Em direção ao mar por um futuro melhor

Fonte: Rádio Nederland Wereldomroep Brasil

Por Lex Rietman

Foto: L. R.

O centro de refugiados em Ceuta, um enclave espanhol no Marrocos, está novamente lotado nas últimas semanas. Os africanos descobriram uma nova maneira para chegar até lá: nadando ao redor da cerca da fronteira com vários outros refugiados de uma vez, pois isso diminui as chances de serem pegos.

O crepúsculo cai sobre o campo de refugiados de Ceuta. O sol se põe cedo nesta tarde de inverno, mas ainda há luz suficiente para poder apreciar a vista desta cidade-fortaleza espanhola na costa norte do Marrocos. Aos nossos pés está a cidade, à esquerda o Estreito de Gibraltar. Do outro lado os últimos raios de sol dão um brilho dourado aos penhascos. Lá começa a rica Europa – um pretensioso filme hollywoodiano não poderia pensar numa imagem mais clichê.

Crise ou não, a Europa continua sendo um sonho para milhões de africanos. Para os moradores do Centro de Permanência Temporária para Imigrantes (CETI), como é chamado oficialmente este complexo nas montanhas, nos arredores da cidade, o sonho já está metade realizado, pois Ceuta é Europa e ao mesmo tempo não. Do outro lado, na Espanha, começa a zona Schengen. Lá pode-se viajar livremente. Mas chegar a Ceuta já é um grande passo a caminho da realização do sonho.

Fronteira reforçada

Ceuta transformou-se nos últimos anos numa fortaleza quase inexpugnável. Depois das grandes levas que invadiram a fronteira seis anos atrás, quando centenas de africanos conseguiram entrar na cidade vindos do Marrocos, a União Europeia investiu milhões de euros no reforço da fronteira. Além disso, o Marrocos também está trabalhando mais no combate à imigração ilegal nos últimos anos. Em troca, Rabat recebe condições comerciais favoráveis da União Europeia.

Mas todas estas medidas não espantam os refugiados africanos. Ibrahim Traore, um camaronês de 21 anos, está há duas semanas em Ceuta. “Nós pulamos com uns cem homens no lado marroquino do mar. Setenta e oito de nós conseguiram chegar”, diz ele. “Tive muita sorte, pois consegui isso depois de três meses de espera no Marrocos. Do outro lado da fronteira estão centenas, talvez milhares de pessoas como eu escondidas nas montanhas, esperando a sua chance. Alguns já há anos.” Quem tem azar é pego pela polícia marroquina e levado para a fronteira da Mauritânia, três mil quilômetros ao sul.

Recorde de velocidade
“Quatro meses e onze dias.” Com impressionante precisão, Cedrique, de 26 anos, do Chade, conta há quanto tempo está em Ceuta. Ele deve ter batido um recorde de velocidade, pois deixou o vilarejo de sua família “em 12 de março de 2011”. Cedrique também chegou ao enclave espanhol pelo mar, mas não nadando. Ele comprou um barco de borracha com seis marroquinos e conseguiu chegar à costa de Ceuta.

Cedrique parece alegre e otimista. Quando pergunto se ele está bem no centro de refugiados, ele responde: “Sim, não tenho reclamações. Só me entedio de vez em quando.”
O CETI não é um centro comum. Os centros de refugiados na Espanha continental são instituições fechadas controladas pelo Ministério do Interior. As acomodações ruins e o tratamento dado aos imigrantes com frequência recebem fortes críticas de organizações humanitárias.

Autoestima
Mas Ceuta tem, assim como Melila, o outro enclave espanhol no Marrocos, um centro de refugiados aberto, administrado pelo Ministério do Trabalho. Os moradores são livres para estar onde quiserem. Eles recebem um passe com o qual podem circular no enclave. O diretor Carlos Bengoetchea enfatiza a importância psicológica disso. “Dá a eles uma sensação de proteção legal e autoestima”, diz. “Finalmente eles são de novo alguém, depois de, muitas vezes, anos viajando sem documentos e à mercê de policiais corruptos.”

No centro de refugiados eles recebem aulas de informática, idiomas e culinária, e há uma pequena, mas muito utilizada, sala de ginástica. Agora um pouco menor porque a antiga sala ginástica foi transformada em dormitório – por necessidade, porque o centro tem hoje 700 refugiados, 200 a mais do que sua capacidade formal permitiria.

Ambiente descontraído
Não obstante, o complexo tem um ambiente descontraído. “A questão é apenas saber por quando tempo ainda”, diz o diretor Bengoetchea. “Temos que esperar e ver o que o novo governo de direita do primeiro-ministro Rajoy decidirá sobre a existência deste centro. Mas dada a postura de seu partido em relação a imigrantes, não parece favorável.”

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