‘Comida era mais importante que Deus. E boa noite de sono’

Fonte: Veja

Por Cecília Araújo

Youk Chhang no laboratório de fotografia do Museu do Genocídio Tuol Sleng (Foto: Jonh Vink / Centro de Documentação do Cambodia)

Sobrevivente do massacre de 2 milhões de pessoas nos anos 1970 no Camboja, Youk Chhang lembra a tragédia pessoal e conta como convive com os traumas

Youk Chhang tinha apenas 13 anos quando o regime do partido comunista Khmer Vermelho (1975-1979), chefiado pelo lendário Pol Pot, foi instaurado no Camboja. Daquela época, tudo o que ele lembra é que era forçado a trabalhar de forma desumana e passar muita fome. Os líderes do governo, cujos nomes foram mantidos em segredo por dois anos, fizeram do país um grande centro de detenção, que depois se transformou em um verdadeiro cemitério. Repressões e massacres causaram a morte de cerca de 2 milhões de pessoas – o equivalente a 20% da população na época. Bastava contrariar os ideais do regime para ser assassinado a sangue frio(relembre os fatos que antecederam o genocídio em quadro no fim da reportagem). Vendo todos os seus parentes serem mortos, a mãe de Chhang convenceu o filho a fugir pela fronteira, em 1979, e tentar asilo nos Estados Unidos. O cambojano só retornou em 1992, para ajudar as Nações Unidas a supervisionar as fraudulentas eleições. Desde então, ele começou um incansável trabalho de coleta de documentos e fotografias da época da Kampuchea Democrática, para alertar as novas gerações e ilustrar sua luta contra a impunidade.

Apenas em 2010, 31 anos após o genocídio, ele pode ver o primeiro efeito concreto de seus esforços: um dirigente do Khmer Vermelho foi julgado e condenado pelo tribunal internacional: King Guek Eav, conhecido como Dutch. No mês passado, outros três altos dirigentes do Khmer Vermelho sentaram-se no banco dos réus: o chefe de estado, Khieu Samphan, o ideólogo e número dois do regime, Nuon Chea, e o ex-ministro de Exteriores, Ieng Sary. Mas tanto tempo se passou, que os octogenários são quase desconhecidos hoje em dia. E o julgamento, que pode se estender por anos, ainda depende do estado de saúde deles. Outra acusada, por exemplo, a ex-ministra de Assuntos Sociais, Ieng Thirith, não assiste ao processo por ter sido declarada demente. Os procuradores apelaram, e ela permanece presa até que a Câmara de Apelações tome uma nova decisão, o que deve acontecer no início desta semana – mas é grande a probabilidade de ser libertada. Apesar disso, o veredito é ansiosamente aguardado por muitos cambojanos que ainda clamam por justiça, assim como Chhang, hoje cientista político. Ao site de VEJA, ele lembra os piores momentos de sua tragédia pessoal e acredita que a disseminação da história de seu país pode servir de exemplo para se evitar outros massacres pelo mundo.

Alguns dos 8.000 crânios humanos guardados em um centro histórico de Phnom Penh (Foto: Paula Bronstein/ Getty Images)

Quais memórias do Khmer Vermelho o senhor ainda guarda? O que eu mais me lembro é que sentia muita, muita fome. Queria tanto comer, que não conseguia pensar em mais nada. Como não havia comida disponível, tinha que me virar com o que via pela frente: folhas e gramíneas. Eu me lembro disso a cada vez em que sinto fome ainda hoje. Imagens daquela época vêm à minha mente o tempo todo. Comida era mais importante do que Deus. E ter uma boa noite de sono – o que nunca tive. Éramos forçados a trabalhar e nos separar de nossa família. Quando olho para trás, vejo que consegui sobreviver apenas porque nunca pensei na morte. Durante o regime, ficávamos sabendo de algumas perdas de forma gradual: meu cunhado e minha sobrinha morreram de fome, meu tio desapareceu. Mas tentávamos não pensar nisso para seguir em frente, minha mãe e eu. Foi o instinto humano que nos ajudou a resistir.

Como o senhor conseguiu fugir para os Estados Unidos? Mesmo com o afastamento de Pol Pot, em 1979, a vida em Phnom Penh (capital do Camboja) não oferecia muitas esperanças. E minha mãe tinha medo de que eu fosse recrutado para o Exército se continuasse no país. Ela perdeu toda a família durante o Khmer Vermelho, inclusive seus pais. Eu tinha sido o único a sobreviver, a última coisa que ela gostaria de perder naquele momento. Foi ela que me incentivou a ir até a fronteira com a Tailândia numa madrugada. Apostei em seguir o fluxo, embora fosse comum o contrabando de pessoas ali. Tive de lidar com uma série de obstáculos para conseguir atravessar as minas terrestres e chegar ao campo de refugiados Khao-I-Dang. Até hoje, quando retorno a esse local, não consigo entender como consegui fugir. Só depois de alguns anos pude finalmente seguir viagem para os Estados Unidos, onde arrumei um emprego e ingressei na Universidade do Texas.

