No Iêmen, distúrbios abrem as portas para rebeldes do norte

Fonte: Último Segundo

Por Kareem Fahim

Crianças do Iêmen mutiladas por batalhas nas guerras do país na cidade de Saada (Foto: NYT)

Depois de anos de combate, rebeldes houthis expressam disposição para participar de novo processo político no país

Nas ruas do bairro medieval da cidade de Saada, no Iêmen, o número de vítimas dos conflitos ficou claro. Meninos e homens mutilados por causa das lutas, alguns sem mãos, olhos e pernas, chegaram de transporte público para cumprimentar um dignitário visitante.

Ao seu redor, antigos prédios, que foram conservados durante séculos, agora estão aos pedaços, destruídos por explosões e estilhaços. Tiros de metralhadoras perfuraram as paredes brancas de uma mesquita, expondo seus tijolos vermelhos.

No jardim do templo, lápides marcam os túmulos de dois dos mortos da guerra, representando inúmeras outras vítimas: moradores dizem que milhares morreram durante seis guerras diferentes que varreram províncias do norte do Iêmen, mas admitem que é difícil saber o número exato.

A luta teve início em 2004, mas permaneceu em grande parte desconhecida para o mundo exterior. Nela, o presidente Ali Abdullah Saleh enviou suas Forças Armadas para derrotar um grupo de rebeldes conhecidos como houthis. O governo bombardeou aldeias e cidades, pois acusou os houthis de sequestros e assassinatos. Milhares de civis se refugiaram em acampamentos.

Esse foi apenas um dos muitos conflitos que desestabilizaram o Iêmen. Os separatistas continuam a exercer sua dominância sobre o sul do país, e um braço da Al-Qaeda voltou a atuar na regiãoagora devido à distração do governo com um levante popular e um acordo para que Saleh deixe o poder.

Os fatores regionais das guerras no norte passaram a ter mais peso. O governo, sem muita prova, acusou o Irã de interferir enquanto a Arábia Saudita, envolvia na luta, atacava os houthis com uma força esmagadora. Saleh desviou recursos destinados à caça da Al-Qaeda, para enviar forças de contraterrorismo treinadas pelos Estados Unidos para combater os rebeldes.

Agora, na cidade de Saada, a sede dos houthi, já não há tumultos. Declarações calmas e sem agressividade feitas recentemente pelos houthis deixaram uma sensação de que eles estariam planejando um ataque surpresa.

Repórteres que acompanhavam um diplomata das Nações Unidas em uma rara visita à região na semana passada viram bairros bastante danificados pela última rodada de combates – centenas de casas foram destruídas – e até mesmo um acampamento para pessoas deslocadas está em más condições devido às guerras. Mas havia também planos para a reconstrução, bem como lojas movimentadas e postos de gasolina sem as filas que se formaram em outras cidades iemenitas durante a atual crise política.

O diplomata, Jamal Benomar, o enviado da ONU para o Iêmen, disse que o líder houthi expressou ter vontade de participar de um novo processo político que começou no mês passado. Os houthis nunca fizeram parte de um acordo apoiado internacionalmente para tirar Saleh do poder, mas as declarações do líder Abdul Malik al-Houthi, deram esperanças de que ele possa dar um fim à sua luta armada.

“Eles precisam fazer política”, disse Benomar após uma reunião com Abdul. “E quanto mais cedo, melhor.”

O levante popular Iemenita já dura 11 meses e deu uma vantagem ao movimento. Os houthis apoiaram a revolta popular e forjaram novas alianças nas regiões aonde ocorreram os protestos em todo o país. Ao mesmo tempo, eles aproveitaram a crise política para expandir o controle que tinham sobre certos territórios, assim como seus rivais se aliaram com a oposição islâmica do país e tentaram fazer o mesmo.

Analistas afirmam que os houthis agora estão tentando construir uma base de apoio que cultivaram ao longo dos anos, encontrando aliados entre as pessoas que ficaram irritadas com os ataques do governo contra os houthis ou até mesmo impressionadas com as habilidades de organização de um movimento.

Majid el-Fahed, um gerente de projeto sênior que trabalha com a organização anti-conflito finlandesa chamada Crisis Management Initiative, que viajou a Saada muitas vezes, disse que, apesar da juventude e inexperiência dos líderes do movimento, eles têm sido administradores inteligentes, racionando combustível para que um quarto seja utilizado por geradores elétricos e o resto distribuído aos agricultores. “Acho que eles querem fazer parte da política do Iêmen para que possam ser socialmente eficazes”, disse.

Os protestos anti-governo que tomaram conta do Iêmen levaram milhares de pessoas às ruas de Saada para protestos semanais. Em março, enquanto lutadores dos houthi avançavam sobre a cidade, o seu governador fugiu, levando consigo dinheiro que roubou do banco central.

Agora a cidade é administrada por uma improvável coalizão que inclui tropas do governo e ex-soldados, houthis e o novo governador, um proeminente negociante de armas que recebe um salário do Estado. Muitas pessoas na cidade disseram que os houthis são os membros mais poderosos da coalizão e que ainda há muita confusão – e preocupação – sobre seus objetivos.

Criança caminha pela ruína de um prédio na cidade de Saada, no Iêmen (Foto: NYT)

Ao mesmo tempo, os problemas no norte estão longe de um fim. Dezenas de pessoas foram mortas nas últimas semanas durante confrontos em Damaj, uma cidade nos arredores de Saada, entre combatentes houthi e ultraconservadores salafistas.

Os houthis de Saada se queixam de que muitos dos salafistas são estrangeiros. Um hospital em Saada estava cheio de salafistas feridos, alguns dos quais disseram ter medo de sair dali e sofrer ataques houthis. Um administrador do hospital disse que o hospital é financiado pela Arábia Saudita e tem a missão de prestar cuidados e manter-se fora de qualquer problema político.

Nas enfermarias, os pacientes insistiam em ser ouvidos. Neste meio, encontravam-se dois argelinos e um estudante dos Emirados Árabes Unidos, que disseram que tinham acabado de chegar para estudar. “Então, a luta começou”, disse um deles.

Alguns veem a luta como uma armadilha para os houthis, para envolvê-los em um novo conflito e mantê-los fora da política. Em um comunicado divulgado após a visita de Benomar, o líder houthi avaliava o futuro dizendo que “no contexto de um sistema justo”, o movimento até poderia considerar a formação de um partido político.

“Este é um passo para frente”, disse Benomar, depois que seu avião levantou voo deixando a cidade de Saada. “É um passo para frente dentro de um longo caminho a ser percorrido.”


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