Agentes humanitários invisíveis

Fonte: Rádio Nederland Wereldomroep Brasil

Por Bram Posthumus

Foto: Brendam Bannon

Um agente humanitário ocidental distribui alimentos para africanos famintos. Com que frequência esta imagem aparece nos telejornais? O repórter da Radio Nederland, Bram Posthumus, acredita que com isso a mídia reforça um grande mal-entendido: que os africanos não podem fazer nada por si mesmos.

Tem que ser dramático. Um campo de refugiados improvisado, onde pessoas se amontoam em cabanas com telhados de papelão surrado. O vento do deserto soprando.

Ou: Uma casa superlotada num vilarejo; as pessoas fugiram para evitar um conflito armado. Do lado de fora, a chuva cai em ruas de terra batida.

Em qualquer situação, faça a câmera dar um zoom nas crianças, de preferência à beira da morte e chorando. Depois, um fade in para a próxima imagem. Aqui está o agente humanitário, de preferência branco. Ele (ou, em geral, ela) terá uma lista pronta com tudo o que é necessário – desesperadamente, é claro – e irá explicar o problema político/social/étnico em algumas frases bem escolhidas e não-ameaçadoras.

Superficialidade

Reportagens televisivas sobre desastres, como a atual fome na Somália, seguem quase sempre este padrão universal. É uma superficialidade que eu posso suportar, afinal, trata-se de canais de notícia 24 horas.

Mas quero dar ênfase a um grupo de agentes humanitários de emergência que é sistematicamente mantido fora destas imagens.

Quando, por exemplo, a crise na Costa do Marfim saiu de controle no início deste ano e as pessoas começaram a fugir para a vizinha Libéria, a primeira linha de agentes de emergência não veio de uma ONG ocidental, mas dos próprios liberianos. Em Buutuo, na fronteira da Libéria com a Costa do Marfim, a vice-prefeita me contou como levou refugiados para sua casa porque “eles estavam dormindo nas ruas. E quando tivemos problemas similares aqui, eles nos ajudaram.”

Comida roubada
Na Somália, hoje, há inúmeros relatos de alimentos roubados da ajuda humanitária. Roubados… de novo. O ex-agente humanitário e escritor Michael Maren registrou os mesmos tipos de roubo em larga escala quase vinte anos atrás, quando ‘o mundo’ estava supostamente alimentando aquele país. Compare com esta citação: “Nós somos somalis, nós conhecemos a situação.”

Esta foi a reação de uma somali que vive na Holanda, Sagal Gelle. Encontrei-me com ela num evento beneficente em Haia e perguntei como ela poderia ter certeza de que sua doação chegaria às pessoas que precisam dela. “Não é possível fazer trapaça, eu falo a língua”, disse uma outra pessoa. Ela visita uma região na Somália que a mídia internacional declarou ser ‘inacessível’. Não para nossa amiga somali – mas, novamente: ela não trabalha para uma organização internacional. Portanto, você nem sabe que ela existe.

Ajuda de outros lugares
Estes são os agentes humanitários invisíveis. E sua invisibilidade está ligada a um problema muito mais fundamental: a persistente negação de sua existência. Para a mídia global de notícias 24 horas, os africanos não têm seu próprio destino em mãos – eles precisam de ajuda e direcionamento de outro lugar.

Quando a Primavera Árabe teve início, os comentaristas começaram a perguntar se os eventos na Tunísia e no Egito iriam ‘inspirar’ os africanos ao sul do Saara a seguir o mesmo caminho – como se eles estivessem sentados esperando obedientemente até que alguém lhes desse o sinal para iniciar suas próprias revoluções.

Este tipo de reportagem, que se vê em toda parte, sugere que sociedades no continente africano não se desenvolvem por conta própria. Também reforça a imagem para os consumidores de notícias do mundo que as coisas só podem ser realizadas quando os próprios africanos não estão envolvidos. E isso é o que transforma uma imagem errônea numa imagem perniciosa. E aqui vai um lembrete: na maioria dos países africanos, a independência aconteceu há mais de 50 anos. Já é hora da imprensa internacional saber disso.

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