Médicos lidam com superlotação e descaso para ajudar refugiados em Lampedusa

Fonte: Opera Mundi

 

Foto: Graziano Graziani/Opera Mundi

Alguns gritam por horas entre as grades que os separam do atendimento médico e da liberdade na Europa. Outros, conformados com a opressão após uma viagem extenuante e perigosa, sequer pedem ajuda, na espera de, com um lance de sorte, conseguirem completar a jornada e alcançarem o sonho de uma terra das oportunidades. Algumas vezes, são mais de 1.700, onde caberiam apenas 800.

Desde fevereiro de 2011, é nessa realidade que opera a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) na ilha de Lampedusa. Para dar assistência sanitária aos imigrantes que arriscam a sorte pelo mar, os voluntários enfrentam, além das dificuldades naturais de lidar com refugiados, o recrudescimento da política antiimigratória italiana. A organização havia deixado a ilha em 2009, depois do acordo entre Itália e a Líbia de Muamar Kadafi, que levou à política das expulsões ao mar. As expulsões levaram a um bloqueio de desembarques, tornando desnecessária a presença dos médicos; mas a ausência da MSF em Lampedusa tinha uma motivação precisa: manifestar a discordância da organização em relação à política da Itália que negava proteção às pessoas que tinham esse direito.

Esta, no ano passado, não foi a primeira “ausência” da organização na ilha. Em 2004, a atividade da MSF tornou-se impraticável por causa dos relatos negativos que a organização publicou sobre as condições sanitárias nos centros de salvamento, que foram seguidos pela hostilidade das autoridades italianas. Hoje, a MSF opera principalmente no âmbito dos primeiros socorros, no cais, quando os imigrantes desembarcam na ilha, e depois no âmbito ambulatorial nos centros do distrito de Imbriacola e da base Loran, para onde são encaminhados os menores não-acompanhados. Os casos de especial vulnerabilidade e urgência são reportados para eventual transferência para estruturas sanitárias mais adequadas.

Mas as coisas nem sempre saem como o planejado. Trabalhar em uma situação de grande tensão devido aos desembarques, e em um contexto que implica na limitação da liberdade, apresenta muitas dificuldades. É o que diz Francesca Zuccato, que opera para a MSF em Lampedusa.

Quais são as dificuldades encontradas para trabalhar no centro de Contrada Imbriacola?
O centro é dividido em várias zonas, entre as quais uma propriamente de detenção. Naturalmente, todo o centro é fechado, mas quem se encontra na zona detentiva tem ainda mais dificuldades de chegar aos médicos, porque eles ficam fora desta zona. As pessoas têm de gritar para serem ouvidas e descobrimos muitos casos de pessoas que não chegam a alcançar o ambulatório, que permanecem gritando no portão por horas.

O acampamento é gerenciado pela Lampedusa Accoglienza, uma entidade criada especificamente para administrar o centro; seria a sua obrigação resolver essa situação. Por outro lado, a saída da zona de detenção deve ser tratada pela polícia. Esta transição de responsabilidades torna o mecanismo ainda mais problemático. Além disso, há pessoas que, embora necessitadas de assistência médica, reagem de modo apático à situação de privação da liberdade em que de repente se encontram. Eles se fecham, passam todo o dia nos dormitórios, no acampamento. Conseguir dar assistência a essas pessoas é extremamente difícil, porque precisamos poder alcançá-los onde estão e nem sempre é possível. Por outro lado, a apatia em que se afundam faz com que eles mesmos não lutem para receber a assistência de que precisam. É uma situação duplamente complexa: são que pessoas que estão doentes, mas se ninguém vai até eles correm o risco de ficar na situação em que se encontram por muito tempo.

Existem problemas sanitários ligados ao grande fluxo de imigrantes que chegam a Lampedusa?
Sem dúvida. Os dois centros têm limite de capacidade, que é de 804 pessoas para Contrada Imbriacola e 201 para a base de Loran. Porém, em meados de agosto, por exemplo, registrou-se uma fase em que em Imbriacola haviam 1.700 pessoas, enquanto em Loran 700. Nada de extraordinário: a capacidade é excedida com bastante frequência. Quando isso acontece, as condições higiênicas ficam abaixo do padrão mínimo aceitável. Acima de tudo por causa dos banheiros, que não são suficientes para todos. Mas também em termos do próprio acolhimento: não há leitos suficientes para todos, em alguns casos não há nem espaço suficiente. Neste caso, as pessoas dormem ao ar livre, com um colchonete ou uma esteira, às vezes até mesmo no chão. Isso aconteceu em agosto, como eu disse, e não foi a primeira vez. Aconteceu em abril e também em maio. Trata-se, portanto, de situações excepcionais, mas não inesperadas, porque ocorrem com frequência.

Naturalmente, a superlotação tem consequências também sobre a dificuldade de acesso ao ambulatório. Além disso, não existe um procedimento padrão para fazer um rastreio adequado das pessoas que precisam de ajuda. Não apenas no nível dos problemas físicos, mas também psicológicos. Tudo depende da capacidade individual do imigrante pedir ajuda e ser ouvido. Não existe ajuda no sentido contrário, ou seja, com operadores que vão ao encontro do imigrante e certifica-se de compreender como está. Claramente, quem não está em condições de se fazer ouvir não será ajudado.

