‘Farc assassinam inocentes’, afirma guerrilheiro que desertou há um mês

Fonte: G1

Por Tahiane Stochero

Ex-guerrilheiro diz que as Farc estão enfraquecidas e que não possuem mais capacidade de mobilização (Foto: Tahiane Stochero)

G1 conversou na Colômbia com ex-integrantes de grupos armados. Juan, que atuou por 5 anos nas Farc, diz que ‘guerrilha está por acabar’

Juan (nome fictício), de 23 anos, atuou como guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) durante os últimos 5 anos.

No último dia 4 de novembro, ele e a mulher, também de 23 anos, resolveram desertar: fugiram, durante a madrugada, do acampamento em que estavam com a Frente 40 da guerrilha no departamento de Meta, no centro do país. Foram perseguidos a tiros pelos ex-companheiros, que tentavam impedir a fuga. Após sete dias caminhando na selva, localizaram uma patrulha do Exército, para a qual se entregaram.

“Eu estava incorporado na Companhia Marquetália, e o que mais me incomodava era o trato com a população civil. Às vezes eles eram bons, outras, assassinavam gente inocente, que não tinha nada a ver. E foi isso o que mais me comoveu para vir me entregar. Eles matavam as pessoas com tiros, na cabeça, por nada”, diz Juan, que concedeu entrevista exclusiva ao G1 na sede do programa de desmobilização do governo em 2 de dezembro.

A reportagem do G1 esteve na Colômbia durante uma semana e conversou com ex-guerrilheiros e um ex-paramilitar que integrou por quatro anos as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), que se desmobilizaram em 2002 após um acordo com o governo federal. Atualmente, o programa de desmobilização e reintegração de grupos ilegais recebe individualmente integrantes das Farc que queiram largar as armas, dando-lhes alimentação, hospedagem, ensino, atendimento médico e também preparação profissional. Segundo o governo, cerca de 4 guerrilheiros se desmobilizaram diariamente em 2011.

O ex-guerrilheiro Juan pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado porque teme retaliação após ter largado as Farc. Na companhia, realizava diversas tarefas: carregava mantimentos e malas, limpava o terreno em acampamentos, e era também armeiro, realizando a limpeza e a manutenção de fuzis, como o AK-47 e o israelense Galil, e também de pistolas e revólveres. Ele diz que “não gostava das armas” e que “nunca” matou uma pessoa. Mas, na mata, durante os deslocamentos, “sempre andava com meu fuzil (um AK)” e usava o uniforme camuflado.

“Eu era muitas vezes maltratado. Me batiam, agrediam. A comida também era muito ruim. Só nos alimentávamos de arroz, cereais e massa. Não nos deixavam também ter filhos. Minha mulher foi obrigada a abortar, deram-lhe remédio logo que engravidou. Ela passou mal, ficou muito ferida psicologicamente”, desabafa. “Muitos integrantes das Farc já desertaram, mas poucos do braço operacional. A guerrilha está fraca, vem perdendo muita força desde a morte de diferentes comandantes. As Farc estão por acabar, não têm mais nenhuma capacidade de mobilização”, acredita ele.

“Os guerrilheiros choraram e ficaram muito tristes com a morte de Mono Jojoy, foi muito impactante no nosso meio. Muitos acreditavam nele, na capacidade que ele tinha para conquistar o que eles buscam. As Farc ainda querem tomar o controle da Colômbia. Este é um sonho pelo que lutam”, diz o desertor.

Mono Jojoy era o líder militar dos guerrilheiros e foi morto em uma operação do Exército colombiano em setembro de 2010. Já em 5 de novembro deste ano foi morto, também em uma ação das Forças Armadas da Colômbia, o chefe das Farc Guillermo León Sáenz Vargas, também conhecido por “Alfonso Cano”.

Nas ruas de Bogotá, a capital da Colômbia, pichações com escritos como "Cano vive, a luta continua", em referência ao líder das Farc morto pelo Exército em 5 de novembro (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Para o desertor, os guerrilheiros mataram no dia 26 de novembro em Calcutá quatro militares que eram mantidos reféns por dois motivos: retaliação à morte de Cano e porque “eles preferem matar os reféns do que entrega-los vivos”. Os militares foram mortos quando tropas das Forças Especiais do Exército cercaram um acampamento da guerrilha. “O que eles sempre queriam é um intercâmbio humanitário, trocar os guerrilheiros presos pelo governo pelos reféns. Mas o governo nunca aceitou”, afirma.

Os guerrilheiros mantêm sob seu poder pelo menos mais 18 sequestrados, segundo o governo, entre eles militares.

Juan diz que foi “iludido” quando integrou as Farc, “porque me prometeram trabalho e dinheiro, mas nunca nos deram nada, nenhuma moeda”. “Nunca mais vi meus pais, minha família. Agora, fui trazido para a capital (Bogotá), para ficar longe da guerrilheira e quero tentar restabelecer uma vida normal, trabalhar, estudar. Desde que me entreguei fui muito bem tratado, nos deram comida boa, remédios. O Exército não nos maltratou. Acredito que muitos outros ainda vão se desmobilizar”, afirma.

Alfonso Cano, ex-líder das Farc morto em novembro, em foto de arquivo de 2000. (Foto: Scott Dalton / Arquivo / AP Photole)

 

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