O massacre de Tamaulipas um ano depois

Fonte: Rádio Nederland Wereldomroep Brasil

Por Luisa Fernanda López

 

(Foto: Jesús Villaseca Pérez/ Flickr CC)

Há um ano, a notícia de que se tinha encontrado os corpos de 58 homens e 14 mulheres numa fazenda em San Fernando de Tamaulipas rodou o mundo. A descoberta trouxe à tona o que estava acontecendo com os imigrantes em trânsito para os Estados Unidos nesta zona de fronteira do México.

As vítimas eram, em sua maioria, centroamericanos que tentavam alcançar a fronteira dos EUA e que nesta parte final do trajeto toparam com integrantes do grupo mafioso Los Zetas. Os imigrantes foram assassinados pelas costas e depois empilhados e deixados expostos às intempéries. Um dos sobreviventes contou que eles tinham sido sequestrados e que ao se recusarem a pagar a extorsão ou colaborar com o grupo criminoso foram massacrados.

A investigação
Um ano depois, apesar de toda a atenção da mídia e de 81 pessoas terem sido detidas pelo caso, pouco se avançou na investigação e na aplicação da justiça. Um mês depois do ocorrido, o governo federal prendeu sete pessoas suspeitas de terem cometido o crime. O portavoz do governo para assuntos de segurança, Alejandro Poiré, declarou então que estas sete pessoas “são presumivelmente parte da estrutura operativa do Los Zeta que executou o homicídio dos 72 imigrantes em San Fernando, Tamaulipas, o que se conclui, entre outras coisas, a partir de suas declarações iniciais”.

Não obstante, o presidente do Comitê de Direitos Humanos de Nuevo Laredo, Raymundo Ramos, acredita que tudo isso foi uma operação de mídia do governo federal para mostrar resultados. “Não creio que tenham sido detidos os verdadeiros responsáveis deste massacre, e sim que foi uma tentativa de silenciar as vozes que clamavam por justiça, sobretudo a dos familiares. O governo federal prendeu pessoas que apresentou como integrantes de um cartel e como responsáveis pelo massacre, mas na verdade o processo de investigação da Procuradoria Geral da República foi muito pouco claro. Eles também fazem isso com a intenção de ocultar o desinteresse que as autoridades tiveram durante muitos anos pelo tema da migração.”

Ao atual estado de impunidade no caso, somam-se os riscos que correm os funcionários de justiça que têm que avançar com a investigação. Poucos dias depois de terem iniciado os trabalhos, o corpo de um investigador do massacre foi encontrado decapitado.

Os sobreviventes
Pelas informações que se tem até o momento, acredita-se que apenas três pessoas conseguiram sobreviver, embora se especule que uma mulher grávida também poderia ter sobrevivido. A situação de segurança dos sobreviventes é grave, segundo denuncia Raymundo Ramos, do Comitê de Direitos Humanos de Nuevo Laredo. “A informação que temos é que estas pessoas poderiam sofrer represálias por parte dos grupos criminosos. É evidente que sua vida estará em risco se derem uma declaração ao Ministério Público, e inclusive alguns, por proteção, decidiram mudar seu local de residência.

O equatoriano que sobreviveu com ferimentos no pescoço e no rosto disse a um canal de televisão que as promessas de atendimento de saúde, casa e alimentação feitas pelo governo de seu país não foram cumpridas. Ele também falou a um repórter da Associated Press que quer sair do Equador e que pedirá asilo em qualquer país do mundo.

Valas comuns
O massacre de Tamaulipas revelou à opinião pública uma realidade que as organizações de imigrantes e de direitos humanos no México já vinham denunciando – o sequestro, assassinato e extorsão de milhares de pessoas em seu caminho até a fronteira por parte das máfias existentes naquela região. Acredita-se que ainda existam muitas valas comuns a serem descobertas, segundo Raymundo Ramos, “porque temos relatos de centenas de desaparecidos, não apenas imigrantes, mas também turistas que passam pelo estado de Tamaulipas”.

Uma dolorosa realidade que voltou a se mostrar com toda crueza, no mesmo lugar, oito meses depois, quando foram encontrados 193 corpos em diferentes valas clandestinas.

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