Você já encontrou muitos problemas de caráter psicológico?
Muitíssimos. E uma das causas é o próprio sistema de acolhimento. A condição de detenção nos centros e a incerteza sobre o tempo, quanto essa condição se prologará. As pessoas que chegam já carregam uma vulnerabilidade e uma série de situações que pesam no âmbito psicológico. Alguns fogem da guerra, da fome, pessoas que viveram situações de violência generalizada, como na Somália, ou de extrema instabilidade política, como a Guiné ou a Nigéria. A permanência na Líbia exacerba essa situação, porque os imigrantes africanos que passam pelos centros de imigrantes na Líbia são submetidos a uma violência extrema, sem a possibilidade de escapar, porque estão à mercê do sistema líbio, em primeiro lugar; depois, dos traficantes. Estamos falando de violência psicológica, mas também de violência física. Isso, porém, acontecia principalmente antes da guerra civil. Hoje, em vez disso, o problema para quem atravessa o território em direção à Europa é a própria revolta líbia. Muita gente se encontra em meio ao conflito e sofre as consequências. Sobretudo quem vem da África subsaariana: os negros são tidos como mercenários de Kadafi, e assim põem a sua vida em risco.

Pessoas com essas histórias, quando chegam aqui se sentem, em primeiro lugar, a salvo do perigo de morte. Mas depois se afundam em um limbo que os recalca em uma situação de incerteza sobre o seu destino e sobre o seu futuro. Também porque a permanência é geralmente mais longa do que o previsto. Há pessoas que ficam por semanas em Lampedusa, e depois quando são transferidos aos CARA, lá permanecem por diversos meses.

O que acontece com os norte-africanos?
Os norte-africanos são uma outra grande questão da imigração nos dias de hoje. Os norte-africanos sabem que, em princípio, irão para os CIE, em particular os tunisianos. E que então o seu destino é a expulsão. Até porque, quem regressa à Tunísia, o relata a quem parte. Este é, sem dúvida, um motivo de grande tensão para a população tunisiana dos centros, porque sabem que provavelmente serão expulsos, mas não sabem exatamente o que está acontecendo. Cada vez que há uma transferência, até mesmo de um pequeno grupo, a incerteza aumenta e pode gerar tensão.

Do ponto de vista médico, em que condições encontram-se as pessoas que desembarcam?
Depende. Antes de mais nada, nós não somos o único agente sanitário. Há a assistência provincial, a Cruz Vermelha, os médicos da entidade gestora, a Lampedusa Accoglienza, e, sob o comando da Guarda das Finanças e da Guarda Costeira, o SMOM (Soberania Militar da Ordem de Malta). Não é simples, em meio à confusão do desembarque, identificar imediatamente quem precisa de ajuda. Os problemas que encontramos são geralmente contusões e hematomas, devido à dificuldade de movimento com a superlotação do barco e também durante a transferência de pequenos barcos em que chegam para os navios das Guardas italianas. Caso os navios afundem e as pessoas acabam no mar, encontramos hipotermia e desidratação. Esses sintomas, porém, encontramos até quando a travessia é muito longa. Por exemplo, aconteceu há pouco tempo de um barco se perder no mar e ficar à deriva por seis dias. Algumas pessoas morreram e, segundo o que foi dito, os cadáveres foram jogados no mar. Nós encontramos apenas um a bordo do navio.

O que acontece com as pessoas que precisam de assistência?
As pessoas que são assistidas com urgência são trazidas ao ambulatório; porque em Lampedusa não há um hospital adequado, apenas um ambulatório. Se existem casos graves são transferidos por helicóptero ao hospital de Palermo. O mesmo deve valer para as mulheres grávidas para além do 7º mês, porque no ambulatório não há uma sala de parto, e não pode enfrentar um parto com complicações. Mas este nem sempre é o caso, é muito arbitrário, depende das autoridades. Como precaução, nós inserimos uma obstetra em nossa equipe. Além de mediadores do idioma árabe e outros, que são essenciais, porque o modo de descrever uma patologia varia de língua para língua, de cultura para cultura.

Foto: Carlos Latuff

Existe um problema específico ligado às mulheres imigrantes? Chegam muitas mulheres sozinhas
Sim, chegam muitas. Várias inclusive grávidas. Quando isso acontece, tentamos localizar o pai da criança, para saber o que houve. Naturalmente, depende do contexto. As mulheres eritréias e somali muitas vezes não estão acompanhadas. Várias delas são violentadas ao longo da viagem, que dura muitos vezes e até anos, durante os quais estão à mercê dos traficantes. As mulheres fazem a mesma viagem que os homens, mas elas estão em posição de maior vulnerabilidade. Algumas partem sozinhas porque não têm mais família e durante a viagem muitas vezes acontece de tudo.

A maioria das mulheres africanas do oeste, como as nigerianas, são, por sua vez, vítimas do tráfico para a prostituição. Trata-se de uma viagem longa e muito cara, e é muito improvável que meninas nessas condições tenham dinheiro para pagar por isso. O mais provável é que se tratem de organizações que enviam essas meninas para a Itália em “ondas”, para entrarem no mercado da prostituição, para recuperarem o dinheiro da viagem: é o mecanismo pelo qual as meninas são forçadas a se prostituirem. Mas é extremamente difícil identificar esses casos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: