Refugiado afegão luta por asilo na Austrália: “se voltar, serei morto”

Fonte: Terra Brasil

Por Liz Lacerda

 

"Se eu voltar para o Afeganistão, eu tenho certeza que vou morrer", diz Ismail Mirza Jan (Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)

 

Manhã de 16 de fevereiro de 2010. O voo EY450 pousa no Aeroporto Internacional Kingsford Smith, em Sydney. Dentro dele, passageiros ansiosos se levantam para o desembarque. Ismail Mirza Jan permanece sentado. Nervoso, o afegão de 27 anos avalia as possibilidades diante do destino que havia sido selado duas horas antes, quando ele jogou o passaporte falso na lixeira do avião. A atitude daria um novo rumo da vida do rapaz que fugiu do próprio país depois do assassinato do pai pelo Talibã há dez anos.

Sem documentos, Ismail se apresentou na Imigração australiana como refugiado. Foi imediatamente transferido para o Centro de Detenção de Villawood, onde permanece até hoje. Ele não sabia que, desde 1992, a Austrália adota a política de detenção compulsória para aspirantes a asilo político. Atualmente, há cerca de seis mil pessoas na mesma condição.

Ismail vai ser o primeiro afegão deportado da Austrália, depois da assinatura de um Memorando de Entendimento entre as autoridades dos dois países. Entre outras medidas, o acordo prevê a concessão de novos passaportes aos expatriados. Assim, Ismail deve ser mandado de volta para o lugar onde ele nunca mais queria viver. “Se eu voltar para o Afeganistão, eu tenho certeza que vou morrer”, disse.

Os traços asiáticos não escondem a origem Hazara de Ismail, diferente da maioria Pashtun do Afeganistão. “O problema é étnico e religioso, porque eles consideram os Hazaras infiéis, e o Talibã continua poderoso em todo o país. Os fundamentalistas não se importam com a própria vida e nós não podemos lutar com alguém com uma bomba presa no corpo”, acrescentou.

O pai de Ismail morreu lutando. Então, aos 17 anos e sem esperanças, o rapaz cruzou a fronteira para o Paquistão, depois de duas noites de caminhada na floresta. Seguiu para o Irã, a Turquia, a Grécia e, escondido no fundo de um navio por 32 horas, chegou à Itália. Foi para a França, para a Inglaterra e para a Irlanda, onde viveu por cinco anos até ter negada a condição de refugiado. A Austrália apareceu como opção. “Esse foi o maior erro da minha vida. Eu me arrependo todos os dias. Depois de ter passado fome, sede e muito sofrimento, agora sou tratado como criminoso”, lamentou. Mas ele conta com apoios.

Uma vez por semana, Amalia Sagallo cruza os portões do Centro de Detenção de Villawood para visitar Ismail. “Nós construímos uma amizade muito forte. Ele me chama de irmã australiana e eu me refiro a ele como meu irmão afegão”, afirmou a estudante de 20 anos que se sensibilizou com a história do rapaz. Com abaixo assinados e cartas a políticos, Amalia aposta na permanência do amigo. “A deportação forçada vai contra os direitos humanos e todos os valores éticos e morais que eu aprendi na Austrália”, comentou.

De acordo com a ONG Refugee Action Coalition, a situação de Ismail Mirza Jan vai determinar o futuro dos refugiados afegãos detidos em solo australiano. “O caso de Ismail é um teste porque, se o governo conseguir, muitos outros serão mandados de volta para um país que não é seguro. Há soldados australianos morrendo no Afeganistão. Além disso, nenhum governo assume responsabilidade pela segurança dos deportados”, declarou Mark Goudkamp, porta-voz da entidade.

A Refugee Action Coalition luta pelo fim da detenção compulsória na Austrália. “Essas pessoas já passaram por experiências horríveis, foram perseguidas e algumas até torturadas lutando por mudança em seus países. Daí, chegam aqui pensando que estão em uma democracia e são presas. Isso é uma crueldade psicológica”, condenou.

Segundo Ismail, é realmente difícil manter a saúde física e mental no Centro de Detenção. “Eu já vi pessoas apanharem, porque alguns criminosos dividem o mesmo espaço com os imigrantes, e outras pessoas se matarem aqui dentro porque seriam deportadas”, disse. Três detentos cometeram suicídio em 2010 em Villawood e outra morte aconteceu em outubro passado.

Através de um porta-voz, o Departamento de Imigração declarou que “a Austrália respeita a Convenção das Nações Unidas para Refugiados. A segurança (de pessoas ou grupos) é baseada em contra-informações. Ninguém é deportado se estiver correndo risco de ser assassinado ou gravemente ferido”.

O caso de Ismail Mirza Jan está sendo analisado pelo Tribunal de Revisão, o último recurso antes da deportação. O passaporte emitido pela Embaixada do Afeganistão vale até 27 de janeiro de 2012. “Eu acredito que Deus vai resolver e que os australianos vão entender minha situação. Eu só quero ser feliz em uma terra que eu possa chamar de lar”, concluiu.

Uma resposta para Refugiado afegão luta por asilo na Austrália: “se voltar, serei morto”

  1. Rosario disse:

    Puxa vida!!! e a Austrália é uma democracia hein??!!!! Será que não há, no meio desses políticos, um, que seja cristão,para defenderesse pobre rapaz? onde está o amor, a misericordia, a compaixão, a empatia????Cade os cristãos desse país? Ele erroneamente escolheu a Austrália, coitado. Tomara DEUS o encaminhe p/ um país que ele um dia ele possa chamar de seu, porque nosso pais é aquele que nos dá condição de viver com os nossos dignamente.

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