Enorme favela recebe fugitivos do conflito armado na Colômbia

Fonte: G1

Por Tahiane Stochero

Soacha, próximo a Bogotá, é o local que mais recebe "desplazados" pela violência e confrontos na Colômbia (Foto: Tahiane Stochero/G1)

G1 foi a Soacha, para onde correm os ameaçados pela violência. País tem 3,8 milhões de deslocados internos por medo de grupos armados.

Uma enorme favela que abriga quem foge do país inteiro por medo de ameaças, extorsões, assassinatos, confrontos, tiroteios entre narcotraficantes ou uso de armas ilegais, como minas terrestres. Isso é Soacha, cidade na periferia de Bogotá que é o local na Colômbia que mais recebe “desplazados”, como são denominadas as pessoas obrigadas pela violência a se deslocar no país.

Dados do governo da Colômbia apontam que, desde 1997, a população expulsa de suas casas e cidades pela violência superou 3,83 milhões. Foram quase 90 mil só de janeiro a setembro de 2011.

Regiões como Valle del Cauca e Antioquia, na costa do Pacífico, são as que mais expulsaram moradores em 2011, devido principalmente à suposta atuação de milícias paramilitares controladas por cartéis da cocaína e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há 40 anos usam táticas terroristas e sequestros para tentar controlar parte do país. Enquanto isso, a região metropolitana de Bogotá, que compreende Soacha, é a que mais recebeu “desplazados” – são 315 mil nos últimos 13 anos.

Izelda gosta de viver em Soacha, onde filhos recebem estudo e trabalham (Foto: Tahiane Stochero/G1)

G1 conheceu Soacha e conversou com pessoas que fugiram para lá, na última semana de novembro, a convite da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

A Colômbia é o único país onde a Acnur, além de refugiados obrigados a deixar seus países, trabalha também com deslocados internos.

A agência fornece aos deslocados colombianos principalmente proteção, soluções para problemas de infraestrutura e também atua impedindo o recrutamento forçado de menores de idade para grupos armados e o abuso sexual de mulheres e crianças.

“Estou em Soacha há cinco anos, desde que fugi com meus filhos do departamento de Antioquia porque os confrontos entre os militares e os guerrilheiros estavam duros. Todos nós tínhamos medo. Aqui eu me sinto feliz, tenho ajuda, os garotos estudam e trabalham. Precisaria de mais dinheiro do governo, eles só nos ajudaram no início”, reclama Izelda Marieta. “Tem violência e bandos criminais aqui também. Mas é só não se misturar com eles, que não tem risco”, acrescenta ela.

Nas ruas de Soacha, não há asfalto, saneamento e nem há água encanada na região (Foto: Tahiane Stochero/G1)

“Cerca de 80% dos deslocados são mulheres e crianças, que tiveram maridos e pais mortos ou recrutados forçadamente para integrar grupos ilegais, como as Farc ou paramilitares. Ameaçadas, estas mulheres são obrigadas a deixar suas casas no campo e se mudar para áreas metropolitanas, como Soacha, onde têm dificuldades de conseguir trabalho e vivem sob temor também de atores armados ilegais e de abuso sexual”, diz a oficial de serviços humanitários da Acnur na Colômbia, Saskia Loochkart.

Fugitivos de todo o país
Cerca de cinco pessoas chegam diariamente a Soacha vindas de todo o país, alegando risco de vida ou após terem sido ameaçadas por grupos armados ilegais, guerrilheiros, paramilitares ou forças públicas. As condições de vida da população são simples. Não há água encanada e saneamento básico em grande parte da favela. As casas são de papelão ou pedaços de telhas de zinco, que não são levadas pelo vento porque grandes pedras, colocadas no teto, as seguram.

Casa dos Direitos é um local em que a Acnur apoia a recepção de deslocados, ouvindo suas histórias e dando a eles informações sobre seus direitos (Foto: Tahiane Stochero/G1)

“A primeira coisa que o deslocado faz quando chega na cidade é procurar a Casa dos Direitos, um lugar que foi erguido pela Acnur com apoio da comunidade e do governo em 2007 e que faz a recepção às famílias. Aqui, ele é ouvido por nossos agentes e preenche um formulário em que explica onde vivia, porque motivos se deslocou, o que aconteceu, se tem documentos, como fugiu”, explica Claudia Milena Pabon, coordenadora da Casa dos Direitos.

