Nos Emirados Árabes, cartões de crédito podem levar à prisão

Fonte: Último Segundo

A filipina Evelyn Naces se endividou e foi enviada para a prisão em Abu Dhabi (Foto: NYT)

Seduzidos por aparentes facilidades, imigrantes se endividam com gastos com parentes que ainda vivem em países de origem

Antes de chegar à essa meca do trabalho imigrante, aos 48 anos, Evelyn Naces, uma enfermeira filipina, nunca teve um cartão de crédito. Logo ela teria 14 deles – e como milhares de outros trabalhadores estrangeiros em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, uma passagem pela prisão dos devedores.

“Quando eles me colocaram algemas, aquilo foi o pior de tudo”, disse Naces, que tinha US$ 27 mil em contas a pagar, principalmente por ajudar um filho adulto na abertura de uma empresa nas Filipinas, que mais tarde faliu. “Eu me senti tão humilhada”.

Durante anos, os bancos facilmente concederam cartões de crédito aos estrangeiros que vêm aqui em massa para trabalhar nos shoppings e torres de escritórios. Os trabalhadores, muitos deles criados em países pobres e pouco informados sobre o crédito fácil, gastaram mais do que podiam. Perdas desconcertantes vieram em seguida, com penas de prisão para aqueles que não podiam pagar.

Sejam vistas como crédito imprudente ou empréstimo negligente, suas histórias oferecem um vislumbre incomum das emoções ocultas – obrigação, culpa, orgulho e família – que seguem milhões de migrantes em todo o globo.

Alguns compram por prazer, mas muitos fazem dívidas para responder aos apelos de parentes pobres por necessidades tão variadas como gado e cuidados médicos. A capacidade de dizer “não” raramente é uma opção. Outros ainda, sentindo-se desenraizados, constroem casas em seus países que podem nunca ocupar. Algumas mães que deixaram seus filhos para trás tentam substituir o sentimento de culpa com presentes caros.

“A família que ficou no país de origem muitas vezes pensa que o migrante está ganhando muito e aumenta suas expectativas”, disse Grace Princesa, embaixadora das Filipinas para os Emirados Árabes Unidos, que fez da redução da dívida parte de uma campanha do governo para melhorar as condições de vida dos migrantes. “Os migrantes pobres entram em dividas mais profundas apenas para corresponder às expectativas dos parentes. É um ciclo vicioso.”

Esse foi o caso de Naces, agora com 52 anos, uma mãe solteira que deixou seu filho recém-nascido com seus pais e foi para a Arábia Saudita para ganhar dinheiro para sustentá-lo. Quando ela chegou nos Emirados, em 2007, ele já havia crescido sem ela.

Naces comprou móveis, roupas e alimentação para si mesma, mas suas maiores despesas envolviam o filho, cuja afeição ela temia ter perdido. Ela construiu uma casa para ele nas Filipinas e comprou cinco carros com cartões de crédito para que ele pudesse iniciar um negócio de aluguel. “Eu me sentia culpada por estar longe e não criá-lo”, disse ela. “Eu estava tentando compensar.” Ambos foram para a cadeia: ele por envolvimento com drogas e ela pela dívida.

Índices
Embora o governo não divulgue quantos devedores foram presos, um corpo legislativo formado há muitos anos estimou que 10 mil deles passaram pelos tribunais ou pela prisão. O chefe da polícia de Dubai tem reclamado que os devedores superlotam as prisões desnecessariamente, e os empregadores têm alertado o Ministério do Trabalho que os problemas da dívida distraem os funcionários. Cerca de 85% da população do país – e 99% da força de trabalho privada – é composta por trabalhadores estrangeiros e autoridades locais mantêm atenção aos sinais de descontentamento.

“Os empregadores estavam dizendo: ‘Isso é uma prioridade para nós’”, disse Qassim Jamil, um oficial de alto escalão do Ministério do Trabalho. O Banco Central tornou mais rigorosas as regras de empréstimos este ano e o Ministério do Trabalho patrocinou um programa de alfabetização financeira para os migrantes.

