República Democrática do Congo: A solidão do refúgio urbano

Fonte: ACNUR Brasil

Comerciantes esperam por clientes em uma movimentada via urbana na República Democrática do Congo. Alguns refugiados enfrentam dificuldades vivendo nas cidades. (Foto: L. Dobbs/ ACNUR)

Jack* está perdendo as esperanças. O refugiado sudanês, 32 anos, está preso em um país cuja língua ele não sabe falar e onde não consegue arrumar um emprego decente. E ele não está pronto para retornar ao Sudão do Sul, país onde seus pais foram mortos.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) se encontrou com Jack recentemente, na sede da Equipe de Gestão de Refugiados Urbanos em Kinshasa (ERUKIN), uma organização não-governamental parceira do ACNUR, que ajuda os refugiados urbanos mais vulneráveis na República Democrática do Congo (RDC). Ele estava lá para pedir ajuda, após ter deixado sua casa, localizada no extremo da capital, no dia anterior.

A dramática e difícil viagem que trouxe Jack a Kinshasa começou em 1989 em Juba, capital do Sudão do Sul, quando o país estava mergulhado na guerra civil entre norte e sul e as autoridades de Cartum recrutavam compulsoriamente pessoas do sul para servir as forças armadas.

“Nós deixamos nossas escolas [e fugimos]. A vida era ruim”, Jack lembra. “Eu parti para Juba e depois para Uganda”, diz, acrescentando que a situação apenas piorou. Ele viajava com um grupo e tiveram o azar de cruzar com uma das milícias mais temidas da África – o Exército de Resistência do Senhor.

“Eles atiraram em alguns dos nossos amigos”, disse, afirmando que nesse momento decidiu voltar para Juba. Jack conta que não demorou muito tempo para que ele fosse detido, acusado de ser um rebelde, e colocado na prisão por dois anos. “Saí e vim para o Congo em 2003… Levei seis meses no trajeto a pé, de carro e de barco [para chegar a Kinshasa]”.

Mas viver na capital congolesa não resolveu seus problemas, ainda que seu status de refugiado tenha sido reconhecido em 2005. “Ainda estou sofrendo”, diz. “Minha vida aqui é muito pobre. Estou sem emprego, sem dinheiro”.

O idioma representa parte do problema, mas os civis congoleses também enfrentam dificuldades econômicas. Jack fala um pouco de lingala, mas nada de francês, idioma bastante usado na capital.

Entretanto, assim como outros refugiados sudaneses, Jack não está pronto para voltar para casa, embora o Sudão do Sul tenha se tornado independente no mês passado. Ele também não quer ficar em Kinshasa. “Minha solução é deixar o Congo… Quando conseguir economizar um pouco de dinheiro, em algum tempo, sairei daqui”.

Ele fala em ir para um país africano de língua inglesa, mas tudo parece apenas um sonho. Ele mal tem sobrevivido com a venda de bebidas de ervas e de bálsamos que ele carrega em um saco plástico, reconhecedo que: “Para comer é um grande problema”. Jack lista suas habilidades, como jardinagem e condução, mas enfrenta uma dura competição para encontrar emprego.

Além disso, ele vive na periferia da capital, que se espalha por vários quilômetros ao longo da margem sul do rio Congo. Para vir ao escritório da ERUKIN Jack precisou partir um dia antes de sua pequena casa –  que ele ainda compartilha com outros jovens sudaneses.

A experiência de Jack não é a mais comum entre os mais de 15 mil refugiados de nove países que vivem em Kinshasa – dos quais cerca de 70% são angolanos – mas revela alguns dos problemas enfrentados por refugiados urbanos em todo o continente africano.

Sem a assistência de organizações como ERUKIN, por mais modesta que seja, a vida seria ainda mais sofrida para essas pessoas arrancadas de seus lares e forçadas a fugir através das fronteiras.

“Quando estou doente, posso receber tratamento médico”, diz Jack, revelando que dessa vez ele veio para “contá-los sobre minhas condições [de vida]”. Em sua última visita, ele recebeu um cobertor.

“Não distribuímos ajuda, mas as pessoas com problemas vêm nos ver. Nós checamos e vemos se eles realmente precisam de ajuda”, explica Dieudonne Yenga Bamanga, coordenador do ERUKIN. A ONG, que foi criada em 2004, lida principalmente com problemas de moradia, educação e saúde.

“Nós também monitoramos os refugiados”, diz Bamanga. “Visitamos as pessoas vulneráveis e crianças desacompanhadas”. Durante o último ano, a ERUKIN itensificou os projetos de geração de renda que ajudam os refugiados vulneráveis a serem auto-suficientes. A ONG também tem ajudado refugiados a se profissionalizarem como carpinteiros, sapateiros, alfaiates, costureiros e pequenos varejistas. “Trabalhar não é facil para os refugiados, porque muitos congoleses não têm emprego”.

É por isso que o trabalho da ERUKIN e de outras organizações humanitárias é vital para os refugiados urbanos, que de outro modo seriam deixados totalmente à deriva nas grandes cidades. Jack, apesar de sua depressão, é ciente disso. Mas ele também se preocupa em não depender dos outros para sempre. “A vida é difícil”, pondera, antes de concluir que “é precisso proteger-se antes de ficar melhor”.

*Nome alterado por razões de segurança

Por Leo Dobbs em Kinshasa, República Democrática do Congo

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