“O formulário, com todos os relatos da família, é repassado para o serviço social do governo, que verifica se as informações são verdadeiras para que ele possa solicitar a certidão de ‘desplazado’, que lhe dá direito a várias ações sociais, como saúde, educação e um auxílio financeiro por cerca de 3 meses”, acrescenta ela. O tempo previsto para o governo conceder a certidão de “desplazado” é de 30 dias, mas isso costuma demorar até 3 meses, diz Claudia.

Marta fugiu após paramilitares descobrirem que marido foi soldado e faz aulas de panificação para conseguir trabalho (Foto: Tahiane Stochero/G1)

“Moro há um ano morando em Soacha e até agora não recebi apoio financeiro. Acho que minha certidão não foi concedida, mas continuo buscando meus direitos, porque ninguém me avisou nada. Agora quero um trabalho. Estou frequentando as aulas de panificação aqui no albergue da Pastoral Católica e pretendo ajudar meu marido”, diz Shirlei Yunos.

Ela conta que teve de fugir desesperada com a família da cidade de Tolima após paramilitares descobrirem que seu marido havia sido soldado do Exército colombiano e terem tentado recrutá-lo forçadamente para atuar nas milícias armadas.

“Uma das maiores dificuldades que temos com os deslocados é arranjar emprego, pois a oferta para este tipo de pessoa é complicada e limitada. A maioria dos deslocados são campesinos. Eles não estão acostumados com a construção civil, com trabalhos urbanos, de escritório, e outras atividades. É um grande choque para eles sair do meio da selva, de zonas rurais, e se adaptar à cidade”, explica Olga Arboled, coordenadora da Unidade de Atenção e Orientação à População Desplazada (UAO) de Soacha, escritório que auxilia deslocados a obter documentos e direitos.

“Tivemos um aumento grande de pessoas chegando a Soacha entre 2002 e 2003 e também em 2007. Atualmente, a situação está estável”, diz.

Moradores de Soacha enfeitaram ruas para as festas de fim de ano (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Deslocados pela violência
Uma lei colombiana de 2007 considera como deslocado “toda pessoa que foi forçada a migrar dentro do território nacional, abandonando sua localidade de residência ou atividades econômicas habituais porque sua vida, integridade física, segurança ou liberdade estão vulneráveis ou se encontram diretamente ameaçadas em decorrência de qualquer uma das situações: 1) conflito armado interno; 2) distúrbios ou tensões internas; 3) violência generalizada; 4) violações maciças dos direitos humanos; 5) infrações ao direito internacional humanitário; 6) ou outras circunstâncias não elencadas dentre as anteriores que alteram drasticamente a ordem pública”.

Segundo o chefe do escritório de proteção da agência, Andres Celis, o número de deslocados internos cresceu no país no início dos anos 2000 devido ao aumento do número de combatentes, à formação de grupos paramilitares ligados ao narcotráfico e ao surgimento de facções criminais. “Antes, só havia a guerrilha (as Farc). Atualmente, o contexto é complexo, há quadrilhas criminosas que agem mediante extorsão para dominar cidades e grupos armados ilegais formados por desmobilizados, paramilitares ou narcotraficantes, como as facções Águias Negras e Rastrojos”, explica Celis.

Policiais são levados para Soacha em pequenos caminhões de carga; grupos armados de desmobilizados atuam na região (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Em Soacha, grande parte dos desmobilizados são mulheres (60%) e crianças e adolescentes com menos de 18 anos (41%). Entre os jovens com idades entre 13 e 26 anos, 56% não frequentam a escola.

Um levantamento realizado pelo UAO aponta que 45% deles foram obrigados a deixarem suas casas supostamente por atuação de grupos de autodefesa ou paramilitares e outros 22% pelas Farc.

Para atender quem chega a Soacha sem parentes ou conhecidos, a Pastoral Social, da Igreja Católica, construiu um albergue, que abriga até 40 pessoas por um período máximo de 15 dias. “Muitas pessoas chegam aqui perdidas, desesperadas, e precisam de um tempo para se adaptar e buscar um lugar para ficar. Aqui garantimos proteção e comida”, diz Susana Garzán, que coordena o local.

Uma das pessoas que buscou abrigou ali foi a desempregada Marta Cecília Beroglia, de 38 anos. “Cheguei a Soacha com três filhos pequenos e sem marido. Não estou trabalhando, porque estou doente, mas quero ficar. Tenho medo de voltar para minha cidade, meus familiares eram perseguidos, matavam as pessoas. Aqui me sinto segura”, desabafa.


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