“O que nós queremos? Liberdade!” a embaixadora Princesa gritou em uma sessão para os filipinos. “Liberdade da pobreza! Liberdade de problemas com cartões de crédito! Liberdade de problemas com bancos!”

Se os migrantes gastaram pesado, os credores os encorajaram. Tradicionalmente, o uso de cartão de crédito estava em baixa (em parte devido a restrições islâmicas contra a cobrança de juros), mas os bancos avistaram um novo mercado e passaram a persegui-lo de forma agressiva.

Com bancos estrangeiros como o HSBC e o Citigroup competindo por participação no mercado, o número de cartões saltou para 4 milhões em 2008, um crescimento de cinco vezes em cinco anos, segundo o Grupo Lafferty, uma empresa de pesquisa de Londres. Mas o país carece de uma agência de crédito confiável, portanto os credores não sabiam dizer quantos cartões ou quanta dívida existe no país. “Os bancos estavam brigando para emprestar e eles nem sequer tinham verificações de crédito adequadas”, disse Andrew Neeson, um analista da Lafferty.

Membros da comunidade filipina nos Emirados Árabes participam de programa de instrução financeira (Foto: NYT)

Cortejados com presentes e baixas taxas, poucas pessoas entenderam os custos. A taxa média de juros nos Emirados Árabes Unidos no ano passado, menos 36%, era mais do que o dobro da média global, e os bancos rotineiramente adicionam outros 10% como seguro contra invalidez e morte. Com penalidades, alguns trabalhadores emprestaram a taxas de 50% ou mais.

Qualquer um pode ser tentado pelo crédito fácil, mas imigrantes que deixaram a pobreza podem achar os shoppings locais especialmente intoxicantes. “A primeira vez que usei meu cartão, eu me senti surpreso”, disse Naces. “É um sentimento de emoção, poder, até mesmo de grandeza.”

Rex Arcenio, um optometrista filipino, aceitou um cartão de crédito dourado porque ele veio com uma caneta Montblanc e um passeio de limousine até o aeroporto para as suas férias anuais. “Era como um símbolo de status”, disse. Ele chegou a US$ 50 mil em dívidas – para a educação de seus filhos, o tratamento do câncer de seu irmão e uma casa em Manila – e foi preso.

Prisão
Tecnicamente, os devedores vão para a cadeia por passar “cheques de segurança” sem fundos, entregues assinados e em branco quando aceitam um cartão de crédito. Caso deixem de pagar o cartão, os bancos podem depositar os cheques, no valor devido, e passar um cheque sem fundo é crime. Sejam estrangeiros ou locais, os devedores precisam pagar a dívida após deixar a prisão, embora os bancos muitas vezes aceitem valores reduzidos.

Aisha Alambatang, 54, que passou um mês na prisão por causa de um cartão de crédito, em fevereiro, pode ser presa novamente por causa de outros. Enfermeira filipina com três filhos crescidos, Alambatang passou a maior parte da infância deles no exterior, sustentando-os da Arábia Saudita. Quando ela chegou aos Emirados, oito anos atrás, recebeu um aumento e seis cartões de crédito. Ela construiu casas para si e para sua filha, e ajudou seus filhos a começar várias empresas que faliram. Então, ela pagou para que dois deles viessem para Abu Dhabi para procurar emprego.

Logo ela tinha um salário mensal de US$ 2,2 mil e uma dívida de mais de US$ 3 mil. Sua filha estava no tribunal quando Alambatang chegou. “Quando minha filha me viu com uma corrente no meu pé, senti como se meu coração estivesse quebrado”, disse ela. Preocupado em voltar para a cadeia, Alambatang tem palpitações quando vê a polícia e dorme com a filha em busca de conforto.

“Eu não estou mais na cadeia, mas aqui eu ainda estou presa”, disse ela com a mão sobre o coração.

*Por Jason DeParle

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