçada: em linda ilha tropical, sobreviver é um modo de vida

Fonte: ACNUR Brasil

 

Kamama Dimasalang, 18 anos, brinca com parentes e vizinhos em frente à casa de sua querida tia em Mindanao, no sul das Filipinas (Fonte: R. Arnold/ ACNUR)

Durante todos os seus 18 anos de vida, praticamente tudo que Kamama Dimasalang conheceu foi a guerra ou a ameaça de conflitos. Isso lhe custou o acesso à educação e a presença confortadora de sua querida tia Tatang.

“Só existe uma coisa que todos os moradores conheceram enquanto cresciam: medo”, afirmou o jovem ao fazer uma pausa na secagem dos grãos de milho que vende para sustentar os pais e seus sete irmãos e irmãs. “Crescemos presenciando disputas, tiroteios, sequestros por resgate”.

O vilarejo de Dado – “barangay” significa vilarejo – fica na Ilha de Mindanao, no sul das Filipinas, onde uma rebelião separatista islâmica explodiu na década de 1970, mas que vem diminuindo nos últimos anos. Os conflitos se intensificaram novamente em 2008, mandando Kalama e seus vizinhos do vilarejo para campos de deslocados. Hoje cerca de 100 mil pessoas continuam deslocadas em Mindanao.

Seu maior sofrimento é que sua tia, a quem ele era muito apegado, nunca ousou voltar com seus filhos quando a maioria dos moradores de Dado voltou há mais de seis meses, a partir de agosto de 2009. Para ajudar o vilarejo a retomar a normalidade, o ACNUR deu às mulheres máquinas de costurar, e aos homens, linhas de pescar e madeira para construir canoas para pesca.

Kamama, um jovem pequeno e musculoso, que adora brincar com crianças e sorri com facilidade, é constantemente confrontado com o vazio da casa de sua tia, uma visão que apenas reforça suas saudades.

Ela se estabeleceu em outro vilarejo de Mandanao, distante três horas de carro. Mas pela maneira como ele fala do assunto, percebe-se que, para esse garoto pobre e sem educação formal, a distância geográfica e emocional seria a mesma para Paris ou Marte.

A vida nunca foi fácil em Dado, um vilarejo com cerca de 1,8 mil agricultores e pescadores. Kamama é o terceiro de 11 filhos, sendo que o mais novo tem apenas seis meses de vida. Sua mãe, Elma, casou nova. Seu irmão mais velho mudou-se para a capital das Filipinas, Manila, a mais de 900 kms em direção nordeste, para tentar encontrar emprego e mandar dinheiro para casa.

Kamama só cursou quatros anos de escola, pois precisava trabalhar para ajudar seus irmãos. Melancólico, diz que seu maior sonho é ter acesso a educação porque “acho que eu poderia ser bom com computadores”. Sendo mais realista, ele apenas deseja um emprego que o livre do trabalho servil e agrícola.

Pouco antes do mês de jejum islâmico, o Ramadã, em agosto de 2008, os moradores de Barangay Dado fugiram dos combates entre a Frente Moro de Libertação Islâmica e as forças armadas das Filipinas – um dia do qual Kamama se lembra muito bem. “Entregamos tudo a Deus”, diz o jovem. “Por causa do nosso medo, não tínhamos nenhuma esperança”.

Carregando as crianças menores em seus braços, Kamama ajudou seus pais a conduzir toda a família para uma escola na cidade mais próxima, Buayan. Eles estavam tão determinados a encontrar segurança que não perceberam que não haviam comido nada o dia inteiro, enquanto percorriam seis ou sete quilômetros a pé. E outras confrontações ainda estavam por vir.

“Estávamos felizes só de termos chegado”, lembra. “Nos deram uma lona plástica para nos protegermos do sol. Como não havia paredes laterais, quando chovia ficávamos molhados. Estávamos felizes por estar vivos, mas durante esse tempo, tudo que queríamos era uma casa com paredes”.

Eles também não esperavam ter que ficar abrigados em uma escola por 18 meses, durante os quais Kamama conduzia um triciclo e fazia qualquer trabalho que pudesse para ajudar seu pai a sustentar a família.

“Embora eu seja um homem, às vezes sentia que era fraco. A única coisa que me deu forças novamente foi a esperança de que algum dia eu e minha família poderíamos ter uma vida melhor”, lembra. “Eu fiz tudo o que podia para ajudá-los”, ainda que tivesse apenas 15 ou 16 anos na época.

Atualmente, seu vilarejo se recupera aos poucos, em parte graças aos projetos do ACNUR, os quais deram àqueles que regressaram uma forma rápida de sustento. Mas a vida não foi fácil para sua tia Tatang, mãe solteira de três filhos.

Kamama sabe que ela e seus primos têm sofrido com problemas financeiros e de saúde, e seus olhos se enchem de lágrimas enquanto narra as dificuldades. “Foi por causa da guerra”, diz simplesmente.

Antes de voltar aos grãos de arroz e milho secos no sol intenso do meio-dia, Kamama compartilha sua modesta esperança para o futuro nesta volátil região das Filipinas: “É muito difícil ser um deslocado. Espero que não aconteça novamente”.

Por Kitty McKinsey, de Barangay Dado, nas Filipinas

 

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