Em que contexto decidiu retornar ao seu país? Voltei ao Camboja em 1992, com a missão de ajudar as Nações Unidas a supervisionar as eleições daquele ano. Foi quando reencontrei minha mãe, que não havia deixado o país. Quando as eleições terminaram, ela insistiu para que eu retornasse aos Estados Unidos. Obedeci, mas com vontade de voltar ao Camboja e entender o que tinha acontecido entre 1975 e 1979. Ao pensar naquela época, uma raiva imensa tomou conta de mim: além de terem matado milhões de pessoas durante o Khmer Vermelho, os remanescentes do regime tinham boicotado as eleições e impedido a população de ir às urnas em 1992. Continuei meus estudos nos Estados Unidos, participando de projetos de pesquisa sobre o genocídio. Até que o Departamento de Estado americano me enviou de volta ao meu país, ao lado de outros funcionários, para investigar os crimes cometidos pelo Khmer Vermelho. Vi nisso uma oportunidade de me vingar.

Por que o senhor decidiu ajudar a montar o Centro de Documentação do Camboja, do qual é diretor hoje? Ao mesmo tempo em que queria reunir informações históricas para entregá-las a um tribunal, dando provas dos crimes para que fossem finalmente julgados, também achava importante coletar documentos e fotos para fins de memória. A busca foi bastante difícil: as evidências estavam em pedaços, espalhadas por todos os cantos do país. Mas não via a dificuldade como um problema, apenas um desafio. Sentia que era minha responsabilidade – quase uma obrigação cívica – reunir todos os documentos possíveis dos últimos 12 anos. Lentamente, fizemos progressos, até que conseguimos localizar um arquivo da Santebal (polícia secreta do Khmer Vermelho). Conseguimos mapear cerca de 200 prisões e 20.000 fossas comuns pelo país. São centenas de milhares de documentos, fotografias, filmes e entrevistas com sobreviventes e ex-membros do regime. Com as evidências em mãos, a ONU nos ajudou e convenceu a comunidade internacional a colaborar para o restabelecimento da democracia no país.

Nuon Chea, Khieu Samphan e Ieng Sary (Foto: Mark Peters/ Reuters)

O que o senhor espera como veredito do julgamento de Khieu Samphan, Nuon Chea e Ieng Sary? Eles já foram julgados pela população. Todos sabemos quem são e o que fizeram. Presenciamos os crimes, somos vítimas deles. Os sobreviventes se engajaram, participaram, testemunharam e dividiram suas tristes experiências para que, agora, a decisão possa ser tomada pelos juízes, de acordo com as evidências e dentro da lei. Embora muitos considerem que o julgamento veio tarde demais – ou que três líderes é pouco diante do grande número de matadores -, não existe a possibilidade de que sejam inocentados. Não tenho dúvidas de que eles precisam ser punidos. Se fizeram tantas coisas erradas, por que não estão presos? Se não foram eles que provocaram o massacre, quem o fez? Depois de todos esses anos, não é mais uma questão de vingança, é uma necessidade. O país precisa que a justiça seja feita para entrar em ordem novamente, para que sua sociedade consiga seguir em frente.

O argumento dos réus é de que o genocídio era “necessário” para “salvar os cambojanos do Vietnã”. Chea chega a dizer que o Khmer Vermelho “não matou tantos”. “Matamos apenas as pessoas más, deixamos as boas”, diz… Os líderes do Khmer Vermelho devem questionar a si mesmos sobre seus argumentos. Não é possível que acreditem que não fizeram nada de errado. Eles podem culpar o islã, a China, o Vietnã, Buda. Mas, no fim das contas, foram eles que cometeram crimes, muitas vezes com as próprias mãos. Onde já se viu ter necessidade de sacrificar a vida de 2 milhões de pessoas para manter o país a salvo? Defender uma nação é pensar em políticas pelo bem do seu povo, não colocar em prática medidas de extermínio da população. O que fizeram pode facilmente ser interpretado como crimes contra a humanidade. Os cambojanos sobreviventes e as novas gerações ainda sofrem as consequências desse passado.

Se os líderes forem finalmente presos, sua missão estará cumprida? O Camboja ainda sofre as consequências do Khmer Vermelho, que podem ser vistas na precária infraestrutura, na incompletude das famílias, na frágil economia. Além disso, ainda existem apoiadores do regime. Mesmo se alguns líderes forem para a prisão, temos um longo trabalho pela frente. É preciso ensinar detalhes da história às gerações mais jovens, para que manter viva a memória do país e evitar que outros genocídios aconteçam. O holocausto aconteceu há mais de 60 anos. Quem imaginaria que outro genocídio poderia acontecer poucas décadas depois, no Camboja? O mundo ainda não está a salvo de massacres, e isso exige uma responsabilidade global. Cada estado precisa desenvolver suas próprias políticas para que neste século, que ainda está no início, possamos viver em uma sociedade melhor.

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